Bradesco reconhece piora do cenário macro e reafirma conservadorismo

Por Clara Assunção 8 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Bradesco reconhece piora do cenário macro e reafirma conservadorismo

O Bradesco (BBDC4) reforçou nesta quinta-feira, 7, um discurso de cautela diante do cenário macroeconômico, ao comentar os resultados do primeiro trimestre de 2026. Durante coletiva de imprensa, o CEO do banco, Marcelo Noronha, disse reconhecer uma piora do ambiente econômico global e doméstico, o que levou a instituição a manter um "apetite moderado com viés mais conservador" na concessão de crédito, especialmente em segmentos considerados mais arriscados.

Segundo Noronha, a combinação entre guerra no Irã com os Estados Unidos e Israel, inflação mais pressionada e juros elevados no Brasil aumentou a cautela do sistema financeiro como um todo.

"É um fato que o macro teve sua piora. Pode até haver alguns efeitos positivos, mas estamos vendo uma inflação um pouco mais pressionada ao longo deste ano por conta desse cenário. E ainda precisamos acompanhar como a política monetária vai reagir. Tudo isso influencia o apetite a risco no sistema financeiro, não apenas do Bradesco, mas das demais instituições também", afirmou Noronha.

Apesar da cautela, o CEO ressaltou que o banco não interrompeu suas operações de crédito. "Isso não significa puxar o freio de mão e parar de operar. O viés mais conservador significa que eu posso pegar certos modelos e dizer 'não tenho apetite para fazer isso aqui'. Mas continuamos com tração forte naquilo que é bom, bom rating, boas modalidades com garantia", disse.

O discurso foi reforçado pelo diretor de Relações com Investidores, André Carvalho, que classificou o momento como uma "mudança leve do tom" da instituição. "Estamos vendo guerra, uma Selic ainda de 14,50%, e isso exige cautela do banco. Essa cautela não impede a gente de crescer. [Mas] só daremos prioridade a linhas com mais garantias", afirmou.

Aumento de provisões para devedores duvidosos

Segundo Carvalho, o posicionamento mais conservador tem ajudado a manter a inadimplência "dentro do esperado e sob controle".

Entre janeiro e março, o banco registrou aumento de 26,5% nas provisões para devedores duvidosos (PDD) em relação ao ano anterior, pressionado tanto pelo crescimento da carteira sob as novas regras contábeis da Resolução 4.966, que modernizou a contabilidade bancária, quanto por eventos específicos de deterioração de crédito.

Entre eles, os executivos citaram o impacto de um caso relevante de recuperação judicial no atacado, que levou o banco a reforçar provisões. Também segue no radar a pressão no segmento de pequenas e médias empresas, especialmente em operações com garantias governamentais, em que existe uma defasagem entre o atraso do cliente e o ressarcimento pelo governo.

"As provisões impactaram os resultados do banco, uma vez que o custo do risco subiu 20 pontos-base no trimestre, fazendo com que as perdas esperadas com crédito (ECL) ficassem 6% acima da nossa previsão e compensassem o resultado positivo da receita líquida de juros (NII)", afirmaram os analistas do banco Safra em relatório."Observamos que as ECL no atacado aumentaram em cerca de R$ 600 milhões".

Outro ponto de atenção continua sendo o agronegócio. Noronha afirmou que o setor enfrenta um cenário mais difícil devido aos juros elevados e à valorização do real, que reduz a rentabilidade do exportador. Além disso, o banco ainda acompanha os efeitos de eventos climáticos extremos no Sul do país, que levaram à concessão de carências e renegociações em operações rurais anteriores.

"A apreciação cambial não é boa para o exportador", afirmou o CEO. Segundo o executivo, a valorização do real também impactou diretamente o balanço do banco no trimestre, reduzindo o valor nominal da carteira de crédito em moeda estrangeira quando convertida para reais. "Nós temos muitas operações em câmbio. E aí, obviamente, você pressiona a carteira quando converte para reais", explicou.

Desconsiderando os efeitos cambiais, o Bradesco afirmou que a carteira de crédito teria crescido 0,6% no trimestre e 9,5% na comparação anual.

Banco reforça foco em disciplina do risco e do capital

Mesmo diante da postura mais cautelosa, o banco afirmou que segue expandindo linhas consideradas mais seguras, como crédito consignado privado e financiamento de veículos com garantia. O foco, segundo os executivos, é manter crescimento com maior disciplina de risco e melhor retorno ajustado ao capital.

Na visão do Safra, o posicionamento mais conservador do Bradesco mostra uma abordagem prudente diante da deterioração macroeconômica e da possível piora na qualidade dos ativos.

"Embora isso proporcione maior conforto, também pode sugerir que a projeção seja um tanto otimista em vez de conservadora, o que pode levar à ausência de revisões na estimativa de consenso de lucro líquido de R$ 27,5 bilhões a R$ 28 bilhões em 2026", ponderou o banco, destacando que a operação de seguros como um importante colchão de proteção para os resultados.

Ao comentar o cenário eleitoral de 2026, Noronha minimizou riscos estruturais para o banco. Segundo ele, as eleições podem gerar episódios pontuais de volatilidade, mas sem impacto duradouro. "Você pode ter um pouco de volatilidade, mas essa volatilidade acontece em uma ou duas semanas. Não é uma volatilidade perene durante o período eleitoral", afirmou.

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