B16: setor de biocombustíveis teme atraso na nova mistura de biodiesel
Em meio à escalada das tensões no Oriente Médio e à alta dos preços do petróleo, o setor de biocombustíveis intensificou a pressão para que o governo confirme o avanço da mistura obrigatória de biodiesel no diesel. Nos bastidores, porém, cresce a preocupação de que a adoção do B16 — prevista para este mês — possa sofrer atraso.
Atualmente, o percentual de biodiesel misturado ao diesel está em 15% (B15). A expectativa da indústria é de que a mistura suba para 16% (B16), como parte do cronograma previsto na Lei Combustível do Futuro, aprovada em 2024 pelo Congresso.
A legislação estabelece uma ampliação gradual da participação do biodiesel no diesel, com aumentos de 1 ponto percentual por ano a partir de 2025, até alcançar 20% em 2030. Para o setor, o avanço da mistura é estratégico em um cenário de volatilidade no mercado internacional de petróleo.
Entidades do segmento argumentam que conflitos geopolíticos, como o atual no Irã, costumam pressionar os preços da commodity e acabam afetando diretamente o custo do frete, dos alimentos e a inflação no Brasil.
Diante desse cenário, a Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio) defende a antecipação da mistura maior como forma de reduzir a dependência externa e ampliar a segurança energética do país.
Segundo a entidade, cada ponto percentual adicional de biodiesel na mistura reduz a necessidade de importação de diesel fóssil, diminui a exposição às oscilações do dólar e aos choques de preços internacionais, além de trazer mais previsibilidade para a logística e os preços internos.
“Dados da ANP mostram que as importaçõe s representaram, em média, 26% da oferta interna total de diesel em 2024, chegando a 28% em outubro daquele ano. Isso expõe o país a riscos de preço, câmbio e abastecimento”, afirma a Aprobio.
Nos bastidores, representantes da indústria temem que o governo repita o movimento do ano passado. Em 2025, a adoção do B15 — que deveria ter entrado em vigor em março — foi adiada e só começou a valer em agosto, após o governo citar preocupações com a inflação no início do ano.
Agora, a possibilidade de um novo atraso voltou a circular entre agentes do setor.
Fontes ouvidas pela EXAME afirmam que o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) ainda realiza testes técnicos para avaliar se o aumento da mistura pode ter algum impacto sobre os veículos. Enquanto esses estudos não forem concluídos, a decisão sobre o B16 pode ficar em suspenso.
Outra fonte que acompanha as conversas entre parlamentares e representantes da indústria afirma que o cronograma regulatório já deveria ter sido confirmado. Isso porque as empresas se organizam com cerca de dois meses de antecedência para o esmagamento de soja — principal matéria-prima do biodiesel no Brasil.
Hoje, o óleo de soja responde por mais de 75% da produção nacional do biocombustível, o que faz com que qualquer mudança no cronograma tenha impacto direto sobre a cadeia produtiva.
“O que precisamos agora é de sinalização clara e decisão no tempo adequado, para transformar potencial em competitividade e reduzir a exposição do Brasil aos choques do petróleo internacional”, afirma Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial e vice-presidente de Relações Associativas e Institucionais da Ubrabio.
B16 em vigor
A incerteza regulatória também preocupa empresas que já ampliam investimentos no setor.
Segundo estimativa da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), estão previstos cerca de R$ 5,9 bilhões em aportes na cadeia nos próximos 12 meses, impulsionados justamente pela expectativa de aumento da mistura.
Dentro do governo, porém, a avaliação é de que ainda é preciso consolidar os estudos técnicos antes de confirmar o próximo passo do cronograma.
Em outubro do ano passado, Marlon Arraes, diretor do departamento de biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), já havia sinalizado que o prazo poderia ser desafiador.
“É possível que a gente não consiga cumprir este prazo em março. É altamente desafiador. Ainda temos alguns passos a dar até fechar o entendimento e elaborar um relatório que materialize essa realidade técnica”, disse.
Para executivos do setor, o avanço da mistura precisa ser visto não apenas como uma política ambiental, mas também como uma estratégia de segurança energética.
“Qualquer choque externo — seja de preço, câmbio, frete ou até de disponibilidade física — rapidamente se traduz em risco de ruptura de abastecimento, já que somos altamente dependentes do diesel importado”, afirma André Lavor, CEO da produtora de biodiesel Binatural.
“É nesse contexto que a política de biodiesel precisa ser entendida para além da agenda ambiental”, diz.
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