Assistir ficção científica pode te ensinar ciência de verdade?

Por Tamires Vitorio 25 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Assistir ficção científica pode te ensinar ciência de verdade?

Em 1902, Georges Méliès apontou um canhão para a Lua e disparou uma cápsula com astronautas dentro. Era Le Voyage dans la Lune, o primeiro filme de ficção científica da história — 14 minutos, mudo, em preto e branco, e completamente errado do ponto de vista da física. Sessenta e sete anos depois, a Nasa fez a mesma viagem do jeito certo. Ninguém confundiu os dois...

Ou confundiu?

Essa é a questão que pesquisadores brasileiros de ensino de ciências vêm investigando há décadas, com crescente urgência: quando uma sala de aula assiste Jurassic Park, Interestelar ou Matrix, o que de fato entra na cabeça do aluno? Ciência, ficção, ou uma mistura indistinguível dos dois?

O problema tem nome: turvamento

Pesquisadores da área de ensino de ciências batizaram o fenômeno.

Chamado de "turvamento", ele descreve o processo pelo qual elementos do discurso cinematográfico, das narrativas de ficção científica e da sua mediação em sala de aula se entrelaçam a ponto de borrar a fronteira entre conhecimento científico e ficção, segundo estudo publicado na SciELO.

Não se trata de um problema novo. Desde a década de 1980, filmes de ficção científica são utilizados como recurso metodológico no ensino de ciências, segundo a Revista Brasileira de Educação em Ciências e Educação Matemática.

O que mudou é a escala: com o streaming, um estudante brasileiro de ensino médio tem acesso hoje a mais ficção científica do que qualquer geração anterior e nem sempre com um professor mediando o que está vendo.

O risco aparece em sala. Pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso dividiram uma turma de Biologia Molecular em dois grupos: um assistiu a Jurassic Park antes de estudar os conceitos da disciplina; o outro, depois.

No segundo grupo, o filme gerou descrença em relação ao conhecimento recém-adquirido, como se a ficção contaminasse retroativamente o que havia sido aprendido.

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A conclusão, publicada na revista Ciência & Educação, foi que o mesmo filme que funciona como motor de curiosidade no início do processo pode funcionar como ruído no final.

O que Hollywood acerta — e o que erra feio

A régua mais conhecida para medir a precisão científica do cinema é o astrofísico Neil deGrasse Tyson, que transformou a crítica de filmes em exercício público de divulgação científica.

Sobre Gravidade (2013), com Sandra Bullock, Tyson elogiou a produção por sua verossimilhança, mas apontou erros em série numa série de tweets publicados em outubro de 2013.

Em gravidade zero, o cabelo de Bullock deveria flutuar livremente, o que não ocorre no filme; o Telescópio Hubble, a Estação Espacial Internacional e a estação espacial chinesa nunca poderiam ser vistos juntos, pois orbitam em altitudes diferentes; e os destroços de satélites no filme se movem no sentido errado — quase todos os satélites reais orbitam de oeste para leste, enquanto os destroços no filme seguem o caminho oposto.

Interestelar: filme é elogiado pela ciência apresentada (interestelar/Reprodução)

Mas há casos em que o cinema não apenas acerta a ciência.

Interestelar (2014) nasceu de uma conversa entre o físico Kip Thorne e uma produtora de Hollywood sobre a quantidade de filmes de ficção que apresentavam potencial para levar ciência ao público, mas falhavam por falta de rigor, segundo o próprio Thorne em The Science of Interstellar.

Thorne, especialista em relatividade geral e buracos negros, trabalhou diretamente com a equipe de efeitos visuais para criar simulações baseadas em equações reais.

O resultado foi uma representação do buraco negro Gargântua que não só impressionou o público como forneceu novas ideias para a comunidade científica sobre como tais objetos poderiam realmente parecer, segundo análise publicada na revista Olhar de Professor, da UEPG.

O caso de Interestelar é, até hoje, o exemplo mais citado de cinema que não apenas ensina ciência, mas a produz.

Além de encontrar erros: o que a pesquisa brasileira propõe

Durante anos, a abordagem dominante para usar ficção científica em sala era simples: assistir ao filme, identificar os erros, corrigi-los.

Os pesquisadores Luís Paulo Piassi e Maurício Pietrocola, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, questionaram esse modelo.

Em artigo publicado na revista Educação e Pesquisa e indexado pela SciELO, propuseram que a ficção científica constitui por si só uma modalidade de discurso sobre a ciência, não apenas um veículo didático para facilitar aprendizados, mas uma forma de expressão que, por meio do cinema e da literatura, traduz interesses e preocupações em torno de questões científicas presentes que influem diretamente no âmbito sociocultural.

Em outras palavras: tratar um filme apenas como lista de erros é desperdiçar o que ele tem de mais potente.

Osame Kinouchi Filho, físico e pesquisador de divulgação científica da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, argumenta que a ficção científica ajuda a criar um clima cultural de valorização da ciência e de crítica da ciência quando mal usada, algo que contrasta com o efeito produzido por filmes sobre vampiros e Harry Potter na formação intelectual dos adolescentes.

Ele defende que seu uso na educação pode potencializar processos cognitivos ao desvelar aspectos dos conteúdos científicos pouco explorados na escola, segundo a ComCiência.

Mas há barreiras reais. Além da escassez de tempo para desenvolver adequadamente a atividade, faltam infraestrutura física e preparo dos professores.

Há também dificuldade em estabelecer relação entre o objeto do conhecimento e o roteiro de ficção escolhido, segundo a ComCiência.

Para Leda Glicério Mendonça, doutora em ensino de biociências e docente do IFRJ, não se pode utilizar a ficção científica apenas como acessório.

Netflix, sala de aula e a natureza da ciência

A chegada do streaming trouxe uma dimensão nova ao debate.

Pesquisadores investigaram como aspectos da natureza da ciência estão sendo retratados em filmes e séries da Netflix Brasil, analisando as dez obras com temática científica de maior incidência no ranking brasileiro da plataforma.

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Os resultados indicam que essas produções têm potencial de provocar mudanças na visão ingênua e distorcida que os espectadores possuem acerca da ciência, incluindo noções como a neutralidade e a verdade absoluta do conhecimento científico, segundo a revista Insignare Scientia.

É um dado relevante. A ficção científica, mesmo quando erra os fatos, pode acertar algo mais difícil — a percepção de que ciência é um processo humano, falível, influenciado por contextos políticos e sociais. Essa é, para muitos pesquisadores, sua contribuição mais duradoura ao ensino.

Então, dá para aprender ciência com filmes?

A resposta honesta da pesquisa é: depende do que se chama de aprender.

Fatos isolados — a velocidade da luz, a estrutura do DNA, o funcionamento de um buraco negro — podem ser distorcidos, simplificados ou simplesmente errados na tela. A ficção científica é um dos gêneros que mais influenciam a percepção e o aprendizado em relação às Ciências da Natureza no âmbito escolar — mas também é repleta de conceitos científicos equivocados ou distorcidos, segundo pesquisa publicada na revista e-Mosaicos, da UERJ.

Mas há algo que ela faz melhor do que qualquer livro didático: criar a pergunta antes de existir a resposta. Gerar o espanto que antecede o entendimento e fazer um estudante de 15 anos se perguntar, saindo de uma sessão de Interestelar, o que diabos é dilatação temporal, e chegar na aula de física na segunda-feira com essa pergunta pronta.

"Partindo-se de boas histórias de ficção científica, pode-se estimular os alunos a pensar em projetos próprios, seja de criação de histórias ou de outras formas criativas como jogos, performances, instalações e mesmo da própria investigação e pesquisa", resume um dos pesquisadores da área, segundo a ComCiência.

O cinema não substitui o laboratório. Mas às vezes é o que leva o aluno até ele.

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