Bilhões em lançamentos e nada de IPO: a construtora do Paraná que fatura R$ 1,8 bi

Por Daniel Giussani 6 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Bilhões em lançamentos e nada de IPO: a construtora do Paraná que fatura R$ 1,8 bi

Quando os avós de Leonardo Yoshii chegaram ao Brasil, entre as décadas de 1910 e 1920, não havia qualquer plano de construir prédios, condomínios de luxo ou obras bilionárias. Vieram do Japão em um dos grandes fluxos migratórios do século passado, atraídos pela promessa de trabalho e pela chance de recomeçar do outro lado do mundo.

A disciplina japonesa, no entanto, veio junto na bagagem. Educação virou prioridade dentro da família. Décadas depois, Atsushi Yoshii, filho desses imigrantes, se formaria engenheiro civil pela Universidade Federal do Paraná e seguiria um caminho improvável para a época: faria uma pós-graduação no Japão, em 1963, viajando de navio a partir do porto de Santos. Foram quase três meses de travessia.

De volta ao Brasil, Atsushi começou pequeno. Trabalhou em prefeituras no interior do Paraná e, no tempo livre, passou a construir casas para amigos. O que era favor virou negócio. Em 1965, nascia a construtora que carregaria o sobrenome da família — um gesto que, para os Yoshii, sempre significou responsabilidade antes de ambição.

Sessenta anos depois, aquela empresa familiar do interior do Paraná virou um grupo com mais de 6 milhões de metros quadrados construídos, presença em 12 estados e 1,8 bilhão de reais em receita líquida em 2025.

À frente do negócio desde 2015, Leonardo Yoshii, filho do fundador, conduz uma expansão acelerada — mas com uma decisão clara: crescer sem abrir o capital.

“Colocar o nome da família na empresa sempre foi um compromisso com algo perene”, diz Yoshii. Em 2026, a A.Yoshii prevê 2,2 bilhões de reais em receita, crescimento de 22%, e 2,1 bilhões de reais em VGV em lançamentos. Tudo isso mantendo o controle fechado, mesmo com bilhões em obras.

Qual é a história da A.Yoshii

A A.Yoshii nasceu em 1965, em Apucarana, no interior do Paraná, em um Brasil que ainda se urbanizava fora dos grandes centros. O fundador, Atsushi Yoshii, era filho de imigrantes japoneses e carregava uma obsessão que marcaria a empresa desde o início: educação como base para qualquer projeto de longo prazo. Ele estudou engenharia civil e fez uma pós-graduação no Japão.

Quando voltou ao Brasil, Atsushi começou a trabalhar na construção civil. A construtora, que inicialmente levava o nome completo do fundador, logo passou a se chamar A.Yoshii.

O crescimento veio acompanhando os ciclos do país. Nos anos seguintes, a empresa construiu agências bancárias, lojas de varejo e acompanhou a expansão das cidades do interior. Depois, entrou forte no agronegócio, com obras para cooperativas agrícolas, silos e indústrias ligadas à produção rural.

“A agricultura começou a ganhar outra dimensão no Brasil, mais tecnológica, maior, e nós fizemos muitas obras nesse segmento”, diz Yoshii.

Vieram, na sequência, projetos industriais, educacionais e corporativos. A A.Yoshii construiu escolas, universidades e, mais recentemente, grandes plantas industriais para setores como papel e celulose, saúde, alimentos e logística.

Hoje, o portfólio inclui obras para empresas como Klabin, Suzano, Embraer e Unimed.

“A empresa foi crescendo à medida que o Brasil se desenvolvia. Cada ciclo econômico abriu uma nova frente”, afirma.

Qual é a estratégia atual

A A.Yoshii chega a 2025 como um grupo diversificado, mas com o imobiliário como principal motor.

Cerca de 80% da receita vem da incorporação residencial. Os outros 20% são gerados pela A.Yoshii General Construction, braço de obras corporativas e industriais.

“Essa composição mudou muito a partir dos anos 2000. O segmento imobiliário passou a ganhar cada vez mais relevância”, diz Yoshii.

Dentro da incorporação, o grupo atua em faixas distintas. A A.Yoshii Engenharia foca no alto padrão e no superluxo. A Yticon Construção e Incorporação atende o segmento médio, incluindo produtos voltados ao primeiro imóvel e ao investidor. Já a A.Yoshii Urbanismo, criada em 2023, desenvolve condomínios horizontais de alto padrão.

Em 2025, o grupo realizou 11 lançamentos, com 1,8 bilhão de reais em valor geral de venda, e entregou 12 empreendimentos, somando mais de 240 mil metros quadrados. Atualmente, mantém 1,1 milhão de metros quadrados em construção, com 3,5 bilhões de reais em obras em execução.

A decisão de seguir lançando passa por uma leitura conservadora — e constante — do mercado.

“A gente sempre busca boas localizações. Produtos vocacionados para cada região”, afirma o CEO. Segundo ele, viabilidade é palavra-chave. “Estudo de viabilidade tem que fechar. Linha de custo precisa estar controlada.”

Mesmo em períodos de incerteza, o grupo identifica oportunidades, especialmente no perfil investidor.

“Em anos eleitorais, como qualquer ano com incerteza, o mercado imobiliário ganha força como forma de preservação patrimonial”, diz Yoshii. Por isso, a Yticon vem ampliando produtos com maior liquidez, tíquete mais acessível e foco em renda.

No outro extremo, o luxo segue resiliente. “O mercado de luxo e superluxo sempre foi mais resistente às crises. É um mercado de desejo”, afirma. Segundo ele, o pós-pandemia reforçou a busca por qualidade de vida, o que influenciou diretamente o desenho dos novos projetos.

Quais são os próximos passos

Para 2026, a A.Yoshii projeta 2,2 bilhões de reais em receita líquida, crescimento de 22%, impulsionado por lançamentos que devem somar 2,1 bilhões de reais em VGV.

No calendário de entregas, estão previstos 16 empreendimentos, totalizando cerca de 374 mil metros quadrados.

A estratégia passa por aprofundar a presença nos mercados onde o grupo já atua, especialmente no Paraná e no interior de São Paulo, em cidades como Londrina, Maringá, Curitiba e Campinas. Diversificação geográfica é tratada como regra, não como exceção. “Concentração em um único mercado traz risco. Por isso a gente olha sempre para outras regiões”, diz Yoshii.

Mesmo com escala bilionária, a abertura de capital segue fora dos planos.

“Essa questão de IPO sempre ronda empresas do nosso porte. Já analisamos diversas vezes, mas até o momento não achamos interessante”, afirma. Segundo ele, manter a independência pesa mais do que acessar o mercado de ações. “A gente valoriza muito a autonomia na tomada de decisão.”

Isso não significa rejeitar crescimento. Pelo contrário. “Empresa que não cresce começa a andar para trás”, diz Yoshii. A diferença está no ritmo e na forma. O grupo prefere avançar com controle, funding alternativo e decisões centralizadas na família.

Sessenta anos depois da chegada dos primeiros Yoshii ao Brasil, a empresa segue operando sob a mesma lógica que marcou sua origem: disciplina, visão de longo prazo e pouca pressa — mesmo quando os números já são bilionários.

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