'Aumento da competição no Ártico é inevitável', diz pesquisador da região
O interesse das grandes potências pelo Oceano Ártico cresceu muito na última década por uma razão simples: ele está descongelando. Com menos gelo, há maior facilidade para navegar e explorar minerais no solo, o que aumenta o interesse econômico. Por outro lado, a mudança também abre espaço para uma maior atividade militar na região, o que gera preocupações de uma escalada que possa levar a conflitos, especialmente entre EUA e Rússia.
Um exemplo disso são as mudanças na navegação. Há 20 anos, navegar pelo Ártico em grandes navios era uma missão muito difícil, mesmo perto da costa, pois havia enormes camadas de gelo. Com o aquecimento global, as coisas mudaram.
Em 2007, as rotas perto do Canadá e da Rússia passaram a ter alguns dias livres de gelo no verão ártico, no meio do ano. Dezoito anos depois, em 2025, já foram registradas duas semanas de navegação plena na rota perto da Rússia. A perspectiva é a de que, nos próximos anos, será possível navegar nessas rotas durante todo o verão.
Para Anthony Heron, pesquisador do The Arctic Institute, um dos principais centros de pesquisa sobre a região, baseado em Washington, o interesse e a tensão na região devem seguir aumentando.
"O Ártico está à deriva em direção a um atrito inevitável. Com o recuo do gelo, os Estados são forçados a um contato mais próximo, e a competição por recursos, rotas e até mesmo pela presença se torna muito mais difícil de contornar", afirma, em entrevista à EXAME.
"O interesse dos EUA, da Rússia, da China e de outros estados está transformando o Ártico de uma fronteira periférica em um ponto focal da geopolítica do século XXI", diz.
O maior exemplo deste aumento de interesse é a tentativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de anexar Groenlândia e Canadá, sob a alegação de que aumentar o controle sobre o Ártico é fundamental para a segurança dos EUA.
Heron tem mestrado em Segurança Internacional pela Universidade de Londres e trabalhou como assessor parlamentar no Parlamento britânico. Veja a seguir mais trechos da conversa.
De que forma o derretimento do gelo no Ártico pode facilitar a movimentação de navios e a exploração de recursos na região?
O derretimento do gelo não está apenas abrindo vias navegáveis: está redefinindo a forma como pensamos sobre soberania e infraestrutura no Ártico. Rotas marítimas como a Rota Marítima do Norte (na costa norte da Rússia) serão viáveis por períodos mais longos e oferecerão alternativas a outras rotas globais.
Não se trata apenas de uma questão logística. É uma questão geopolítica. A exploração de recursos virá em seguida para aqueles dispostos a investir em operações de alto risco. Portanto, economia e risco climático são inseparáveis.
Que medidas podem ser tomadas para evitar uma escalada militar e um futuro conflito na região do Ártico?
O Ártico não é um campo de batalha tradicional, então acho que a chave é construir uma cultura de transparência e comportamento previsível. Exercícios conjuntos mais frequentes, canais de comunicação abertos e regras de engajamento claras são cruciais.
No entanto, minha teoria regional-neorrealista aponta para uma realidade dura, mas simples: o Ártico está à deriva em direção a um atrito inevitável. Com o recuo do gelo, os Estados são forçados a um contato mais próximo, e a competição por recursos, rotas e até mesmo pela presença se torna muito mais difícil de contornar.
Que concessões podem ser feitas para apaziguar o desejo do presidente Donald Trump de anexar territórioso na região?
Francamente, nenhuma concessão territorial seria sequer legal e certamente não seria racional. Qualquer movimento desse tipo seria catastrófico no clima geopolítico atual; desencoraja compromissos coletivos de segurança e sinaliza que a pressão territorial pode gerar resultados.
Uma abordagem muito mais responsável é enquadrar o engajamento no Ártico por meio de influência e investimento, em vez de apropriação de terras. A segurança da Groenlândia e da região em geral é alcançada por meio de parcerias estratégicas e infraestrutura conjunta, não redesenhando linhas em um mapa por capricho.
Trump afirmou que os EUA precisam da Groenlândia por motivos de segurança, mas os EUA mantêm proativamente uma presença de segurança na Groenlândia há décadas, e ela é protegida pelas garantias da Otan às quais os EUA estão, em teoria, comprometidos.
Como o atual interesse das grandes potências no Ártico pode alterar o futuro da região?
O interesse dos EUA, da Rússia, da China e de outros estados está transformando o Ártico de uma fronteira periférica em um ponto focal da geopolítica do século XXI. O futuro a longo prazo será definido menos por quem "possui" o quê e mais por quem consegue gerenciar redes complexas de infraestrutura, ciência e segurança.
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