Bósnia na Copa: o país que se reconstruiu após a guerra dos anos 1990

Por Matheus Gonçalves 12 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Bósnia na Copa: o país que se reconstruiu após a guerra dos anos 1990

A Bósnia e Herzegovina, ou simplesmente Bósnia, é um pequeno país na península dos Bálcãs, no sudeste europeu, que faz fronteira com a Croácia, a Sérvia e Montenegro. Uma seleção que normalmente recebe pouca atenção, a Bósnia caminha esse ano para sua segunda Copa do Mundo como integrante do grupo B, juntamente com o Catar, a Suíça e o Canadá, que enfrentará nesta sexta-feira, 12, às 16h no horário de Brasília, em seu jogo de abertura.

A equipe também jogou no Brasil, em 2014, quando não passou da fase de grupos. O principal destaque do time é a presença do poderoso atacante Edin Džeko, conhecido como 'o diamante da Bósnia' e considerado o maior jogador da história do país.

Aos 40 anos, o atleta de 1,93 de altura retorna como capitão do time e tem sob seu cinto um histórico impressionante: jogou em clubes como Manchester City, Roma, Inter de Milão e Fiorentina, mas realmente fez seu nome ao conquistar a Bundesliga, principal torneio alemão, pelo VfL Wolfsburg na temporada de 2008-09, na qual foi o segundo maior artilheiro, com 26 gols.

No ano seguinte, foi o artilheiro do campeonato, com 22 gols. Ao longo de sua carreira no futebol europeu, também se tornou o primeiro jogador a marcar 50 gols em três das cinco principais ligas europeias: a alemã, a inglesa e a italiana.

Tendo crescido nos anos 1990, todavia, Džeko conhece bem a realidade de seu país. A Bósnia tem uma longa história de conflitos e o principal foi a Guerra da Bósnia (1992-1995), um sangrento conflito armado que fez parte da mais ampla Guerra Civil Iugoslava, que trouxe fim à República Federal Socialista da Iugoslávia. O país vem tentando se recuperar desde então, conduzindo projetos intensos de infraestrutura e de desenvolvimento social.

Entenda a história recente da Bósnia e como o país se recupera após um passado sangrento.

Guerra da Bósnia

Muçulmanas bósnias choram sobre os caixões de parentes mortos no massacre de 1995 em Srebrenica (Elvis Barukcic/AFP)

Seguindo uma série de movimentos de independência por uma miríade de atores que compunham a Iugoslávia em meados dos anos 90, a então República Socialista da Bósnia e Herzegovina, um estado multiétnico composto por bosníacos muçulmanos, sérvios bósnios cristãos ortodoxos e croatas bósnios católicos, também passou por um referendo de declaração de independência.

Antecipando os resultados, representantes dos sérvios proclamaram a República do Povo Sérvio na Bósnia e Herzegovina, uma facção que seguia majoritariamente leal ao presidente Slobodan Milošević, alinhada à Iugoslávia e abastecida em armas, equipamentos e soldados pelo Exército Popular da Iugoslávia (JNA).

Mobilizando suas forças, o presidente e o JNA mobilizaram suas forças e rapidamente tomaram o controle de 70% do país, em uma campanha caracterizada pelo genocídio sistemático de milhares de croatas bósnios e bosníacos.

Assim, o conflito foi protagonizado por lutas entre o JNA, que, posteriormente, se desenvolveu no país como o Exército da República de Srpska (VRS), composto por sérbios, e o Exército da República da Bósnia e Herzegovina (ARBH), composto predominantemente por bosníacos e croatas.

Todavia, tensões internas entre croatas e bosníacos resultaram em um conflito sangrento, multilateral e marcado por matanças sistemáticas, grandes massacres e alianças frágeis, no qual diversas forças agiram em prol de seus próprios interesses.

De acordo com a Enciclopédia Britannica, estima-se que mais de 100 mil pessoas tenham perdido a vida no conflito, com estudos detalhados sugerindo cerca de 97.200 mortes documentadas e confirmadas.

O período foi caracterizado por bombardeios intensos e indiscriminados, estupros em massa e genocídio. Entre os incidentes mais famosos estão o genocídio de Srebrenica e o cerco de Sarajevo.

Em Srebrenica, hoje uma cidade na Bósnia e Herzegovina, cerca de 8 mil homens bosníacos foram massacrados por forças sérbias no único incidente a ser categorizado como um genocídio na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

O cerco de Sarajevo, por sua vez, viu um bloqueio militar de cerca de 4 anos na cidade do mesmo nome, hoje a capital do país. Cercada por dois exércitos, a cidade ficou sitiada por quase quatro anos, com bombardeios e ataques de franco-atiradores. Estima-se que mais de 10 mil pessoas, em sua maioria civis, tenham perdido a vida durante o cerco.

O atacante Edin Džeko, que jogará como capitão da seleção bósnia nessa Copa, cresceu na cidade nesse período e tinha seis anos quando o cerco começou, e contou suas memórias para o jornal britânico The Mail:

"Era um estresse e uma preocupação constantes, com medo de que algo acontecesse ou que chegasse a notícia de que alguém que conhecíamos havia morrido. Eu era muito jovem e chorava com frequência, de medo. Todos os dias, ouvíamos os tiros e perdemos amigos e até alguns parentes."

A guerra finalmente teve um fim com o Tratado de Dayton, assinado na cidade de mesmo nome em Ohio, nos EUA, em 1995. Todos os atores concordaram com a paz e aderiram a um único Estado soberano, denominado Bósnia e Herzegovina. O novo país foi dividido em duas partes: a República Srpska, majoritariamente populada por sérvios, e a Federação da Bósnia e Herzegovina, populada pelos croatas bósnios e pelos bosníacos.

Reconstrução e economia

Ponte em Sarajevo, capital da Bósnia. Na foto, membros do grupo de hip-hop local Dubioza Kolektiv

Após a guerra, o novo país rapidamente passou a colaborar com a comunidade internacional, e, com a ajuda do Banco Mundial e de outros doadores, recebeu bilhões de dólares de apoio. Essa resposta rápida foi destinada à reconstrução de uma infraestrutura destruída, à remoção de milhões de minas terrestres e à restauração de redes elétricas, estradas e moradias.

Além disso, importantes marcos culturais, reduzidos a escombros durante o conflito, como a Ponte Stari Most, foram restaurados e reabertos. Do fim da guerra até 2011, cerca de 6,4 bilhões de euros foram investidos no país por atores estrangeiros, com a Áustria como o maior doador, com 1,2 bilhão investidos, de acordo com apuração do jornal local Nezavisne.

Para conter a inflação, o país adotou uma nova moeda, a Marka, vinculada ao euro, que ainda circula até hoje, embora não esteja mais vinculada à moeda europeia.

O país apresenta um PIB de cerca de US$ 30 bilhões, com um crescimento econômico estável de cerca de 3% ao ano. Alimentando essa economia está a exportação de metais, energia e produtos de madeira, além de um setor de turismo que cresce rapidamente.

Todavia, o país ainda enfrenta problemas para se tornar uma economia de livre mercado, como um setor público excessivamente grande, pouca privatização e forte dependência de investimentos estrangeiros e de exportações.

Apesar dos avanços em setores sociais e econômicos, a privatização e o ambiente de negócios permanecem lentos, dificultando o crescimento e o emprego, diz um comunicado do departamento de avaliação de operações do Banco Mundial. "A principal tarefa na Bósnia e Herzegovina é acelerar o crescimento e reduzir o desemprego por meio de uma maior dependência do setor privado", aponta o relatório.

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