Banco Mundial revisa crescimento do PIB global ao pior nível pós-pandemia
O Banco Mundial reduziu nesta quinta-feira, 11, sua projeção para o crescimento da economia global em 2026 e alertou para riscos de uma desaceleração ainda mais severa.
O principal fator são as guerras no Oriente Médio, que elevaram os preços de energia, reacenderam pressões inflacionárias e aumentaram as expectativas de aperto monetário em vários países. O relatório semestral Global Economic Prospects é a principal referência do banco para o panorama econômico mundial.
O Banco Mundial projeta crescimento global de 2,5% em 2026, queda em relação aos 2,9% registrados em 2025 e o menor índice desde a pandemia de Covid-19. A previsão representa uma revisão negativa de 0,1 ponto percentual em relação à estimativa de janeiro e alcança dois terços dos países.
Os maiores cortes estão concentrados nos Emirados Árabes Unidos, Iraque e demais países do Oriente Médio com exportações de energia afetadas pelo conflito entre Estados Unidos e Irã.
A guerra, iniciada com ataques americanos e israelenses ao Irã em 28 de fevereiro, entrou em seu quarto mês e provocou o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde escoava parte relevante do petróleo mundial.
O Banco estima que o preço médio do petróleo Brent ficará em US$ 94 por barril no ano, 36% acima do nível de 2025. A inflação global chegará a 4%, ante 3,3% em 2025, e os preços de fertilizantes devem subir até 38% no ano, levantando preocupações com a segurança alimentar mundial.
Choque maior para países em desenvolvimento
O impacto é mais intenso nos países emergentes e em desenvolvimento. Para esse grupo, o Banco Mundial projeta crescimento de apenas 3,6% em 2026, ante 4,4% em 2025, o menor patamar desde a pandemia.
A renda per capita nos países emergentes e em desenvolvimento, excluindo China e Índia, não deve recuperar o nível pré-pandemia antes de 2028, configurando uma "década perdida" de convergência de renda com as economias avançadas, conforme o Banco.
A região mais afetada é o Oriente Médio, Norte da África, Afeganistão e Paquistão, onde a previsão de crescimento foi cortada em 2,7 pontos percentuais — de 4% em 2025 para 1,6% em 2026.
Os Emirados Árabes Unidos, que cresceram 6,2% em 2025, devem expandir apenas 2,4% neste ano. A Turquia teve sua projeção cortada em 0,9 ponto percentual, para 2,8%.
UE e Japão devem crescer menos de 1%, enquanto EUA mantém sua taxa
Para a zona do euro, o crescimento esperado caiu de 1,4% em 2025 para 0,8% em 2026. Já no Japão, foi de 1,1% para 0,7%. Os EUA mantiveram previsão de 2,2% para 2026.
A China, que cresceu 5% em 2025, deve expandir 4,2%, revisão de 0,2 ponto percentual para baixo. Já a Índia permanece como a maior economia de crescimento rápido entre os grandes países, com expansão prevista de 6,6% em 2026.
Crescimento do PIB global poderá desacelerar para 1,3% em 2026
O cenário-base do banco pressupõe que as piores perturbações ao fornecimento de energia se dissipem até o fim de julho. Se isso não ocorrer, o crescimento global pode ser ainda menor.
Em um cenário intermediário, com as interrupções se prolongando e o petróleo chegando a uma média de US$ 115 por barril no ano, o crescimento recuaria para 2,1% e a inflação atingiria 4,4%, segundo a Reuters.
O pior cenário projetado pelo banco é mais grave. Caso o choque energético transborde para os mercados financeiros, haverá maior volatilidade, queda de confiança e deterioração das condições de crédito. Nessa conjuntura, o crescimento global poderia cair a apenas 1,3% em 2026.
"Esses cenários de risco mostram com que rapidez o panorama pode piorar se a pressão energética e financeira se reforçarem mutuamente", disse Ayhan Kose, economista-chefe adjunto do Banco Mundial, segundo a Reuters.
O banco também disponibilizou até US$ 100 bilhões nos próximos 15 meses para os países mais afetados pelos efeitos da guerra, e sinalizou capacidade de ampliar esse suporte se as pressões se aprofundarem, conforme o The Guardian.
As previsões do Banco Mundial para a economia brasileira
Para o Brasil, o Banco Mundial projeta crescimento de 1,9% em 2026, com uma revisão negativa de 0,1 ponto percentual em relação à estimativa de janeiro.
A desaceleração reflete a contenção do consumo e condições monetárias ainda restritivas, segundo o banco. Para 2027 e 2028, a projeção é de crescimento médio de 2,1% ao ano, à medida que a desinflação em curso abra espaço para afrouxamento da política monetária.
O Banco observa que a desinflação no Brasil perdeu ritmo por causa das pressões no setor de energia, e que a América Latina como um todo — região que tem índices de inflação estruturalmente mais elevados — deverá manter uma política monetária particularmente restritiva.
A região crescerá 2,2% em 2026, ante 2,3% em 2025, e a recuperação mais expressiva está prevista para 2027-2028, com média de 2,5%, impulsionada pelo investimento e pela melhora das condições globais, conforme o relatório do Banco Mundial.
Atividade econômica global deverá se fortalecer em 2027-2028
O Banco Mundial projeta uma recuperação gradual da economia global, com crescimento de 2,8% tanto em 2027 quanto em 2028, impulsionada pela normalização dos preços de energia, retomada do comércio e afrouxamento monetário.
Ainda assim, esse patamar ficaria 0,4 ponto percentual abaixo da média registrada na década de 2010, em razão de fatores estruturais como desaceleração do crescimento populacional, queda nos investimentos privados e públicos, elevação da dívida soberana e menor expansão do comércio global.
"O mundo é muito menos resiliente hoje do que era em 2008 e mesmo em relação a 2018", afirmou Indermit Gill, economista-chefe do Banco, apontando que os próximos anos serão marcados por alta incerteza nas políticas públicas, pressões inflacionárias e juros elevados, de acordo com a Reuters.
Para as economias emergentes e em desenvolvimento, os três principais vetores de esperança identificados pelo banco são o aumento do comércio regional, a transição para energia limpa e a inteligência artificial.
O relatório adverte, porém, que os benefícios da IA são concentrados nos países ricos. Menos de um quarto dos datacenters existentes está em economias em desenvolvimento, e as línguas de metade da população mundial têm representação insuficiente nos dados que treinam os modelos.
"A menos que essas lacunas sejam fechadas, a revolução da IA pode ampliar, em vez de reduzir, a distância entre países ricos e pobres", alertou Gill.
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