Ataque ao Irã: 'Sensação é de se proteger em casa, não de derrubar o regime', diz professora

Por Lia Rizzo 28 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ataque ao Irã: 'Sensação é de se proteger em casa, não de derrubar o regime', diz professora

Na madrugada deste sábado, 28, explosões foram registradas nas cidades iranianas de Teerã, Isfahan, Tabriz e Karaj. Pouco depois, Donald Trump confirmava no Truth Social a autoria da ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Diferentemente dos ataques de junho de 2025, que miraram instalações nucleares e lideranças militares, desta vez os alvos parecem ter sido instituições políticas e governamentais, segundo especialistas, que acreditam que este tenha sido um recado mais explícito de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, e Trump pela mudança de regime.

A retaliação iraniana foi rápida e coordenada. Em menos de duas horas, a Guarda Revolucionária Islâmica lançou ataques contra bases americanas no Bahrein, nos Emirados, no Catar, no Kuwait e em Riad, na Arábia Saudita.

Israel então decretou estado de emergência após detectar mísseis em direção ao seu território. O chanceler Abbas Araghchi classificou a ofensiva como "ilegal e ilegítima" e prometeu que as Forças Armadas dariam "a lição que os agressores merecem".

O ataque, considerado a maior operação militar conjunta já lançada contra o Irã, chega em um momento de fragilidade interna sem precedentes.

O país enfrenta uma grave crise econômica que alimentou meses de protestos, reprimidos com violência em janeiro e deixando milhares de mortos conforme fontes internacionais. Ao mesmo tempo, negociações para limitar o programa nuclear iraniano, mediadas por Omã, estavam em curso há semanas.

Para entender o que esse novo patamar do conflito representa, EXAME conversou com Luiza Cerioli, pesquisadora da Universidade de Kassel, na Alemanha.

Especialista em relações internacionais do Oriente Médio e política externa do Sul Global, a brasileira faz uma avaliação direta: intervenções externas raramente produzem o colapso que prometem; e com frequência entregam o oposto.

Os protestos de janeiro haviam exposto uma fratura interna no regime. O ataque desta madrugada fecha essa janela ou a fragilidade acumulada é grande demais para ser encoberta por um efeito de unidade nacional?

As primeiras declarações de Netanyahu e Trump deixaram muito claro qual é o objetivo quando ambos falaram em mudança de regime. O ataque foi direcionado não a instalações nucleares, como há nove meses, mas a instituições políticas e governamentais, onde teoricamente poderiam estar o aiatolá Ali Khamenei (líder supremo do Irã), o ministro da Defesa e o ministro das Relações Exteriores.

Foi um movimento muito explicitamente voltado a provocar uma fraqueza das lideranças políticas do Irã, com o recado de que o primeiro passo foi dado e agora cabe ao povo fazer a derrubada do regime. Essa percepção não corresponde à história do Irã nem à do Oriente Médio em geral.

Uma derrubada popular de regime não acontece por meio de intervenção externa. Os protestos de janeiro tinham um tom bastante nacionalista, de não alinhamento. Havia, sim, uma parcela que chegou a dizer que, se o único jeito fosse com intervenção americana, que fosse. Porém, essa parcela não era majoritária, e mesmo ela sentiu frustração quando os EUA não responderam enquanto as pessoas iam às ruas, morriam e eram presas.

Logo, não acho que os bombardeios de agora vão fechar permanentemente a janela dos protestos, porque essa janela se abre com muita frequência no Irã, principalmente por causa das condições sociais e econômicas. O efeito imediato é outro: se eu estivesse em Teerã ou Isfahan agora, minha sensação seria de ir ao mercado e me proteger em casa porque está vindo uma guerra, e não de ir às ruas protestar porque o regime vai cair.

Existe hoje alguma figura ou movimento de oposição dentro do Irã com legitimidade real para preencher um vácuo de poder?

Não, não existe um movimento de oposição forte lá hoje. É importante lembrar que o regime iraniano é o que a literatura chama de "autoritarismo competitivo", então ele tem planos de sucessão elaborados e o mesmo vale para o interior da Guarda Revolucionária.

O principal objetivo desse tipo de regime é a sobrevivência, e eles sabem que estão sob ameaça existencial.

Nesta manhã, a velocidade da resposta iraniana chamou a atenção. Há nove meses, a reação foi mais lenta, mas desta vez, em uma ou duas horas, já se ouvia explosões no Bahrein, nos Emirados, no Kuwait, em Riad.

Isso demonstra uma coordenação muito maior do que se esperaria de um aparato que foi alvo de ataques cirúrgicos a generais e cientistas nucleares ao longo de 2025. Portanto, aqueles ataques não enfraqueceram a capacidade organizacional da maneira que se pretendia.

Quanto à oposição, o que aconteceu foi um enfraquecimento progressivo das forças mais reformistas e pragmáticas dentro da própria estrutura de poder, especialmente desde a Revolução Verde de 2009. O mais provável agora não é uma mudança de regime, mas algum tipo de adaptação interna por meio de tensões entre facções da Guarda Revolucionária.

Depois dos ataques desta madrugada, Omã e os países do Golfo ainda têm como mediar esse conflito?

O canal diplomático que Omã vinha construindo para reconstruir o que Trump destruiu no primeiro governo ao sair do acordo nuclear foi desfeito. O próprio líder de Omã acabou de se declarar chocado com o que aconteceu, porque negociações estavam em curso.

Mas o que está acontecendo agora com os ataques iranianos contra os países do Golfo é calculado. O Irã tem uma política externa extremamente pragmática.

Ao atacar bases onde sabia que a maioria seria interceptada, Teerã trouxe outros países para a equação diplomática.

Se o conflito ficasse restrito a Israel e Estados Unidos contra o Irã, seria muito mais perigoso para o regime. Ao incluir o Golfo, esses países são forçados a pressionar ativamente pela desescalada, porque eles são a primeira linha de impacto.

Por exemplo, a Arábia Saudita vai condenar publicamente, mas no telefone está conversando com os Emirados e com Omã sobre como sair dessa. E Omã, que é o arquétipo diplomático da região, vai continuar sendo esse canal, agora com o recado de que a situação fugiu do controle que eles ajudavam a manter.

A pesquisadora Luiza Cerioli: "Se o conflito ficasse restrito a Israel e Estados Unidos contra o Irã, seria muito mais perigoso para o regime."

Com o eixo da resistência enfraquecido, o Irã tem mais ou menos incentivo para uma retaliação extrema, como o bloqueio do Estreito de Hormuz?

Essa é uma pergunta sem resposta definitiva, porque depende de variáveis que ninguém controla completamente.

O fechamento de Hormuz geralmente passa pelos houthis, que têm seus próprios interesses políticos no Iêmen e não são simplesmente um instrumento iraniano, mas um movimento de independência do sul com uma história própria.

E há uma tensão relevante nesse ponto: Arábia Saudita e Emirados divergem profundamente sobre como resolver o conflito no Iêmen, o que complica qualquer resposta coordenada.

O problema central da escalada com tantos grupos e interesses distintos é a perda de controle.

Os ataques desta madrugada foram calibrados para gerar efeito político sem cruzar uma certa linha. Mas o risco de que alguém, em algum ponto da cadeia de decisão, tome uma atitude descalibrada é real. Vários tabuleiros estão sendo jogados simultaneamente, e isso torna qualquer previsão sobre Hormuz muito precária.

Até que ponto China e Rússia podem se aproveitar dessa crise ativamente para ampliar influência no Oriente Médio?

A Rússia está falando em "solução política", mas isso é mais uma postura habitual do que um comprometimento real. Minha leitura - e ressalto que é uma impressão pessoal - é que Putin tem um jogo muito maior em andamento.

A negociação sobre a Ucrânia passa por Trump, e essas tratativas não estão avançando da forma que ele gostaria. Eu acredito que Putin não vai se desgastar para defender o aliado iraniano se isso custar seu posicionamento nas conversas sobre o território ucraniano.

Já a China tem um projeto de política externa muito claro de não intervenção, inclusive em defesa de seus próprios aliados. Não vimos Pequim bater de frente com os Estados Unidos em nenhum momento recente, nem na Venezuela, nem nos ataques de junho passado ao Irã.

O interesse estratégico central da China é o Mar do Sul da China, e o segundo governo Trump não tem dado tanto destaque a esse tema quanto o anterior. A grande vitória diplomática chinesa na região foi em 2023, quando mediou o restabelecimento de relações entre Arábia Saudita e Irã, essencial para a Belt and Road Initiative.

Se os ataques desta madrugada tivessem gerado uma escalada direta entre Riad e Teerã, a China teria mais razão para se envolver. Como não foi o caso, a expectativa é que Pequim continue em segundo plano.

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