Architecture Hunter: a maior página de arquitetura do mundo é brasileira — e feminina

Por Luiza Vilela 19 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Architecture Hunter: a maior página de arquitetura do mundo é brasileira — e feminina

Era junho de 2013 quando a então caloura de arquitetura, Amanda Ferber, decidiu criar uma pasta de referências visuais no celular para organizar os estudos.

De forma despretensiosa, mas impressionada com a qualidade dos projetos que havia reunido, ela resolveu abrir uma conta no Instagram para compartilhar aquelas imagens. Dali nasceu a Architecture Hunter, hoje considerada a maior página de arquitetura independente do mundo na plataforma, com 3,2 milhões de seguidores.

No começo, a página somente distribuía os projetos na rede social. Pouco depois, ela aumentou a ambição: das fotos já prontas dos projetos, passou a produzir vídeos e filmes sobre eles, abriu premiações inéditas no Brasil e no mundo, e foi conquistando um terreno onde nenhum outro brasileiro chegou antes.

"Eu fundei a empresa de maneira não intencional. Não imaginava que estava criando um negócio, porque começou estritamente como um hobby", relembra Amanda Ferber, fundadora do projeto, em entrevista à Casual EXAME.

Invertendo a lógica tradicional do mercado

A trajetória de Amanda chama a atenção no ambiente de negócios por fazer o caminho inverso do que a maior parte dos empreendedores faz.

Em vez de conceber um produto ou serviço e depois investir para atrair clientes, a arquiteta primeiro consolidou uma audiência massiva: a Architecture Hunter já passava de 1,5 milhão de pessoas quando ela se formou, em 2018. Foi só então que ela começou a estruturar a monetização.

"Eu tive muito acesso a como montar essa comunidade antes de estruturar a página como uma empresa. E tive ajuda, nessa parte, dos meus dois sócios. Mas foi uma trajetória longa e de construção, vendo concorrentes e pensando o que eu poderia fazer de diferente deles", revela.

Até a institucionalização da página houve muito estudo. Ferber estagiou com o renomado arquiteto Marcio Kogan — seu ídolo de faculdade — e passou dois anos na equipe do ArchDaily, o maior portal de notícias de arquitetura do mundo. Foi ali que o propósito mudou.

"Entendi que meu coração estava mais na comunicação do que no desenho técnico", conta ela.

Do desenho arquitetônico para o cinema

Ferber identificou uma lacuna no mercado editorial tradicional, que era excessivamente focado em textos longos e fotos estáticas, e decidiu apostar na linguagem audiovisual. A virada de chave posicionou a Architecture Hunter como uma plataforma video first, focada no conceito de slow content.

Em 2020, os dois sócios entraram: o administrador Matheus Daite e o produtor audiovisual Luiz Feriani (um dos fundadores da Spray Filmes e produtor de séries como Carcereiros). Juntos, eles desenharam um planejamento estratégico para transformar a curadoria digital em um ecossistema sustentável.

Dali para frente, o crescimento da página e dos negócios que a envolvem veio em uma curva acentuada. "Em 2021 lançamos o YouTube. Em 2022, o nosso próprio site com os filmes e os artigos. Em 2024, a gente lançou o nosso prêmio internacional de arquitetura, um passo muito importante, tanto em posicionamento de marca quanto financeiramente", completa a fundadora.

Até 2024, o modelo de negócios da Architecture Hunter era estritamente B2B, sustentado pelo patrocínio de grandes marcas que financiavam as produções de vídeo. Para preservar a credibilidade e a independência da curadoria, a empresa nunca aceitou receber pagamentos diretos de arquitetos para exibir seus projetos.

O cenário financeiro ganhou fôlego com a diversificação de produtos voltados ao consumidor final (B2C) — em especial pelo Architecture Hunter Awards, um prêmio internacional pago por meio de inscrições dos próprios profissionais. Logo na estreia, a iniciativa respondeu por 15% do faturamento bruto do projeto.

Em 2025, o ecossistema expandiu-se com o Architecture Hunter Forum, um evento presencial de dois dias realizado no icônico Auditório Ibirapuera, projetado por Oscar Niemeyer, que teve ingressos esgotados dez dias antes da abertura. "E nesse ano vamos fazer a segunda edição", completa Ferber.

A receita vinda da frente B2C saltou para 20% do faturamento da empresa no ano passado, e a expectativa para 2026 é que atinja entre 25% e 30% do bolo total.

O Brasil no mercado de arquitetura

A equipe hoje viaja o mundo inteiro para apresentar os desenhos e construções mais inovadores, diferentes e artísticos que encontram. Mas pouca gente sabia, ao menos até a criação do Fórum, que a página era brasileira. Sobretudo porque as publicações são todas feitas em inglês.

A escolha do idioma veio para atingir um público mais global. Foi uma aposta que deu certo: apenas 9% dos seguidores da página estão no Brasil. Os outros 91% são pulverizados internacionalmente: 25% na Europa, 10% nos Estados Unidos, além de fatias expressivas na Índia, México, Austrália e Canadá.

"A verdade é que muita gente nem imagina que esse é um projeto brasileiro, que começou por aqui. Quando fizemos o primeiro Hunter Internacional Forum, que traz algumas das vozes mais influentes da arquitetura mundial, foi uma surpresa para muita gente", complementa Ferber.

"Conseguimos trazer sete palestrantes internacionais e atrair um público altamente qualificado, sendo que mais de 60% das pessoas vieram de fora de São Paulo", destaca Amanda.

Atualmente, a receita geral da companhia é dividida em 70% vindos de clientes do mercado nacional e 30% do mercado internacional (liderado pela Europa com 60% e Estados Unidos com 20%).

Expansão e o futuro na educação

Com um crescimento gradual e sustentável, a Architecture Hunter foi construída sob o modelo bootstrapped. Ou seja, capitalizada exclusivamente pelo reinvestimento das próprias receitas, sem o aporte de fundos de venture capital.

A relevância da marca no exterior foi tamanha que, em 2022, uma empresa norte-americana tentou comprar a operação (diante da recusa, o grupo acabou adquirindo o portal concorrente Architizer).

Agora, os sócios preparam-se para o passo mais ambicioso da companhia: a entrada no setor de educação executiva por assinatura em 2027. A ideia é criar uma plataforma digital de conteúdo técnico aprofundado, que deve funcionar como uma evolução digital das antigas e prestigiadas revistas técnicas de arquitetura, que perderam espaço no mercado físico.

"Para desenvolver essa plataforma educacional e estruturar a tecnologia necessária, estamos considerando, pela primeira vez, abrir o negócio para um investidor estratégico", antecipa Amanda. O objetivo, finaliza ela, é fazer com que a frente B2C se torne a principal linha de receita da marca nos próximos anos, consolidando o Brasil como o polo gerador das discussões mais importantes da arquitetura global.

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