Brasil entra na festa de IPOs globais em momento de seletividade
Após quase cinco anos sem novas estreias na bolsa brasileira, a Oferta Pública Inicial (IPO, na sigla em inglês). da Compass marcou a reabertura da janela de ofertas no país em meio a juros elevados e volatilidade global. No cenário internacional, o número de IPOs recuou no primeiro trimestre de 2026, refletindo um mercado mais seletivo e concentrado em empresas consideradas de maior qualidade e resiliência.
Em fevereiro de 2022 a Selic saltou para a casa dos dois dígitos — e, desde então, está nesse patamar, atualmente em 14,50%. Para além de colaborar com a alta inadimplência e dificuldade de acesso a crédito, uma taxa de juros elevada impacta diretamente o mercado de ações. Neste caso, no fechamento da janela de IPO
Há quase cinco anos que o Brasil não via um IPO. Na semana passada, a Compass, uma empresa controlada pelo grupo Cosan, focada na infraestrutura, distribuição e comercialização de gás natural e biometano, abriu capital na bolsa de valores brasileira. A operação foi precificada em R$ 28 e conseguiu levantar R$ 2,825 bilhões.
A empresa acabou com um dos jejuns mais longos da história, mesmo em meio a um ambiente geopolítico instável, volatilidade nos mercados internacionais e incertezas local. Esses fatores podem colaborar para a janela não estar oficialmente aberta — ou abrir com ressalvas.
O mercado de IPOs
Para compreender o ciclo atual, é necessário partir do desempenho de 2025. Conforme o relatório EY Global IPO Trends 2025, analisado pela Quartzo Capital, 1.293 ofertas foram concluídas globalmente, captando US$ 171,8 bilhões, uma alta de 39% em captação com volume de operações praticamente estável em relação a 2024.
Entretanto, esse movimento desacelerou no primeiro trimestre de 2026. Segundo o mesmo relatório, foram 232 IPOs globalmente (desconsiderando Compass), que captaram US$ 50,7 bilhões, queda de 23% no número de operações, porém alta de 36% em captação em relação ao mesmo período de 2025. O mercado ficou menor em quantidade e mais denso em valor. Nos Estados Unidos, foram 27 IPOs, enquanto na China foram 69 e na Europa 28.
Número de IPOs no mundo desacelera no primeiro trimestre de 2026 - Quarto Capital/Reprodução (Quarto Capital/Reprodução)
Há quem se mostre pessimista. “A era dos ciclos generalizados de abertura de capital chegou ao fim. O que estamos observando é um mercado estruturalmente mais seletivo, no qual o acesso ao capital público deixou de ser uma questão de timing e passou a ser uma questão de qualidade”, aponta Fernando Balotin, head of corporate finance da Quartzo Capital.
Para ele, três fatores devem ganhar relevância nos próximos trimestres: a concentração setorial em defesa, tecnologia e saúde não cíclica, ao explicar que há uma mudança estrutural impulsionada por prioridades de gastos públicos e pelo interesse de investidores em teses de crescimento de longo prazo. Nesse contexto, empresas fora desses segmentos tendem a enfrentar mais dificuldade para acessar o mercado de capitais.
Balotin também aponta uma mudança no mercado de M&A, com maior polarização por tamanho de operação. “O mercado de fusões e aquisições passa a ser a principal rota de liquidez para empreendedores e fundos de private equity com ativos de médio porte”, afirma, destacando que IPOs ficam mais restritos a empresas grandes e preparadas.
Para o Brasil, ele observa ainda que a combinação entre poucas aberturas de capital e o avanço das ofertas públicas de aquisição (OPAs) sugere uma contração estrutural do mercado. Enquanto entre 2022 e 2025 não teve nenhum IPO brasileiro, o Brasil vivenciou um total 44 OPAs para cancelamento de ações no mercado acionário. Um exemplo recente é o da Iberdrola, empresa espanhola que conduziu a OPA para fechar o capital da Neoenergia.
Por fim, o especialista ressalta que o ambiente geopolítico adiciona risco ao ciclo de IPOs. “A incerteza não é motivo para paralisação, mas sim um argumento adicional para que empresas com ambição de acessar o mercado público acelerem sua preparação interna enquanto as condições ainda permitem”, diz.
Ele cita a volatilidade causada por tensões no Oriente Médio e novas tarifas nos EUA, que já afetaram o pipeline global de ofertas, como certo impeditivo para novos IPOs. Nesse cenário, segundo Balotin, o momento atual não é de observação passiva.
"Para empresas com potencial de listagem, é o momento de construir os fundamentos que permitirão acessar o mercado quando a janela reabrir. Para investidores e assessores, é o momento de identificar os ativos que estarão posicionados para capturar essa janela com vantagem.”
A volta dos IPOs no Brasil?
Leandro Martins, analista técnico em renda variável no Inter, aponta que o retorno de um IPO é um sinal importante de melhora na confiança do mercado. “Mostra que os investidores começam novamente a aceitar mais risco e olhar para empresas de crescimento. Isso abre o mercado de forma gradual”, disse.
Expectativa de queda de juros e Bolsa ainda negociando a múltiplos bastante descontados também colaboram para esse cenário. As projeções do Boletim Focus do Banco Central (BC) estimam uma Selic em 13% ao final de 2026.
Para ele, o mercado de IPO funciona muito por confiança e sequência. Quando uma operação consegue sair e performar bem, outras empresas tendem a acelerar seus planos de abertura de capital. “Existe hoje uma demanda reprimida bastante grande de companhias esperando uma janela melhor”, afirma.
Claudia Mesquita, head de ECM do UBS BB, também comenta que, do ponto de vista estrutural, a transação da Compass valida a tese de que há liquidez e apetite institucional para ativos de alta qualidade, mesmo em cenários de elevada volatilidade global e prêmios de risco comprimidos.
Segundo os especialistas, no entanto, são empresas de maior qualidade e de utilities que chamam a atenção do mercado. “Não é o fim da seca, mas é a confirmação de que companhias com ativo de qualidade conseguem acessar esse mercado, e o sinal para o pipeline é inequívoco”, comenta Mesquita.
Gringo dá esperança para novas ofertas no Brasil
Desde o ano passado iniciou um movimento de rotação de recursos gringos dos Estados Unidos para outros países, especialmente os emergentes — nisso, o Brasil foi extremamente beneficiado. Levantamento da Elos Ayta aponta que, sem considerar IPOs e follow-ons, a entrada líquida de recursos estrangeiros na B3 soma R$ 56,54 bilhões até abril de 2026.
“Como é um mercado profundo e barato, temos atraído um volume desproporcional de investidor estrangeiro. Também estamos um pouco desconectados do ambiente geopolíticico”, analisa Fabio Nazari, sócio e head de mercado de capitais de renda variável do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).
Para ele, a Compass é o ativo ideal para testar reabertura do mercado brasileiro. Na avaliação do especialista, a companhia chega à bolsa com uma base já sólida de liquidez e apoio de investidores de longo prazo. Ele destaca que o free float deve superar R$ 3 bilhões, o que permite uma estreia com boa liquidez desde o início. “Acho que essa foi a receita correta para a empresa que está reabrindo o mercado de capitais no Brasil depois de cinco anos."
Mesquita pontua que existe um pipeline relevante de companhias estruturadas e com governança madura aguardando o momento adequado para acessar o mercado, e essa reabertura ocorre justamente nesse contexto em que o investidor global está rotacionando para emergentes com valuations descontados — o gringo veio para ficar e não irá se posicionar em somente um ativo.
Segundo ela, o que chama mais a atenção é que tudo isso ocorreu em meio a uma Selic a 14,50%. “Quebra a narrativa de que renda variável só funciona com juro real baixo. O que estamos vendo é que o investidor, local e global, não estava esperando o juro cair para alocar; estava esperando ativos com risco-retorno claros e governança comprovada”, fala.
Entretanto, para Nazari, o Brasil ainda patina em “gelo fino”. “Ainda é um mercado sensível, mas eu acho que à medida que a gente veja a taxa de juros cair — e ela vai cair, apesar de mais lentamente do que a gente gostaria — eu acredito que vamos começar a ver o movimento de entrada de capital por parte do investidor local.”
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