Beyond Expo Macao 2026 aborda a transição do digital para o físico
A inteligência artificial passou os últimos anos confinada às telas, textos e modelos rodando na nuvem. A Beyond Expo 2026, realizada de 27 a 30 de maio no Venetian Macao, em Macau, na China, foi montada para anunciar o fim dessa fase.
Reconhecido como o maior evento de tecnologia, inovação e investimento da Ásia, o encontro adotou neste ano um tema que funciona como diagnóstico e como aposta: "AI: Digital to Physical", a IA que deixa o software e passa a perceber, raciocinar e agir no mundo físico.
A escala ajuda a dimensionar o momento. Foram cerca de 800 expositores, 400 palestrantes e mais de 400 veículos de imprensa, vindos de mais de cem países e regiões, distribuídos em mais de 220 sessões e sete palcos principais.
A organização, a cargo da associação de tecnologia de Macau, projetou um público próximo de 30 mil pessoas, contra os 20 mil de 2024. Por trás dos números, uma mudança de eixo: durante três anos, o debate global girou em torno de modelos de fundação e plataformas generativas. Em Macau, a conversa se deslocou do modelo para a máquina.
A nova fase da inteligência artificial
Essa virada apareceu já na cerimônia de abertura. Deepu Talla, vice-presidente de robótica e edge AI da Nvidia, empresa cuja infraestrutura computacional sustenta boa parte do desenvolvimento de IA no mundo, defendeu a ideia de inteligência artificial física. Sistemas que interagem com o ambiente por meio de robôs e máquinas, e não apenas por uma interface de conversa.
A leitura é direta. A próxima camada de valor não está apenas em treinar modelos cada vez maiores, mas em colocá-los para operar em fábricas, hospitais, veículos e dispositivos vestíveis.
A robótica incorporada foi o centro de gravidade do evento. Felix Zhang, fundador e presidente da Pudu Robotics, uma das maiores fabricantes de robôs de serviço em operação no mundo, com mais de 120 mil unidades implantadas em mais de 80 países, apresentou sua visão sobre a próxima etapa de comercialização do setor.
A presença simultânea de uma fabricante de chips e de uma fabricante de robôs não foi acaso. Ela desenha as duas camadas que a IA física exige para existir: a infraestrutura que processa e a plataforma que executa no mundo real. A consequência estratégica é relevante. As empresas que vão dominar o uso físico da IA podem não ser as mesmas que lideram a corrida pelos modelos de fronteira. Podem ser as que já controlam linhas de produção, logística e canais de implantação em escala.
Microempresas, criadores e independentes
Houve, porém, um movimento que diferencia esta edição das anteriores e que merece atenção de quem pensa o ecossistema de inovação. Pela primeira vez, a Beyond Expo abriu espaço de destaque para as chamadas empresas de uma só pessoa, criadores independentes e programadores autônomos, colocados lado a lado com grandes marcas.
No encerramento, um dos cofundadores do evento foi explícito ao justificar a escolha: a aposta não recaiu apenas sobre os nomes consagrados da IA, mas sobre desenvolvedores individuais com potencial de se tornarem os unicórnios da próxima década. É um sinal de que o vetor de criação de riqueza tecnológica está se distribuindo, e não apenas se concentrando.
Esse mesmo deslocamento ajuda a entender por que a economia de criadores ganhou trilha própria na programação. Foi nesse contexto que se inseriu o painel "Algorithm Never Sleeps", dedicado a discutir como as redes sociais reconfiguram a maneira de consumir conteúdo e por que os criadores vivem em permanente corrida para acompanhar os algoritmos.
O argumento tem uma tradução econômica direta, e o live commerce é a mais visível delas. Plataformas como o TikTokShop transformaram a transmissão ao vivo em ponto de venda, a ponto de circularem relatos de pessoas que constroem patrimônio em poucos segundos de exibição, pela integração entre entretenimento, influência digital e compra em uma única jornada.
O empreendedor digital nerd e advogado tributarista, Dr. Faustino Júnior, um dos criadores convidados para a cobertura internacional do encontro, sintetizou a lógica ao observar que o consumidor deixou de procurar produtos como fazia há alguns anos. Hoje, a compra acontece dentro do próprio fluxo de consumo de conteúdo, o que altera a forma como as marcas constroem audiência, geram confiança e convertem.
O capital acompanhou o roteiro. Investidores institucionais, fundos e family offices integraram a programação, com nomes como o conselho de investimentos de Abu Dhabi entre os palestrantes de abertura.
Infraestrutura na era digital
Outra novidade prática foi um circuito que levou participantes internacionais para conhecer de perto a infraestrutura industrial da Grande Baía, no sul da China, justamente a região que transforma protótipo em produção em larga escala. Não se discutiu inovação como ideia abstrata, mas como cadeia: pesquisa, capital, manufatura e mercado operando como um sistema único.
A leitura que fica, para quem participou de perto, é a da velocidade. Para Faustino, o que separa a Ásia de outros mercados deixou de ser apenas a tecnologia disponível e passou a ser a velocidade de execução, com modelos que em outros lugares ainda são tratados como futuro já sendo implantados em escala industrial.
A observação que mais resume o clima do encontro veio de suas conversas com fundadores locais. Quase todos, segundo ele, acreditam que a próxima etapa da evolução tecnológica passa por máquinas autônomas dotadas de percepção própria, uma convicção que em outros fóruns ainda soa especulativa e que em Macau era tratada como roteiro de execução.
A Beyond Expo 2026 entrega, no fim, uma mensagem que ultrapassa o entusiasmo com novos produtos. A competição que se desenha não é mais entre empresas isoladas nem entre modelos de linguagem.
É entre ecossistemas capazes de integrar pesquisa, capital, manufatura e implantação, seja no chão de fábrica, seja dentro de uma transmissão ao vivo que vende em tempo real. Para líderes, investidores e formuladores de política, a lição é menos sobre qual tecnologia adotar e mais sobre quão rápido se consegue colocá-la para funcionar. Quem entender primeiro que a inteligência artificial saiu da tela, e que o próprio consumo migrou para dentro do conteúdo, terá menos uma vantagem de mercado e mais uma vantagem de tempo.
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