BBA: Migração do aluguel para carro próprio com crédito do governo pode afetar Localiza

Por Clara Assunção 21 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
BBA: Migração do aluguel para carro próprio com crédito do governo pode afetar Localiza

O novo programa do governo federal para financiamento de veículos voltado a motoristas de aplicativo e taxistas acendeu um sinal de alerta para a Localiza (RENT3). Em relatório divulgado após o lançamento da iniciativa, nesta quarta-feira, 20, o Itaú BBA avaliou que a medida pode reduzir a demanda por aluguel de carros, desacelerar as vendas de seminovos e pressionar as projeções de resultados da companhia nos próximos anos.

Batizado de Move Brasil Táxi e Aplicativos, o programa foi lançado pelo governo federal nesta terça, 19, e prevê uma linha de crédito para compra de veículos novos de até R$ 150 mil, com prazo de até 72 meses e carência de seis meses para o início do pagamento. Na prática, os motoristas aprovados nas primeiras etapas começarão a pagar as parcelas apenas em 2027.

A iniciativa terá orçamento de R$ 30 bilhões e será voltada exclusivamente para carros novos produzidos por montadoras habilitadas no programa Mover, desde que os veículos atendam critérios de sustentabilidade, como modelos flex, híbridos flex, elétricos ou movidos apenas a etanol.

A expectativa inicial é de juros de até 12,6% ao ano para homens e 11,6% para mulheres, ainda sujeitos à validação do Conselho Monetário Nacional (CMN).

Localiza pode enfrentar pressão na divisão de aluguel de carros

Para os analistas do banco, o principal risco para a Localiza está na possibilidade de migração de motoristas de aplicativo do aluguel para a compra do próprio carro. "A divisão de aluguel de carros (RAC) pode enfrentar perda de demanda caso motoristas de aplicativo migrem do aluguel para a compra do veículo", afirmou o Itaú BBA no relatório.

O banco estima que entre 30 mil e 40 mil veículos alugados pela companhia estejam atualmente nas mãos de motoristas de aplicativo. Esse volume representa cerca de 10% da receita da divisão de aluguel de carros (RAC) e aproximadamente 5% da receita total de locação da empresa.

No balanço divulgado no início de maio pela empresa, com os resultados financeiros do 1° trimestre deste ano, a companhia reportou uma receita líquida atingiu R$ 2,79 bilhões, alta de 8,5% em relação ao mesmo período de 2025, na divisão de aluguel de carros. Esse crescimento, segundo a Localiza, foi impulsionado pela combinação de maior diária média e aumento de utilização da frota.

O número de diárias cresceu 1% na comparação anual, enquanto a diária média avançou 7%, para R$ 157,4. Já a taxa de utilização atingiu 82,1%, alta de 12,1 pontos perncetuais frente aos primeiros três meses do ano passado.

Desaceleração de venda de seminovos

Além do impacto potencial sobre o aluguel de veículos, o Itaú também avalia que o programa pode desacelerar as vendas de seminovos da companhia. Isso porque consumidores que antes recorreriam a um carro usado para trabalhar em aplicativos podem optar por um veículo novo subsidiado pelo programa, especialmente diante da proximidade entre o valor das parcelas de modelos novos e usados.

De acordo com levantamento da plataforma GigU, 25,4% dos motoristas que trabalham por aplicativo ainda dirigem com carros alugados. Outros 74,6% utilizam veículos próprios, quitados ou financiados.

"Os compradores que buscariam um carro usado para trabalhar com aplicativos podem optar por um veículo novo, pois o valor das parcelas tende a ficar muito próximo entre carros novos e usados", destacou o banco.

A divisão de Seminovos também foi destaque positivo no primeiro trimestre da Localiza, e atingiu receita recorde de R$ 7,1 bilhões, um aumento de 34,5% sobre o ano anterior, com venda histórica de 95,4 mil veículos, alta de 27,7%.

Apesar da avaliação negativa para o curto prazo, o Itaú BBA manteve recomendação de compra para as ações RENT3, com preço-alvo de R$ 54 ao fim de 2026.

Impactos financeiros ainda não são mensuráveis

Mas, segundo os analistas, o anúncio pode manter as expectativas do mercado para o lucro da companhia mais próximas da faixa inferior das projeções para 2026, entre R$ 4,3 bilhões e R$ 4,5 bilhões, além de limitar as estimativas para 2027 a valores abaixo de R$ 5 bilhões.

O relatório pondera, contudo, que o impacto ainda é difícil de mensurar com precisão e não altera a visão estrutural positiva para a empresa. "A companhia continua sendo vista como um ativo de alta qualidade, com maior sensibilidade ao ciclo econômico e melhora nos fundamentos", afirmou o banco.

O debate surge em um momento em que a Localiza vinha apresentando resultados robustos. No primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou receita líquida consolidada de R$ 12,3 bilhões, alta de 21,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. O lucro líquido alcançou R$ 1,22 bilhão, avanço de 45% na comparação anual e recorde para um primeiro trimestre.

No consolidado, o Ebitda da companhia somou R$ 4,1 bilhões no trimestre, alta de 23,7%, enquanto o EBIT avançou 32,4%, para R$ 2,73 bilhões. A geração de caixa antes de juros e outros atingiu R$ 2,18 bilhões, e a dívida líquida encerrou março em R$ 30,2 bilhões, queda de 2,8% em relação ao fim de 2025.

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