'As pessoas que prosperarão não são as que mais usam IA, mas as que ainda conseguem pensar sem ela'
"As pessoas que prosperarão não são as que mais usam IA, mas as que ainda conseguem pensar sem ela", afirma Tom Slater, gestor do Scottish Mortgage Investment Trust e sócio da Baillie Gifford — uma das maiores gestoras de investimentos do Reino Unido.
Esse é um alerta direto às empresas que estão correndo para incorporar inteligência artificial em suas operações: ao adotar a tecnologia de forma agressiva, elas podem estar prejudicando, em silêncio, a formação dos seus próprios profissionais.
Em entrevista ao podcast Merryn Talks Money na última segunda-feira, Slater afirmou que, se as empresas não investirem ativamente para garantir que a próxima geração aprenda habilidades fundamentais e analíticas, podem terminar com funcionários hábeis em manusear ferramentas de IA — mas sem a base técnica necessária para julgar se o resultado entregue pela máquina está, de fato, correto.
"Você simplesmente ficaria melhor em usar IA, mas confundiria isso com a ideia de que é bom no assunto em si", disse ele.
Um alerta que ecoa entre pesquisadores
A preocupação de Slater encontra eco em pesquisadores de inteligência artificial e em executivos do próprio setor tecnológico. Especialistas vêm alertando que a dependência excessiva da IA pode corroer, gradualmente, as habilidades que os trabalhadores precisam para desempenhar suas funções e pensar criticamente no trabalho.
O teórico da inovação John Nosta afirmou que a IA está treinando os humanos a pensar de trás para frente — fornecendo respostas prontas antes que as pessoas tenham tempo de compreender o problema. A pesquisadora de IA Vivienne Ming disse que a maioria dos usuários está confiando na IA para pensar por eles, em vez de usá-la para aprofundar o próprio raciocínio.
Para Slater, o caminho passa por colocar profissionais jovens diante de tarefas difíceis, em vez de poupar essa etapa com auxílio automatizado. "Os funcionários mais jovens precisam enfrentar tarefas difíceis no trabalho para desenvolverem expertise", afirmou.
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O estudo do MIT que sustenta o argumento
Slater mencionou pesquisas que sugerem que a dependência excessiva da IA pode enfraquecer o aprendizado. Ele citou um estudo conduzido pelo MIT em junho de 2025, que acompanhou 54 participantes ao longo de quatro meses.
Estudo do MIT acompanhou 54 participantes durante quatro meses e observou que usuários frequentes do ChatGPT apresentaram menor envolvimento cerebral durante tarefas de escrita. (Getty Images)
O resultado foi expressivo: as pessoas que utilizaram o ChatGPT para escrever redações apresentaram menor envolvimento cerebral durante a tarefa e, em muitos casos, tiveram dificuldade para se lembrar — ou sequer citar — textos que haviam produzido apenas minutos antes.
O paradoxo, segundo o gestor, é claro: a IA melhora a produtividade a curto prazo, enquanto enfraquece silenciosamente a capacidade cognitiva a longo prazo.
Um incentivo perigoso para as empresas
Essa dinâmica pode criar um incentivo equivocado para os empregadores, sugeriu Slater. As empresas podem economizar dinheiro reduzindo contratações para vagas de nível inicial e dependendo mais de sistemas de IA. Mas, para o gestor, essa estratégia equivale a uma "falsa economia".
"Parece-me uma atitude muito míope", afirmou, ao se referir a permitir que a atual geração de profissionais experientes use essas ferramentas para ganhar produtividade — sem pensar na geração seguinte, que precisará ocupar essas funções no futuro.
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A formação de pilotos, que aprendem a voar manualmente antes de depender do piloto automático, foi usada por Tom Slater como analogia para o que deveria acontecer com profissionais antes da chegada da IA
O paralelo com a aviação
Slater fez uma comparação direta com a formação de pilotos. Aviadores aprendem a voar manualmente antes de depender de sistemas de piloto automático, lembrou — e o mesmo princípio deveria valer para o mercado de trabalho. Segundo ele, profissionais precisam construir conhecimento especializado aprofundado antes que a IA possa, de fato, potencializar o seu desempenho.
"As pessoas que prosperarão não são aquelas que mais usam IA", concluiu Slater, "mas sim aquelas que ainda conseguem pensar sem ela."
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