Bebida banida no Irã volta ao mercado nos EUA

Por Marina Semensato 21 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Bebida banida no Irã volta ao mercado nos EUA

Um destilado de uvas-passas com pelo menos 700 anos de tradição no Irã voltou ao mercado por um caminho improvável: uma destilaria em Yonkers, em Nova York. O SAG é um dos poucos aragh sagis produzidos comercialmente no mundo e o único fabricado nos Estados Unidos.

A bebida, que já foi onipresente no país persa, é proibida lá desde a Revolução Islâmica de 1979, junto com todas as outras bebidas alcoólicas. Produzi-la, vendê-la ou consumi-la é punível com até 80 chicotadas e multas. Quem quiser beber aragh sagi no Irã hoje depende do mercado clandestino e de destilarias caseiras também clandestinas.

O SAG nasceu do esforço de quatro expatriados iranianos que se reencontraram em Nova York. Amir Imani, Siavash Karampour, e os irmãos Sasan e Saman Oskouei, que já preparavam pequenas porções da bebida em seu apartamento no Queens para dividir com outros jovens da diáspora iraniana na cidade. As informações são do New York Times.

A ideia de comercializar o experimento nasceu há dois anos. O primeiro lote de SAG cerca de 300 garrafas que se esgotaram quase imediatamente, compradas sobretudo por imigrantes iranianos. Hoje, a bebida está presente em mais de 30 bares e restaurantes em Nova York, muitos deles voltados à culinária persa ou do Oriente Médio, e é vendido em outros estados.

"Muitas pessoas ficam muito emocionadas", disse Imani em entrevista ao NYT. "Simplesmente dizem: 'Faz 45 anos que não bebo isso'." Fora do Irã, apenas outras duas marcas produzem aragh sagi comercialmente: a Cyrus, destilada na Holanda, e a Persian Empire, do Canadá.

A história do destilado

O nome popular da bebida carrega uma história própria. Aragh quer dizer 'suor' em persa — referência ao processo de destilação. Sagi, 'cachorro', é herança do rótulo da Meikadeh, marca pré-revolução que estampava um beagle na garrafa. O apelido sobreviveu à marca, que desapareceu sob o regime teocrático.

A bebida costuma ser confundida com outras. É chamada de vodca persa, o que não é exato, visto que a vodca é destilada várias vezes até perder o sabor da matéria-prima. O aragh sagi passa pelo alambique uma só vez, o que mantém o gosto das passas — um perfil que lembra melaço e caramelo, com um toque floral.

Também não é arak, bebida anisada do Mediterrâneo Oriental, nem arrack, licor do Sudeste Asiático feito de cana-de-açúcar. Pelo método e pelo resultado, o parentesco mais próximo é com a grappa ou o pisco, embora o aragh sagi seja mais encorpado que ambos.

O preço da proibição

A clandestinidade da produção no Irã tem consequências graves  — os irmãos Oskouei afirmaram ter sido açoitados após serem flagrados com a bebida. Apesar da violência, o risco maior é sanitário, uma vez que destiladores sem formação nem equipamento adequado podem não conseguir separar o metanol, subproduto tóxico da destilação.

Segundo levantamento do NYT, cerca de dez pessoas por dia foram hospitalizadas ou morreram por intoxicação alcoólica no Irã nos últimos meses, mas não foi detalhado se o consumo era de aragh sagis especificamente.

O contexto ganha outra camada com a guerra entre Estados Unidos e Irã. Para os fundadores do SAG, a bebida funciona como um contraponto aos estereótipos sobre a cultura iraniana — uma forma de apresentar ao público americano uma tradição milenar que o regime teocrático tentou apagar.

Nos EUA, como qualquer bebida alcoólica, o SAG precisa cumprir normas de segurança. Para produzi-lo, os quatro sócios procuraram David e Dorit Nahmias, donos da destilaria Nahmias et Fils, em Yonkers.

Nahmias vem de uma família judia marroquina e já produzia mahia, destilado de figo que, assim como o aragh sagi, quase havia desaparecido. "O que me atraiu foi que eles tinham a mesma paixão que nós", disse Dorit Nahmias ao NYT. "Estão dando continuidade a uma tradição que se perdeu."

Como é a fabricação

A produção do SAG começa com a imersão das passas em tanques de água com capacidade de 380 litros. Depois da reidratação, as frutas são trituradas e fermentam por duas a três semanas. O líquido resultante é coado e destilado em alambique.

É uma bebida versátil, resfrecante e levemente adocicada. Iranianos costumam tomá-la pura ou com gelo, às vezes com uma rodela de limão. No bar Masquerade, Karampour criou o Eclipse, variação de um sour clássico que substitui o uísque por SAG e usa romã para complementar o limão. A fruta dá profundidade ao sabor e adiciona uma cor roxa densa sob a espuma.

O destilado também aparece no cardápio do Eyval, restaurante persa em Bushwick, Brooklyn. Seu dono, Ali Saboor, passou parte da infância no Irã. "É o tipo de bebida que meu pai tomava quando eu era criança", disse. "Aquele cheiro, o sabor das passas — é como reviver o aragh iraniano tradicional."

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