Aumento no preço do ovo e do frango é inevitável com a guerra, diz presidente da ABPA

Por César H. S. Rezende 31 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Aumento no preço do ovo e do frango é inevitável com a guerra, diz presidente da ABPA

A guerra no Irã deve elevar os custos logísticos, e o efeito cascata sobre os preços dos alimentos já começa a se materializar. Para Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira da Proteína Animal (ABPA), a alta nos preços de ovos e carne de frango é inevitável.

“É inevitável. Pode não ser imediato, pode variar por empresa e região, mas o custo precisa ser repassado. Não é aumento para ganhar mais, é repasse de custos”, afirma o executivo.

A alta do diesel está diretamente ligada ao cenário geopolítico internacional. O conflito no Oriente Médio, envolvendo grandes produtores de petróleo como o Irã, impulsionou os preços de energia e aumentou a volatilidade no mercado global.

Esse movimento já tem reflexos no Brasil. Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o preço médio da gasolina subiu de R$ 6,65 para R$ 6,78 por litro na semana passada, na quarta alta consecutiva, com variação de 1,96%.

O diesel, por sua vez, avançou 2,62%, de R$ 7,26 para R$ 7,45 por litro no mesmo período. A alta acompanha a valorização do petróleo no mercado internacional, que voltou a superar US$ 100 por barril em meio à escalada do conflito no Irã.

O impacto deve chegar ao consumidor, uma vez que o transporte representa uma parcela relevante do custo final de diversos produtos, especialmente no agronegócio. No Brasil, o modal rodoviário responde por 60% a 75% da movimentação de cargas.

Os preços dos ovos acumulam queda de 10,79% em 12 meses, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Ainda assim, houve inflação de 4,55% em fevereiro, movimento que pode ser explicado pela demanda sazonal da Quaresma — período em que há maior consumo de proteínas alternativas à carne vermelha, especialmente antes da Sexta-Feira Santa.

Segundo Santin, toda a cadeia depende do transporte rodoviário — do envio de insumos, como milho e ração, ao deslocamento de animais e à distribuição aos pontos de venda.

Com o diesel mais caro, o frete sobe em todas essas etapas. O aumento se acumula ao longo da cadeia e tende a ser repassado ao consumidor final, à medida que as empresas buscam recompor margens e manter a operação.

Apesar da pressão de custos, Santin afirma que o setor tem mostrado capacidade de adaptação, com alternativas logísticas que evitam, até o momento, rupturas no abastecimento.

Leia a entrevista

Como o aumento dos custos tem impactado a cadeia de produção de proteínas?

Nós temos uma cadeia que depende fortemente de logística. É preciso transportar pintinhos, levar ração, deslocar os animais até o frigorífico. Isso envolve mais de 600 mil caminhões por ano só na distribuição de alimentos, fora outros fluxos como o transporte de milho. Com o aumento do diesel, isso se torna uma conta muito pesada. Além disso, não é possível garantir segurança sanitária sem embalagens plásticas, que dependem do petróleo. O polipropileno, por exemplo, já teve aumento entre 20% e 30%. Esses dois fatores — frete e embalagem — têm impacto direto e relevante nos custos.

Qual o papel das exportações na formação de preços no Brasil?

Cerca de 35% da produção é exportada. O Brasil produz mais do que consome justamente para exportar. Isso dilui o custo fixo, porque você produz mais e divide esse custo por mais unidades. Essa produção adicional vai para o exterior, mas o benefício da redução de custo fica no mercado interno. Isso acontece porque vendemos mais caro lá fora — até por regras internacionais, para não configurar dumping — e isso ajuda a equilibrar o resultado das empresas. Com isso, conseguimos manter preços mais acessíveis no Brasil.

De que forma a guerra tem afetado as exportações?

Houve um aumento expressivo nos custos logísticos internacionais. Estamos falando de fretes marítimos com taxas elevadas, chegando a 4.500 dólares por contêiner, além de custos extras como armazenagem e detention. Também tivemos que redirecionar cargas que antes iam para determinados mercados, como os Emirados Árabes, para outros países, como Filipinas e Vietnã. Só que isso gera custos adicionais, porque esses compradores não necessariamente precisam do volume naquele momento e acabam repassando custos de armazenagem, o que pressiona preços e reduz margens.

Quando você fala desse aumento de custos, qual o reflexo para o setor de proteínas?

O aumento é inevitável. Pode não ser imediato, pode variar por empresa e região, mas o custo precisa ser repassado. O setor não trabalha com margens elevadas — não estamos falando de margens de 60%, são margens normais, já apertadas. Com o aumento de custos, tanto no mercado interno quanto externo, não há como absorver tudo sem repassar parte disso.

A ABPA já tem uma estimativa do quanto deve ser esse aumento no preço dos ovos e carnes?

Ainda não temos um cálculo financeiro consolidado. O que conseguimos observar é que o setor tem sido resiliente. Mesmo com o conflito, conseguimos manter níveis de produção e exportação semelhantes aos de janeiro, com adaptações logísticas. O comércio busca caminhos, e conseguimos manter o fluxo.

Quais caminhos o setor buscou nesse sentido?

Criamos diversas alternativas logísticas. Passamos a utilizar rotas via Arábia Saudita, com transporte terrestre até Emirados, Catar e Kuwait. Também utilizamos a Turquia como ponto de redistribuição para Iraque e outros mercados. Houve uso de navios menores, os chamados feeders, e rotas alternativas como o Cabo da Boa Esperança. Além disso, portos como o de Khor Fakkan, nos Emirados, ampliaram sua capacidade, permitindo maior fluxo. Também utilizamos portos em Oman e redirecionamos cargas para mercados da Ásia e África.

A guerra completou um mês no último sábado. Há risco de paralisação da produção em razão desse aumento de preços?

Esse era o maior risco. A cadeia é totalmente integrada — desde o ovo até o produto final. Se você interrompe uma parte, compromete todo o sistema. Conseguimos evitar isso. Não foi necessário parar a produção de forma generalizada, nem reduzir drasticamente o volume. Algumas empresas fizeram ajustes pontuais, mas a cadeia continuou funcionando, o que foi essencial para evitar impactos maiores no emprego e no abastecimento.

O governo anunciou um pacote de R$ 15 bilhões para o setor exportador. Essa ajuda demorou para chegar? É suficiente?

Não acho. As medidas precisam ser construídas dentro das capacidades do governo. O setor conseguiu se manter até aqui, e a ajuda veio em um momento adequado. Sempre há quem diga que poderia ter vindo antes, mas, na prática, o timing foi positivo. É uma medida importante, mas não é exclusiva para o nosso setor. Atende também outros segmentos exportadores. Não dá para afirmar se é suficiente, mas certamente ajuda, especialmente no capital de giro, que ficou pressionado com atrasos e mudanças nas operações de exportação.

Além desse montante, quais outras medidas podem mitigar o possível aumento de preços?

A redução de impostos sobre combustíveis, como IPI e ICMS, teria impacto direto. Também seria importante avaliar a redução temporária do imposto de importação do polipropileno, que é essencial para as embalagens. Essas medidas poderiam ajudar a aliviar os custos.

No fim de 2025, as projeções da ABPA indicavam produção recorde de ovos e carne de frango. Essa perspectiva ainda se mantém? As estimativas para 2026 foram revisadas ou seguem inalteradas?

Sim, elas estão mantidas. Podemos ter ajustes pontuais, mas ainda é cedo para revisar projeções. A demanda global continua forte — tivemos crescimento de volume e receita no início do ano em frango e suíno, e o ovo com crescimento ainda maior. A única variável que pode mudar é o volume de exportações, que pode até surpreender positivamente.

O setor tem conseguido manter o nível de exportações?

Mesmo com todas as dificuldades, estamos exportando em níveis próximos aos de janeiro. Março, inclusive, pode superar o mesmo mês do ano passado. Isso mostra que conseguimos encontrar caminhos logísticos para manter o fluxo.

Qual é o principal desafio neste momento?

O principal desafio é absorver os custos adicionais sem interromper a produção. Manter a cadeia funcionando é essencial para garantir o abastecimento interno. Se a produção cai, falta produto no Brasil e os preços sobem ainda mais. Por isso, o esforço é manter a operação ativa, mesmo com margens pressionadas.

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