'Brasil e EUA poderão ter era de ouro', diz novo cônsul do país em SP

Por institucional 27 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Brasil e EUA poderão ter era de ouro', diz novo cônsul do país em SP

O Consulado dos Estados Unidos em São Paulo é um dos mais movimentados do mundo. Esse fluxo continuou forte, mesmo em 2025, ano em que o presidente Donald Trump impôs tarifas ao Brasil e pressionou o governo brasileiro. A partir de setembro, os presidentes Lula e Trump se aproximaram e a tensão baixou. Nessa mesma época, chegou a São Paulo Kevin Murakami para assumir o posto de cônsul-geral na cidade.

Há cinco meses no cargo, o diplomata toca uma ampla agenda, cujo destaque são os esforços para ampliar os negócios entre os dois países e levar empresas brasileiras a investir nos EUA. “As portas dos Estados Unidos estão abertas para o investimento brasileiro. Estamos preparados para fazer tudo para apoiar”, disse o cônsul à EXAME, em sua primeira entrevista longa à imprensa brasileira. “Se os dois alcançarem o potencial máximo de sua relação, poderá ser uma era de ouro entre os países.”

De descendência japonesa, Murakami fez uma ampla carreira diplomática. Ele já serviu no Iraque, Paquistão, México, Colômbia e no Rio de Janeiro. Na conversa, ele falou ainda sobre a possibilidade de redução de tarifas, de parcerias no combate ao crime e dos planos para atrair mais brasileiros para a Copa do Mundo, que será realizada nos EUA, no México e no Canadá a partir de junho.

Qual é a missão que lhe deram ao vir para o Brasil?

Estou aqui para avançar a política da administração do presidente Trump. O objetivo principal é alcançar todo o potencial dessa relação. Se os dois países o alcançarem, poderá ser uma era de ouro na relação. Obviamente, os dois países precisam resolver muitas diferenças. O governo dos Estados Unidos ainda tem muitas preocupações sobre liberdade de expressão, condições do clima comercial e do custo brasileiro. Estamos procurando uma relação comercial justa e balanceada. Estou aqui para fazer tudo para realizar esse potencial, resolver os assuntos em que não concordamos, fortalecer nossa segurança nacional contra grupos criminosos, além de criar um bom relacionamento, gerar mais oportunidades para empresas americanas aqui no Brasil e atrair mais investimentos brasileiros para os Estados Unidos.

Quais são as ações do governo americano para atrair mais empresas brasileiras para os EUA?

Agora, mais do que nunca, é o momento perfeito para que empresas brasileiras façam mais investimentos nos Estados Unidos. Quero deixar claro que as portas do país estão abertas para o investimento brasileiro. Estamos preparados para fazer de tudo para apoiar. Temos a iniciativa Select USA, um programa-chave para ajudar empresas estrangeiras a investir nos Estados Unidos. Desde a sua criação, esse programa facilitou 400 bilhões de dólares em investimento, que apoiaram em torno de 265.000 empregos nos Estados Unidos.

Com o Brasil, já tivemos 65 acordos de investimento, o que representa um valor acima de 1 bilhão de dólares e apoio a 2.500 empregos nos Estados Unidos. O Select USA fará um evento em Washington, entre os dias 3 e 6 de maio. Teremos também uma edição especial Select USA Tech, desenhada para startups de tecnologia que hoje têm intenção de expandir suas operações nos EUA nos próximos dois ou três anos. Lá, qualquer startup ou empresa pode se conectar com todo o ecossistema de inovação e tecnologia.

O Select USA é como uma consultoria de alto nível para qualquer empresa que queira ir para os Estados Unidos, desde startups até empresas pequenas, médias e grandes. No ano passado, tivemos mais de 500.000 participantes, representando 100 países, e a maior delegação de toda a América do Sul era a do Brasil.

Quais são os maiores desafios das empresas brasileiras para acessar o mercado dos Estados Unidos?

O maior desafio pode ser a falta de informação, de conhecimento sobre como navegar por tudo isso. O programa existe para ajudar as empresas brasileiras a ter informações, saber navegar pelas regras federais e fazer conexões, que são importantes para qualquer negócio.

Quais setores nos Estados Unidos têm mais espaço para investimentos e empresas brasileiras?

Software, tecnologia, serviços financeiros, alimentos e bebidas, produtos químicos e comunicações. Isso se alinha muito com os setores de mais alto crescimento e inovação nos Estados Unidos, que são manufatura avançada, tecnologia, energia e serviços digitais. Quero enfatizar que, para a administração do presidente Trump, atrair investimento estrangeiro é uma prioridade. Isso se alinha com as agências de desenvolvimento econômico em nível estadual, que oferecem muitos incentivos para as empresas. É uma questão de fazer o match entre o que quer uma empresa brasileira nos Estados Unidos e os estados e agências certos.

Os presidentes Trump e Lula: novo encontro entre os líderes deve ocorrer em março, na Casa Branca (Ricardo Stuckert / PR/Agência Brasil)

Vivemos no último ano o momento de maior tensão na relação entre os dois países, com as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. Como se preparar para ter algum  tipo de previsibilidade em relação às tarifas?

A relação econômica entre o Brasil e os Estados Unidos tem décadas de história. O comércio e o investimento bilateral têm gerado 500.000 empregos aqui no Brasil e mais ou menos 100.000 postos de trabalho nos Estados Unidos. Independentemente das tarifas, que estão em negociação, uma empresa brasileira vai encontrar muitas coisas nos Estados Unidos: um ambiente de negócios estável, um mercado de capitais dinâmico, sempre forte, um Estado de Direito e uma cultura realmente de empreendedorismo. Independentemente de tarifa, qualquer empresa brasileira vai ter acesso ao maior mercado consumidor do mundo, ecossistema forte, inovação de ponta, com regras transparentes e claras, uma forte proteção de propriedade intelectual e uma força de trabalho bem treinada.

O senhor vê espaço para que as tarifas possam ter mais reduções neste ano?

A coisa mais importante é que o presidente Lula e o presidente Trump falaram e nossos secretários e ministros já se encontraram e acertaram. Os presidentes concordaram em ter uma reunião na Casa Branca, que é uma coisa muito importante e significativa, e os dois já falaram de muito boa química. Então, já existe uma base para negociar ainda mais.

O presidente Trump divulgou uma nova doutrina para a América Latina em dezembro. Como essa proposta muda as relações entre Brasil e Estados Unidos e como pode afetar os negócios?

Pode afetar de uma maneira muito positiva. Na minha carreira diplomática, é a primeira vez que uma estratégia de segurança nacional tem como prioridade número 1 no mundo a América Latina. O Brasil, sendo a maior economia na América Latina, vai ser um parceiro crítico para avançar e implementar essa estratégia, que diz que a prosperidade é uma parte essencial da segurança para qualquer país. Essa segurança vai beneficiar as relações entre o Brasil e os Estados Unidos.

Fala-se muito sobre a China na América Latina, mas o maior fluxo de investimento estrangeiro na região vem dos Estados Unidos. O senhor vê espaço para um aumento de investimentos americanos no Brasil?

Com certeza. Os Estados Unidos são de longe a maior fonte de investimento estrangeiro direto aqui no Brasil, uma quantia enorme, de 232,8 bilhões de dólares [em 2024], três vezes maior que o da segunda maior fonte de investimento. O modelo de investimento dos Estados Unidos é muito positivo: sempre considera a criação de empregos locais, tem introdução de tecnologias inovadoras, respeita os padrões trabalhistas e ambientais e a integração com a economia brasileira.

É bem diferente do que um modelo de um país como a China, que tem tendência de importar mão de obra e levantar preo­cupações a respeito de padrões trabalhistas e direitos humanos. Vocês se lembram do caso na Bahia, de queixas de trabalhadores de uma ­fábrica chinesa de automóveis. Também há priorização por parte da China de vender produtos chineses em vez de fortalecer a produção local.

Andrea Bocelli canta em sorteio da Copa do Mundo: governo americano quer levar mais brasileiros ao torneio (Roberto Schmidt/AFP/Getty Images)

Como poderão ser feitas mais parcerias em segurança pública, um tema que os presidentes Lula e Trump têm citado?

Já temos muito trabalho conjunto. O Consulado tem jurisdição sobre São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, e é muito boa a coordenação e cooperação com as polícias locais e a federal. Para a administração Trump, a luta contra grupos criminosos é uma prioridade sem precedentes. A designação, por exemplo, do PCC como TCO, uma organização criminosa transnacional [feita em 2021], é uma amostra de que a gente está comprometido em fazer tudo para combater esses grupos e as coisas maléficas que eles exportam para diferentes países. O PCC tem presença em mais de 28 nações. Então, isso é um problema não somente para o Brasil, mas para muitos países. A luta contra esses grupos criminosos é uma das partes principais de nossa política estrangeira.

O senhor trabalhou na Colômbia. Há ideias de combate à violência que o senhor aplicou lá e que poderiam ser usadas no Brasil?

A Colômbia é um pouco diferente daqui. Me perguntam com frequência se o PCC é semelhante aos grupos na Colômbia ou aos cartéis do México, onde também trabalhei. Há semelhanças e diferenças. Os grandes cartéis produzem drogas, cocaína, fentanil. O PCC move essas coisas e faz lavagem de dinheiro. Então, o modelo de criminalidade por parte do PCC é um pouco diferente. São ainda mais perigosos, porque eles têm muita influência e estão integrados em muitos setores da economia lícita, aproveitando São Paulo como capital financeira da América Latina. Isso vai exigir uma resposta com diferentes setores, como o financeiro, a polícia, a Justiça e a cooperação internacional.

Como o senhor tem trabalhado o tema dos minerais críticos? O Brasil tem reservas extensas, mas as explora pouco.

Os minerais críticos são uma alta prioridade para a administração Trump. O governo dos Estados Unidos vê no Brasil um parceiro com potencial bem forte nesse sentido. Há duas semanas, o governo dos EUA realizou uma reunião ministerial focada nesses minerais. As cadeias de suprimento de minerais críticos seguros devem ser uma prioridade para o Brasil, para os Estados Unidos e todo o hemisfério. Em março, vai acontecer um fórum dedicado a esse tema, contando com a participação do setor privado, em Brasília.

O senhor falou de Brasília. A embaixada americana não tem, neste momento, um embaixador indicado.

A gente tem um chefe de missão e encarregado de negócios [Gabriel Escobar] supercapacitado, diplomata de carreira de alto nível e expertise. E é importante lembrar que o Brasil tem quatro consulados e é uma das maiores missões diplomáticas [dos EUA] do mundo, o que demonstra a importância do país.

Falando agora sobre emissão de vistos, o processo tem ficado mais difícil? Há previsão de redução de filas neste ano?

Sempre é um fluxo de demanda, mas o consulado sempre faz tudo para reduzir e manejar os tempos de espera. Quem quiser tirar o visto antes da Copa do Mundo, é melhor não esperar até a última hora. O procedimento de vistos para viagens legítimas terá todo o controle para facilitar a visita de brasileiros.

O senhor está no Brasil, o país do futebol. Qual é o plano para promover a Copa do Mundo e trazer mais divulgação para esse evento?

Agora mesmo, o consulado está trabalhando por meio de uma força-tarefa de turismo para coordenar tudo para que todos os brasileiros que se qualificam para o visto possam viajar. Também queremos promover o evento, porque é uma prioridade não só para o Departamento de Estado e o secretário Marco Rubio, mas para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que criou uma força-tarefa no ano passado. Ele foi claro que quer que esta Copa do Mundo seja a melhor da história.

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