Brasil continua perdendo talentos de tecnologia, mas eles já não precisam sair do país
Xaxim tem pouco mais de 30 mil habitantes e fica no oeste de Santa Catarina, longe de qualquer polo tecnológico. É de lá que o engenheiro de software Leonardo da Rosa, 35, trabalha para uma empresa do Vale do Silício. “O trabalho remoto quebrou a barreira física e trouxe oportunidades para pessoas de todas as regiões, sejam grandes centros ou cidades do interior”, diz.
O caso de Leonardo está cada vez mais longe de ser exceção. Por décadas, a fuga de cérebros – expressão usada para descrever a saída de profissionais altamente qualificados do país – esteve associada à mudança definitiva para mercados estrangeiros. Hoje, o movimento ganhou outra configuração: cada vez menos é preciso deixar o Brasil para trabalhar no exterior.
A consolidação do trabalho remoto e o avanço da inteligência artificial permitiram que esses profissionais permanecessem no país enquanto desenvolvem produtos, tecnologias e inovação para empresas estrangeiras. Na prática, os profissionais deixaram de exportar a própria força de trabalho por meio da migração. Agora, exportam seu conhecimento sem sair do país.
Leonardo da Rosa trabalha de Xaxim (SC) para uma empresa do Vale do Silício (Arquivo Pessoal)
Oswaldo Neto, diretor de tecnologia da DIO, plataforma de educação em tecnologia, afirma que esse movimento antecede a pandemia. Ele próprio trabalhou para empresas internacionais sem sair do Brasil, quando esse modelo ainda era restrito a poucos profissionais. “Exigia uma estrutura que pouca gente tinha”, afirma. Na avaliação do executivo, a pandemia de Covid-19 eliminou essa barreira. O visto e a mudança de país deixaram de ser pré-requisitos para brasileiros que desejam construir carreira em empresas globais.
Com isso, empresas estrangeiras passaram a contratar desenvolvedores brasileiros diretamente, sem a necessidade de intermediários ou filiais locais. “Antes, as empresas daqui competiam entre si. Agora, competem com qualquer empresa do mundo”, resume.
Os números mostram a dimensão desse movimento. Em 2025, a demanda internacional por profissionais brasileiros cresceu 53%, segundo o Relatório de Contratações Internacionais da Deel, empresa de RH que analisou mais de um milhão de contratos em mais de 150 países. Os Estados Unidos lideram entre os principais destinos, com alta de 26% nas contratações de brasileiros. O Reino Unido aparece na sequência, com crescimento de 31%. Na América Latina, a Argentina registrou avanço de 84%.
E os sinais indicam que essa tendência deve continuar. Uma pesquisa da plataforma Futuros Possíveis, realizada com apoio do Grupo Boticário, mostra que 78% dos profissionais brasileiros têm interesse em trabalhar remotamente para empregadores internacionais.
O que pesa na decisão
Pergunte por que um desenvolvedor brasileiro escolhe trabalhar para empresas estrangeiras e a primeira resposta será: salário. Está certa, mas incompleta. Leonardo diz que a remuneração pesou, mas o que mais contou foi a oportunidade de carreira, o nível técnico do trabalho e a chance de atuar em contexto internacional. “Pra mim fez bastante diferença a chance de aprender, ter autonomia e estar atuando em problemas mais interessantes”, diz.
Oswaldo Neto descreve o mesmo padrão. “No início, os talentos da área acabam priorizando outras coisas: plano de carreira, contato com tecnologias mais atrativas, projetos desafiadores”, explica. O problema aparece depois: quando o profissional amadurece e descobre que o salário em dólar pode ser até quatro vezes maior do que uma vaga local. “Fingir que isso não é o gatilho principal é ingenuidade.”
Oswaldo Neto, diretor de tecnologia da DIO, afirma que o trabalho remoto eliminou a necessidade de emigrar para construir carreira em empresas globais
Jerry Soares, CEO da MPJ Solutions, consultoria em tecnologia, contesta o estereótipo do desenvolvedor movido só por dinheiro. “O profissional de tecnologia é como outro qualquer. Ele quer uma cultura com a qual se identifique, uma projeção de carreira e um ambiente desafiador”, diz. O que faltou às empresas brasileiras, na visão dele, foi entender isso antes. “Até alguns anos atrás, essa concorrência não existia. Agora existe.”
O Brasil perde onde mais dói
O mercado brasileiro não está perdendo todo tipo de profissional para o exterior. Para os especialistas, está perdendo os que mais fazem falta.
“O Brasil tem vantagens na faixa de entrada”, diz Oswaldo. Indústrias como a financeira, o varejo e a logística absorvem bem profissionais júnior e pleno.
“O Brasil perde onde não podia perder: seniores, especialistas, líderes técnicos com destaque para inteligência artificial e dados, que é onde estão os melhores salários e os problemas mais interessantes”, explica o Oswaldo.
Na dinâmica das empresas, dizem os especialistas, é o sênior quem forma o júnior, toma decisões de arquitetura, define padrão técnico. Quando vai embora – mesmo que fisicamente fique no Brasil – as equipes locais perdem densidade técnica. “Startups relatam dificuldade de contratar gente sênior com autonomia”, diz Oswaldo. “Perdemos no nível que forma todos os outros.”
O ganho médio mensal de profissionais brasileiros que trabalham para empresas estrangeiras gira em torno de US$ 2.600, segundo estimativas de mercado – cerca de R$ 13.200. Em 2025, 40% desses profissionais receberam em dólar, segundo o estudo da consultoria Deel. Para muitos, a moeda estrangeira é proteção contra a inflação e a volatilidade cambial.
Problema ou oportunidade?
Jerry Soares vê o fenômeno com cautela otimista. “O profissional que mora no Brasil, mesmo trabalhando fora, vai participar de cursos, vai compartilhar o que está vivenciando”, diz. "Em médio e longo prazo, isso fortalece o ecossistema.”
Mas ele reconhece o risco. “O Brasil precisa usufruir dos profissionais que tem e fazer com que as empresas consigam atender a demanda interna primeiro. Senão, o país fica apenas cedendo recursos e não a tecnologia em si”, alerta.
Jerry Soares, CEO da MPJ Solutions, defende que empresas brasileiras precisam investir em carreira, cultura e inovação para reter talentos (Arquivo Pessoal)
Na prática, quando um engenheiro brasileiro resolve um problema para uma empresa americana, a solução pertence à empresa americana, dizem os especialistas entrevistados. O Brasil exporta talento e importa salário. Para o indivíduo, pode ser ótimo. Para o país, é uma conta que ainda não fechou.
Para Oswaldo Neto, as empresas brasileiras precisam parar de competir por salário – essa batalha elas não vão ganhar, diz ele – e começar a competir por densidade técnica. “Um desenvolvedor que está na vanguarda, trabalhando com IA, tomando decisões de arquitetura, resolvendo problemas reais, tem motivo para ficar que o dinheiro sozinho não compra”, diz.
“Colocar um sênior em trabalho repetitivo é praticamente assinar a carta de saída dele”
Como encarar o desafio
Nesse cenário, a liderança importa ainda mais. “Pessoas saem de carreiras estagnadas e de gestores ausentes. Um líder técnico que não desenha o futuro de quem ele lidera está empurrando essa pessoa para a porta”, diz Oswaldo.
Jerry Soares aposta na formação de base. O ensino médio técnico integral, em expansão no Brasil, é um caminho. Incentivos fiscais para empresas que atuem na vanguarda tecnológica, outro. “Se você unificar essa formação com incentivos adequados, você cria vantagem econômica e muda a percepção dos brasileiros sobre as próprias empresas”, diz.
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