Bradesco: Desenrola é bom para o cliente, mas pouco relevante para o banco, diz CEO
O Bradesco (BBDC4) avalia que o Desenrola 2.0, lançado no início desta semana pelo governo federal, pode trazer alívio relevante para consumidores inadimplentes, mas não deve ter impacto significativo nos resultados recorrentes do banco.
De acordo com o CEO, Marcelo Noronha, embora o banco tenha uma base de clientes que se enquadra nos critérios do programa, a maior parte desse público está concentrada em dívidas mais antigas, já provisionadas, o que reduz o potencial de efeito sobre a carteira ativa da instituição.
"É um bom programa de fato para a população até cinco salários mínimos", afirmou Noronha durante a coletiva de imprensa sobre o balanço do 1° trimestre de 2026 realizada na manhã desta quinta-feira, 7. "Mas, para a continuidade da nossa recorrência, eu não vejo relevância significativa. A maior parte desse público estaria de fato nos vencimentos mais longos, não nos curtos com a gente", disse.
Mais tarde, durante conferência com analistas, o executivo acrescentou o Bradesco está operando o produto e teve, até a véspera, nesta quarta, 6, 18 mil clientes habilitados para renegociação de dívidas. Ao todo, o banco possui 28 milhões de clientes "fully digital" e tem uma base de 1,7 milhão de clientes afluentes.
Bradesco supera expectativas no 1° tri, mas inadimplência preocupa
O Bradesco reportou lucro líquido recorrente de R$ 6,8 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 16,1% em relação ao mesmo período do ano passado e avanço de 4,5% na comparação trimestral. Foi o nono trimestre consecutivo de crescimento do lucro e da rentabilidade e o valor ficou acima das expectativas de parte do mercado.
De acordo com o balanço, divulgado ontem, o desempenho foi sustentado principalmente pela expansão de 14% das receitas totais, impulsionada pela margem financeira e pelo segmento de seguros, em especial da Bradsaúde, além de um controle mais rígido das despesas operacionais.
Apesar disso, o ambiente de crédito segue no radar dos investidores. O índice de inadimplência acima de 90 dias ficou em 4,2%, com leve alta de 0,1 ponto percentual tanto na comparação anual quanto trimestral. Já os atrasos entre 15 e 90 dias subiram 21 pontos-base, movimento que o banco classificou como sazonal.
Noronha classificou a inadimplência da pessoa física como "muito flat" e disse estar sob controle, mesmo em um cenário macroeconômico mais pressionado tanto pelos juros em alta como pela guerra no Irã e as expectativas inflacionárias.
O que é o Desenrola 2.0
O programa de negociações de dívdas entrou oficialmente em operação nesta semana como uma nova tentativa do governo federal de conter o avanço da inadimplência e aliviar o orçamento das famílias. O principal braço da iniciativa, chamado Desenrola Famílias, é voltado para pessoas com renda de até cinco salários mínimos, hoje equivalente a R$ 8.105, e dívidas em atraso entre 90 dias e dois anos.
Na prática, o programa permite a renegociação de débitos contratados até 31 de janeiro de 2026, incluindo cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal não consignado. Os descontos podem variar entre 30% e 90%, dependendo do tipo de dívida e do tempo de atraso.
Além disso, o programa prevê juros limitados a 1,99% ao mês e parcelamento em até 48 meses. Os bancos participantes contam com garantias do Fundo Garantidor de Operações (FGO), mecanismo que reduz o risco das instituições financeiras nas renegociações.
Para Noronha, o programa pode ser positivo sobretudo do ponto de vista social e para clientes que buscam regularizar a situação financeira. "É uma oportunidade para esse público sair da condição de inadimplência”, disse.
Durante a coletiva, o executivo também comentou sobre a possibilidade de uma futura versão do Desenrola voltada para clientes adimplentes, hipótese que vem sendo discutida nos bastidores do governo. Segundo o CEO, porém, o Bradesco ainda não foi procurado para tratar do tema.
"O debate conosco girou efetivamente em torno de quem tinha dívidas em atraso", afirmou. "Ainda não temos essa perspectiva de conversa sobre um programa para adimplentes".
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