B3 vê agro e infraestrutura puxando 'fila de 50 IPOs' após Compass
A estreia da Compass Gás e Energia na B3 nesta segunda-feira, 11, foi celebrada pela Bolsa de Valores do Brasil como mais do que o fim de um jejum de quase cinco anos sem sem oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). Para executivos da B3, a operação da companhia do grupo Cosan pode representar o primeiro passo de uma "nova janela" para abertura de capital no país, mesmo em meio a um ambiente ainda marcado por juros elevados, volatilidade política e cautela global dos investidores.
O toque da campainha na sede da B3, no centro de São Paulo, na manhã desta segunda-feira, 11, marcou oficialmente o início das negociações das ações da Compass sob o ticker "PASS". A empresa levantou até R$ 3,2 bilhões em sua oferta pública inicial de ações, em uma operação que avaliou a companhia em cerca de R$ 20 bilhões e encerrou um intervalo de quase meia década sem IPOs na bolsa brasileira.
Desde 2021, quando 47 empresas abriram capital impulsionadas pelo ciclo de juros baixos e elevada liquidez global, nenhuma companhia havia conseguido concluir uma oferta inicial de ações no Brasil.
O cenário mudou drasticamente com a escalada da Selic, que saiu de 9,25% ao ano em janeiro de 2022 para 15% ao ano em janeiro de 2026, deslocando investidores para a renda fixa e praticamente fechando a janela para novas listagens.
Agora, diante do início do ciclo de queda dos juros, que recuaram em abril para 14,50%, ao ano, e da abertura de capital da Compass, a B3 vê condições no mercado acionário local para destravar outras operações represadas.
"Acreditamos sim [que o IPO da Compass deve destravar novas ofertas]. Claro, é um ano de eleição, tem bastante volatilidade, mas acreditamos que este movimento é um movimento de reabertura de janela", afirmou Viviane Basso, vice-presidente de operações da B3, em entrevista à imprensa após a cerimônia.
Segundo Basso, o IPO da Compass injeta uma "energia diferente" em dezenas de empresas que já vinham se preparando para acessar o mercado. "Definitivamente você ter um movimento ainda no início desse ano traz uma energia diferente para essas companhias que estão no caminho", disse.
A executiva revelou que a bolsa acompanha atualmente um pipeline "robusto" de empresas em preparação para abertura de capital. "Um pouco mais de 50 empresas já estão nesse caminho. Então aqui, sem dúvida alguma, é um primeiro passo que a gente espera que outras acompanhem", afirmou.
De acordo com a B3, muitas dessas companhias já possuem registro de companhia aberta na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e avançaram nas etapas necessárias para estrear na bolsa, embora ainda aguardem condições mais favoráveis de mercado. "as a jornada do IPO é um processo mais para médio prazo", afirmou Flavia Mouta, diretora de Listagem e Relacionamento na B3.
A expectativa da controladora da Bolsa de Valores do Brasil é que setores ligados à economia real liderem essa possível retomada das ofertas "Infraestrutura, agronegócio também são setores que estão bastante presente", disse a vice-presidente de operações, ao destacar que esses segmentos possuem forte necessidade de financiamento e vêm participando ativamente de leilões e projetos de expansão.
A executiva também citou empresas de tecnologia e fintechs entre os grupos monitorados pela bolsa, embora em menor escala.
Forte fluxo estrangeiro é "sinal claro de confiança" no Brasil
A aposta da B3 na retomada do mercado de capitais ocorre em paralelo a um movimento relevante do capital estrangeiro na bolsa brasileira. Entre janeiro e abril de 2026, investidores internacionais injetaram R$ 56,54 bilhões na B3, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta. A soma total de capital gringo representa o melhor resultado para o período desde 2022 e mais que o dobro de todo o fluxo registrado ao longo do ano passado.
Para Viviane Basso, a entrada de recursos internacionais é um sinal importante de confiança no mercado brasileiro, embora ainda dependa da trajetória dos juros e do cenário macroeconômico. "O fluxo expressivo de recursos estrangeiros no Brasil é um sinal claro da confiança dos investidores no nosso mercado. Esse cenário somado a questões macro nos traz esperança, boas perspectivas para o futuro", afirmou.
A vice-presidente pondera, porém, que o comportamento dos investidores segue diretamente ligado ao nível da taxa básica de juros. "Juros altos levam os investidores para a renda fixa. Mas na medida em que os juros começam a cair, o mercado de capitais brasileiro se torna bastante atrativo não só para investidores locais, mas também para investidores estrangeiros", disse.
Os próprios dados da Elos Ayta mostram, no entanto, que esse fluxo começou a perder força recentemente. Abril registrou entrada líquida de apenas R$ 3,18 bilhões sem considerar IPOs e follow-ons, o pior resultado mensal de 2026 e a terceira desaceleração consecutiva do fluxo estrangeiro.
Até o dia 22 de abril, o saldo acumulado do ano havia alcançado R$ 64,42 bilhões. O fechamento do mês em R$ 56,54 bilhões indica uma saída líquida de R$ 7,88 bilhões em poucos dias, movimento que a consultoria classificou como típico de investidores institucionais em momentos de maior cautela global.
Ainda assim, a leitura predominante na bolsa é de que o capital estrangeiro continua olhando para o Brasil como uma alternativa relevante em mercados emergentes, percepção que ajuda a sustentar a tentativa de reabertura da janela de IPOs.
IPOs entre o Brasil e os EUA
Além de estimular novas listagens, a B3 também tenta evitar que empresas brasileiras optem por abrir capital diretamente nos Estados Unidos, movimento que ganhou força nos últimos anos, especialmente entre companhias de tecnologia.
Segundo Viviane, a bolsa brasileira trabalha para mostrar às empresas que a listagem local não impede o acesso ao investidor internacional e ainda oferece vantagens estratégicas.
“O que a gente sempre trabalha é que estando no Brasil, abrindo o capital na bolsa do Brasil, você não acessa apenas os investidores locais, mas também os investidores estrangeiros. E você tem uma conexão muito mais forte com a cultura da companhia, com a história da companhia”, afirmou.
Flavia Mouta citou o caso recente da Vitru Educação, que migrou da Nasdaq para a B3, como exemplo de empresas que passaram a reconsiderar a decisão de listar ações no exterior. "São companhias que percebem que não fizeram o movimento adequado no momento lá atrás e conseguem reverter", afirmou a diretora.
Já Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, afirmou que a bolsa vem tentando adaptar produtos e estruturas de listagem conforme o perfil de cada companhia. "Um passo importante que a gente deu foi o nosso pacote de listagem, que a gente consegue direcionar para cada empresa dependendo do seu setor e das suas necessidades", disse.
Ele também destacou o uso dos Brazilian Depositary Receipts (BDRs) como forma de manter empresas conectadas ao investidor brasileiro mesmo quando optam por listar ações fora do país. "Se a companhia faz a sua listagem nos Estados Unidos, a gente consegue ter o ativo dela negociado aqui com acesso para investidores brasileiros em linhas muito similares", disse.
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