BC não vê fim claro da guerra e tem dúvida se choque é transitório

Por Clara Assunção 8 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
BC não vê fim claro da guerra e tem dúvida se choque é transitório

O diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, afirmou nesta quarta-feira, 8, que a autoridade monetária ainda não tem clareza sobre a natureza do choque provocado pelo conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, e que a incerteza sobre sua duração segue no radar da política monetária mesmo após o acordo de cessar-fogo na véspera.

"Eu não tenho a convicção, dadas as idas e vindas dos participantes desse conflito, que isso está resolvido. Então, não tenho a capacidade de saber se é um choque transitório ou não", disse a autoridade durante o 12° Brazil Investment Forum, evento do Bradesco BBI voltado a investidores e executivos.

A avaliação ocorre em um momento em que um cessar-fogo temporário de duas semanas entre Estados Unidos e Irã está em discussão, com base em um plano apresentado por Teerã e ainda longe de representar um acordo definitivo.

Para David, a aparente trégua não elimina os riscos estruturais do conflito. O diretor demonstrou ceticismo em relação à calmaria momentânea. "Está tudo animadíssimo porque houve um cessar-fogo por hora, mas eu não estou convencido de que ele resolveu a situação", afirmou.

Segundo o diretor, o cenário pós-conflito tende a ser marcado por um nível de desconfiança mútua mais elevado do que antes.

Nesse contexto, Nilton destacou que a própria percepção de risco global mudou, citando como exemplo a capacidade do Irã de afetar uma das principais rotas do comércio mundial de petróleo, o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% da produção global.

"A percepção que não se tinha antes, certamente equivocadamente, é que o Irã consegue fechar o Estreito de Ormuz. Isso dá uma inquietude. A percepção depois disso não vai ser a mesma", disse David

Selic tem 'gordura' mas pode sofrer com incertezas

Diante desse ambiente, David reforçou que, embora torça para que o choque seja temporário, o Banco Central precisa trabalhar com cenários mais cautelosos. "Adoraria que fosse transitório. Torço bastante para que seja. Quanto mais transitório for, menos difícil é o nosso trabalho", afirmou. "Mas, se não for, o Banco Central está aqui para isso, vamos ajustar conforme o necessário", acrescentou.

O diretor de política monetária do BC também ressaltou que o atual nível de juros oferece mais margem de manobra do que no passado recente, mas alertou que o choque inflacionário associado ao conflito exige vigilância.

"O nível de juros hoje tem mais gordura do que tinha seis meses atrás. Obviamente que esse evento do conflito vai do outro lado, porque ele está dando um choque de preços relevante, que tem chances reais de ter efeitos de segunda ordem", disse. "Não podemos baixar a guarda".

Em março, o Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano, sem sinalizar claramente os próximos passos. A autoridade monetária tem defendido a manutenção de juros em patamar restritivo, justamente diante da elevação das incertezas, agora reforçadas pelo cenário geopolítico.

Petróleo e mercado de trabalho no radar

Ao comentar o funcionamento dos modelos usados pela instituição, Nilton também destacou que não há uma relação mecânica entre choques externos, como o preço do petróleo, e seus efeitos sobre a inflação doméstica. "O modelo é uma referência. Não existe relação mecânica do número que ele entrega", afirmou, acrescentando que fatores como tributação, etanol e custos logísticos influenciam o repasse aos preços.

Além do cenário externo, o diretor mencionou mudanças estruturais no mercado de trabalho como outro fator relevante para a análise do Banco Central. Segundo ele, o país atravessa o primeiro ciclo de aperto no mercado de trabalho desde a reforma trabalhista de 2017, o que ainda exige mais estudos.

Ele citou, por exemplo, o impacto da chamada "uberização" sobre a população economicamente ativa. “Quando você tem a capacidade de ligar um aplicativo, você tem um ‘sim’ meio que garantido. Isso trouxe uma parcela da população que estava em desalento de volta ao mercado”, afirmou. Segundo estimativas do BC, esse movimento pode ter acrescentado cerca de meio milhão de pessoas à força de trabalho.

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