Bordeaux se abre para o turismo mundial
Não é novidade para enófilo algum que a França passa por uma crise geopolítica e financeira que vem causando graves danos à indústria dos vinhos. A queda nas vendas e a perda de market share forçaram o governo francês a oferecer subsídios para vinhateiros arrancarem suas vinhas, reduzindo em centenas de milhares de hectares a área plantada. Quem vai a Bordeaux, a maior de todas as regiões vitícolas do país, vê o triste cenário a olho nu: pirâmides de pés de vinha mortos, campos inteiros ao léu.
Além da alta no preço da energia e das tarifas de Trump, somam-se à lista de desafios geadas, secas e mais tragédias climáticas. O quadro sombrio vem motivando alguns dos mais renomados Grands Crus Classés a fazer o que era antes impensável: abrir suas portas aos enoturistas.
Bordeaux e a vizinha Borgonha sempre foram na contramão das regiões vitícolas do Novo Mundo. Dificilmente recebiam visitantes, porque não precisavam disso — os vinhos, especialmente os mais renomados, vendiam-se sozinhos. Já no Vale do Napa, na Austrália e na América do Sul, o enoturismo sempre andou de mãos dadas com a produção e o comércio de vinhos. Há toda uma estrutura para receber visitantes — de websites a escritórios de organismos de turismo distribuindo mapas e brochuras, vinícolas com ampla sinalização nas estradas próximas, restaurantes, butiques e salas de degustação abertas ao público.
De três anos para cá, alguns dos mais míticos châteaux bordaleses investiram pesado para receber enófilos, como já fazem há mais tempo poucos pioneiros, como Yquem, Pavie e Lynch-Bages. O deslumbrante La Mission Haut-Brion, por exemplo, faz visitas em grupo ou privativas e está estreando a experiência de refeições em petit comité em uma das chiquíssimas salas do château, a 500 euros por pessoa. “O príncipe sempre quis isso”, disse-me outro dia um dos guias, brasileiro, referindo-se a Roberto de Luxemburgo, o proprietário.
O Mouton Rotschild oferece visitas guiadas para pequenos grupos, cobrando entre 300 e 700 euros. Dão direito a conhecer o museu onde expõem as obras originais estampadas nas etiquetas. No Palmer, qualquer um que faça reserva pode almoçar em sua Cantine Vigneronne (a charmosa cantina dos trabalhadores). Por 490 euros por pessoa, dá até para almoçar ou jantar dentro do château um menu preparado por chef estrelado.
Até o Latour, que integra a holding de vinícolas de prestígio Artémis Domaines e sempre esteve entre os châteaux mais exclusivos de Bordeaux, rendeu-se à tendência. O Château, onde o proprietário François Pinault se hospeda quando está por lá, passará a abrir as portas para pequenos grupos para almoços e jantares vínicos.
Tudo isso é só o começo: por lá, já sacaram que, se pararem, a crise come.
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