Boliche, comida e fliperama: como a Cinesystem quer faturar R$ 240 milhões e atrair público de volta
Um dos setores mais impactados pela pandemia, o cinema voltou a crescer no Brasil — mas ainda não como era antes. Em 2024, as salas do país receberam 125 milhões de espectadores e faturaram R$ 2,49 bilhões, alta de 9,8% e 6,2%, respectivamente, sobre o ano anterior. Ainda assim, público e renda real seguem cerca de 30% abaixo da média pré-pandemia, segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine).
É nesse intervalo entre a recuperação e a saudade do passado que Marcos Barros, fundador e CEO da Cinesystem, enxerga oportunidades. A sua rede, criada em Maringá, no Paraná, conta hoje tem 28 cinemas multiplex, 190 salas e presença em 11 estados.
Barros, que também preside a Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex), diz que o setor vive “a maior crise da sua história”. A saída, para ele, não é esperar que o espectador volte por nostalgia. É dar um novo motivo para sair de casa.
“Hoje, quase todo mundo de classe média consegue ter uma belíssima TV, bom som e acesso a milhares de filmes pelos streamings. Então você tem que oferecer algo que ele não consegue fazer em casa”, diz Barros. “E é isso que o cinema sempre fez a vida toda".
No ano passado, a rede Cinesystem comprou quatro cinemas e faturou R$ 197 milhões. Para 2026, a meta é crescer 25% usando as novas salas — alcançando R$ 246 milhões em receita. Com menos público na comparação com o pré-pandemia, a fórmula para alcançar esse objetivo é diversificar a oferta de produtos com maior valor agregado.
Qual é a estratégia da Cinesystem para crescer
A tentativa mais ousada da Cinesystem tem nome curto e ambição grande: Loof. Inaugurado no shopping Bourbon Country, em Porto Alegre, o espaço substituiu parte de um antigo cinema da rede por uma arena de entretenimento indoor. Duas das oito salas deram lugar a pistas de boliche, fliperamas, restaurante, sports bar, coquetelaria e arremesso de machado.
O investimento passou de R$ 15 milhões. O complexo tem mais de 30 brinquedos importados, oito pistas de boliche e capacidade para mais de 250 pessoas nas áreas de alimentação e entretenimento.
“Você tem um grupo de amigos saindo do escritório para um happy hour. Hoje, eles vão a um barzinho. No Loof, eles também podem jogar arcade, brincar no arremesso de machado, ir ao boliche ou ao cinema”, afirma Barros.
O cinema não perdeu o protagonismo na operação. Seis salas seguem funcionando na primeira unidade do Loof; três delas foram transformadas em VIP, com poltronas reclináveis e serviço de garçom por QR Code.
“Você cria inúmeras oportunidades e fideliza as pessoas a consumir tudo o que tem ali, inclusive principalmente o cinema. O filme deixa de ser o único destino e passa a ser uma das atrações de um passeio maior”.
1/4 Uma das atrações do Loof é um espaço com fliperamas importados (Design sem nome (1))
2/4 Outra atração do espaço são gaiolas para brinadeira de arremessar machado (Design sem nome (2))
3/4 Além da bomboniere do cinema, Loof conta com bar e restaurante (Design sem nome (3))
4/4 Uma das salas de cinema deu lugar a pistas de boliche (Design sem nome (4))
Como o cinema se reinventou
Para Barros, o setor sempre precisou driblar profecias de morte. Na década de 1940, a televisão acabaria com as salas de filme. Depois, VHS, DVD, Blu-ray, internet e agora o streaming também ameaçaram a existência dos cinemas. Cada tecnologia levou uma parte do consumo para dentro de casa. Em resposta, as redes que querem sobreviver devem se mexer.
No passado já foi assim. O cinema saiu das grandes salas de rua, migrou para os shoppings, ganhou bomboniere com mais opções, som imersivo, projeção digital, poltronas premium e salas VIP.
“O cinema veio antes da televisão. Era a única forma de diversão e cultura no início do século passado”, diz Barros. “À medida que a tecnologia foi avançando, o cinema se reinventou. Agora, acredito que o futuro é transformar o cinema em um centro de entretenimento.”
De todos baques, a pandemia foi o maior. Não fhavia uma nova tela concorrente, mas sim a interrupção completa de um hábito. As salas fecharam, depois reabriram parcialmente. O setor conviveu com restrições e ainda enfrentou um gargalo de lançamentos de filmes, já que parte dos estúdios direcionou as produções para o streaming.
“O pior de tudo foi que, durante a pandemia, os estúdios venderam os filmes para os streamings. Quando o cinema voltou, não tinha mais filme. Um filme não se produz em dois meses. São dois anos fazendo filme”, diz.
Quando o Loof ganhará novas unidades
Apesar da procura de shoppings interessados em ter unidades do Loof, Barros evita transformar o projeto em promessa grandiosa. Diz que a unidade de Porto Alegre ainda é um piloto.
“O Loof é uma experiência ainda. Ele não está pronto para expansão. A gente acredita muito nesse piloto, mas quer primeiro esgotar todas as dúvidas, deixar o modelo redondo, para depois partir para expansão”, afirma.
Marcos Barros, fundador e CEO do Cinesystem: empresário diz que setor em seu pior momento na história (Cinesystem/Divulgação)
A expectativa é encerrar o ano com o diagnóstico pronto e um mapeamento de possíveis novas unidades. A prioridade, diz o executivo, será adaptar cinemas que já fazem parte da rede. Duas possibilidades são os complexos no Morumbi Town Shopping e no Bourbon Shopping, em São Paulo.
O modelo, no entanto, deve ser replicado de forma idêntica. Em alguns shoppings, pode não haver espaço para boliche, arcade e machado. Em outros, a solução pode ser um cinema com restaurante, uma cervejaria artesanal ou outro formato híbrido, explica o CEO da Cinesystem.
Como a Cinesystem transformou o setor no Brasil
Barros iniciou a carreira no mercado de cinemas em 1999, ao comprar salas em um shopping de Maringá, no interior do Paraná. Até então, o empresário investia em empresas de comunicação.
A aposta em experiência não começou agora. Em 2011, a Cinesystem foi a primeira rede a inaugurar um complexo com cinema 100% digital no Brasil. Em 2012, levou o autoatendimento às suas unidades — tendência que depois se espalhou por outras redes daqui. Em 2017, o Cinesystem inaugurou o primeiro multiplex do país com 100% de projeção a laser.
Hoje, além das salas Cinépic, Premium e VIP, a rede tenta criar novos rituais em torno da ida ao cinema. Há sessões adaptadas para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), no Cine Azul; sessões para mães, pais e bebês, no CineMaterna; exibições para tutores com pets; e experiências como Cine Livro e Cine Crochê.
“Para além de incrementar a experiência total do passeio ao cinema, existem projetos que trazem um novo olhar para o que se faz dentro da sala”, diz Barros.
Aa tese do empresário é que o cinema não disputa apenas com o streaming. Disputa com o sofá, com o restaurante, com o bar, com o shopping, com o videogame e com o tempo livre. Para vencer, precisa ser um pouco de tudo isso — sem deixar de ser cinema.
“É uma experiência diferente. Você vai a um lugar com 200, 300 pessoas que não conhece, mas estão todas fazendo exatamente a mesma coisa. Se é para rir, ri todo mundo. Se é para chorar, chora todo mundo”, diz Barros. “Essa energia é diferente de qualquer outra".
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