As fabricantes brasileiras que abastecem Chanel e Gucci

Por Gustavo Frank 14 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
As fabricantes brasileiras que abastecem Chanel e Gucci

O Brasil tem o maior rebanho bovino do mundo. Tem também uma das maiores indústrias de curtimento do planeta, com mais de 30 mil empregos diretos e uma receita de exportação que ultrapassou US$ 1,26 bilhão (R$ 7,2 bilhões) em 2024, alta de 12,5% sobre o ano anterior, segundo dados do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB). O que falta, em geral, é o crédito pelo produto final. O couro que sai de curtumes no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais chega à Europa como matéria-prima, é processado por curtidoras italianas na região do Vêneto e volta ao mercado embalado com etiqueta de luxo. Para o consumidor que compra uma bolsa da Fendi ou da Saint Laurent, a origem da pele raramente aparece.

Essa cadeia tem nomes e endereços. Uma investigação da ONG britânica Earthsight, publicada em junho de 2025 sob o título "O preço oculto do luxo", rastreou remessas de couro bovino do Pará para curtumes italianos e mapeou como o material chegava, já transformado e rebatizado, às prateleiras de marcas como Chanel, Gucci, Balenciaga, Fendi, Coach e Saint Laurent.

Entre 2020 e 2023, mais de 14.700 toneladas de couro brasileiro foram exportadas para a Itália por um único frigorífico. Cerca de 25% dessa carga abasteceu as curtidoras Conceria Cristina e Faeda, ambas localizadas no Vêneto. Lá, o produto entra como wet blue brasileiro e sai como "couro italiano" para as maisons.

O caminho 'invisível'

Historicamente, o Brasil exporta grande parte de sua produção em estágio inicial de beneficiamento, o chamado wet blue, nome dado ao couro após o curtimento básico com sais de cromo. O processamento final, que é onde o valor agregado cresce, fica com os compradores estrangeiros. A Itália é o terceiro maior destino do couro brasileiro, atrás da China e dos Estados Unidos. Quando esse material retorna ao mercado como produto acabado, a origem não consta na etiqueta.

A Durlicouros, curtume gaúcho fundado há mais de 65 anos e com unidades no Paraná, Mato Grosso, Pará, Tocantins e México, é uma das maiores referências do setor. A empresa exporta para mais de 80 países e tem certificação Gold do Leather Working Group (LWG), o principal selo internacional de boas práticas ambientais para curtumes.

A JBS Couros, por sua vez, anunciou em novembro de 2025 a criação da JBS Viva, joint venture com o Grupo Viva que nasce como líder global do setor, com 31 fábricas em seis países e capacidade para processar mais de 20 milhões de couros por ano. A estrutura combina a logística da JBS com a expertise em curtimento e acabamento do Grupo Viva para atender marcas internacionais com "processos certificados, padronização e eficiência", conforme comunicado da empresa.

A certificação que não rastreia até a fazenda

O relatório da Earthsight apontou um problema estrutural que vai além de quem compra de quem. O LWG, o mesmo selo ostentado pelas maiores curtidoras brasileiras e italianas, não exige rastreabilidade até a propriedade rural de origem do gado. O próprio órgão admitiu isso à ONG. Isso significa que um curtume pode receber a certificação Gold mesmo sem saber se o bovino que gerou aquela pele veio de uma fazenda regular ou de área embargada por desmatamento. Os curtumes Conceria Cristina e Faeda, ambos certificados, estavam no centro do escândalo.

Das marcas citadas no relatório, a Chanel foi a que respondeu com mais detalhes: informou ter encerrado o contrato com a Faeda justamente por não conseguir garantias de rastreabilidade. A Fendi e a Hugo Boss anunciaram apurações internas. A Coach não respondeu. A Louis Vuitton e o Grupo Kering, do qual fazem parte Gucci, Balenciaga e Saint Laurent, negaram o uso de couro brasileiro. O setor de curtumes brasileiro, representado pelo CICB, segue trabalhando em instrumentos de rastreabilidade, entre eles o Guia CICB de Matéria-prima e a adesão ao Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, lançado pelo governo federal em 2024.

A Lineapelle, maior feira internacional do couro, realizada em Milão, recebeu cinco curtumes brasileiros em fevereiro de 2026, todos levando coleções para a moda verão 2027.

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