Boleto com cashback? Conta de luz vira oportunidade de crédito nesta startup
A Liora, nova energyfintech fundada por ex-executivos de Loft, Guiabolso, Moip e Kovi, quer transformar a conta de luz em uma espécie de “infraestrutura invisível” para crédito, benefícios e serviços financeiros no varejo brasileiro.
Em vez de tratar a energia apenas como custo, a companhia usa usinas de geração distribuída para gerar economia na fatura e converter parte desse valor em produtos financeiros, com foco em pequenas e médias empresas e consumidores de alto consumo. Ou seja, o boleto de luz passa a financiar equipamentos, linhas de crédito com juros mais baixos ou até cashback em benefícios.
“Para nós, a energia é um novo pilar da infraestrutura financeira, com características muito parecidas com aluguel e pagamentos: entra todo mês e está presente no orçamento de praticamente todos os brasileiros”, diz Bruno Poljokan, cofundador da startup.
Custos fixos essenciais — moradia, mobilidade, energia — ainda são tratados apenas como despesa, quando poderiam operar como infraestrutura econômica. Criada em 2024, a Liora leva essa lógica para o setor elétrico, conectando energia, dados e serviços financeiros dentro das regras da Aneel.
“A complexidade regulatória, que muita gente enxerga como barreira, foi exatamente o terreno onde aprendemos a escalar modelos novos em mercados como imóveis e mobilidade”, afirma o time, em referência às experiências em Loft, Kovi, Guiabolso e Moip.
Hoje, a Liora opera usinas e carteiras de clientes em estados como Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia, além de cidades do interior de São Paulo, como Campinas, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto.
O foco está em contas de luz a partir de aproximadamente R$ 200, com maior atenção a tíquetes a partir de R$ 700, perfil comum de pequenos comércios e negócios intensivos em energia.
Após dobrar de tamanho nos dois primeiros meses de 2026, a empresa projeta crescer 15 vezes até o fim do ano, na mesma proporção em base de clientes, volume de energia operada e receita. É uma ambição agressiva para uma companhia ainda jovem, em um setor historicamente marcado por ciclos longos e forte presença de players tradicionais.
Lâmpada: a empresa desenvolveu uma plataforma própria que integra gestão de usinas, alocação de créditos, cálculo de benefícios e conexão com parceiros corporativo
Como funciona?
A Liora administra usinas de geração distribuída que injetam energia na rede das distribuidoras locais. Isso gera créditos de energia vinculados ao consumo dos clientes.
O fornecimento físico da energia continua sendo responsabilidade da distribuidora regional, mas o relacionamento passa a ser feito com a Liora, que emite a fatura, faz o atendimento e gerencia os benefícios.
A conta continua chegando todo mês, mas o destino da economia muda: em vez de ficar apenas como “desconto na linha fina”, vira lastro para crédito, financiamento de equipamentos (por exemplo, refrigeradores para pequenos varejistas); cashback em cartões de benefícios, no saldo livre; e serviços de recorrência, como planos de telefonia móvel embutidos na mesma lógica de gasto mensal.
“Usamos a energia como meio, não como fim”, diz Márcio Reis, cofundador da empresa. “O pequeno empresário não quer aprender regulação elétrica; ele quer crédito mais barato, um equipamento novo ou um benefício que caiba no bolso sem aumentar o gasto total.”
Apoio nos dados
A empresa desenvolveu uma plataforma própria que integra gestão de usinas, alocação de créditos, cálculo de benefícios e conexão com parceiros corporativos, com forte uso de automação e inteligência artificial para escalar a operação.
Ao organizar esse fluxo recorrente, a companhia também monta uma base de dados de consumo que, na avaliação dos fundadores, é pouco explorada no mercado brasileiro.
“Dados de energia são quase um espelho da vida real de um negócio. Se o consumo cresce, é sinal de operação aquecida; se cai, algo está desacelerando”, afirma Reis.
A partir desse histórico, a Liora quer construir modelos de risco e produtos financeiros voltados principalmente a PMEs com pouco histórico formal de crédito — sempre com tratamento de dados inspirado nas boas práticas de instituições financeiras, diz a empresa.
A distribuição, por sua vez, acontece sobretudo via grandes ecossistemas. Em vez de vender diretamente uma “assinatura de energia”, a Liora embute sua solução em ofertas de empresas de benefícios corporativos, varejistas, indústrias de bens de consumo e administradoras de condomínios.
Para o cliente final, o que aparece é um cashback maior em um cartão de benefícios, uma linha de crédito a juros zero dentro de uma plataforma já conhecida ou a possibilidade de financiar equipamentos usando como lastro a economia da conta de luz.
“O modelo da Liora só faz sentido se for sustentável do ponto de vista regulatório”, diz Renata Feijó, cofundadora da empresa. “Nosso papel é mostrar que é possível usar a infraestrutura existente para criar mais valor para PMEs e consumidores de alto consumo, com previsibilidade e transparência.”
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