Brasil ganhou 'protagonismo raro' e fama de 'ganha-ganha' com investidor estrangeiro

Por Clara Assunção 22 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Brasil ganhou 'protagonismo raro' e fama de 'ganha-ganha' com investidor estrangeiro

O Brasil é visto por investidores estrangeiros como uma oportunidade de "win-win", ou seja, "ganha-ganha", mesmo em meio a um ambiente global volátil e incerto, segundo relatório da XP Investimentos. A análise da corretora é baseada em reuniões com gestores e formuladores de políticas realizadas em Nova York e Washington, D.C.

De acordo com o documento, o país ganhou um protagonismo raro nas discussões recentes. "O Brasil teve um papel mais destacado nas discussões com investidores estrangeiros do que em quase qualquer outro momento nos últimos anos", aponta o relatório assinado pelas equipes de macroeconomia, estratégia e análise política da XP.

A corretora classifica o país como "um vencedor relativo em um ambiente geopolítico volátil", marcado pela guerra entre Estados Unidos, Irã e Israel e incertezas sobre o crescimento e mudanças no comportamento dos ativos considerados seguros em meio à alta do petróleo e pressões inflacionárias.

Nesse ambiente, mercados emergentes exportadores de commodities, como o Brasil, aparecem entre os mais favorecidos.

"Se as tensões geopolíticas persistirem e os preços do petróleo permanecerem elevados, o status do Brasil como exportador líquido de petróleo deverá sustentar sua balança comercial, fortalecer a moeda e ajudar a amortecer as pressões inflacionárias — especialmente considerando a capacidade do governo de atenuar o repasse dos preços dos combustíveis", afirmaram os analistas.

Nesse cenário, o Brasil é visto como um país que tende a se sair melhor do que outros. A avaliação predominante é que o real deve ter um desempenho mais favorável, enquanto os juros podem continuar pressionados, caso condições financeiras mais apertadas limitem a capacidade do Banco Central de fazer os ajustes que pretende.

Mesmo em um cenário de alívio geopolítico e queda do petróleo, o país também tende a se beneficiar, com dólar mais fraco e melhora do apetite global por risco.

"Nesse caso, tanto o real quanto as taxas locais (DIs) provavelmente se beneficiariam. Embora o comércio brasileiro continue sendo impulsionado em grande parte por fatores externos, os investidores estão cada vez mais focados nas dinâmicas domésticas — tanto econômicas quanto políticas — como fontes potenciais de volatilidade", disse a XP.

Riscos domésticos também estão no radar

Apesar do cenário externo favorável, o documento destaca que a atenção dos investidores está cada vez mais voltada para os riscos domésticos. No campo macroeconômico, as recentes surpresas na inflação e o mercado de trabalho ainda aquecido levantam dúvidas sobre a condução da política monetária.

De acordo com o relatório, o Banco Central deve manter uma postura cautelosa, podendo inclusive encerrar o ciclo de cortes de juros antes do previsto para assegurar a desinflação nos próximos anos. Entre os investidores, há um consenso, segundo o documento, de que o próximo governo terá de priorizar o controle do crescimento dos gastos, diante do espaço limitado para aumento de receitas.

O cenário político também entra no radar. Investidores acompanham de perto as pesquisas eleitorais e avaliam o desempenho de Flávio Bolsonaro (PL) em relação a uma possível recuperação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Até o momento, o senador do PL e o atual presidente do PT aparecem como os dois principais candidatos à Presidência da República.

O relatório ressalta que ainda há incertezas relevantes tanto sobre a condução fiscal em um eventual novo mandato de Lula quanto sobre as diretrizes econômicas de uma possível gestão Bolsonaro.

"O Brasil se destaca como um dos poucos mercados que oferecem resultados assimétricos no atual ambiente global, com dinâmicas relativamente favoráveis em diferentes cenários externos. Dito isso, a crescente importância dos riscos domésticos exige maior seletividade e acompanhamento atento dos desenvolvimentos fiscais e dos sinais de política", afirmam os analistas da casa.

EUA perdem força como porto seguro

O relatório também traça um panorama das principais economias globais, destacando mudanças relevantes no cenário internacional. Nos Estados Unidos, a expectativa é de crescimento sustentado por fatores como investimentos em inteligência artificial, desregulamentação e política fiscal expansionista.

Ainda assim, há uma mudança importante na percepção dos ativos americanos. Os títulos do Tesouro e o dólar vêm perdendo o status tradicional de "porto seguro", com expectativa de desvalorização da moeda nos próximos trimestres.

Na China, a influência global segue em expansão, segundo o documento, especialmente na indústria de manufatura, embora o consumo doméstico continue fraco. As tensões entre China e Taiwan também são monitoradas pelos investidores, mas eles não citam uma expectativa de escalada relevante no curto prazo.

Na Europa, o cenário é visto como relativamente estável, enquanto o Irã aparece como um dos principais focos de incerteza global, devido às tensões com os EUA e seus impactos sobre os preços de energia.

Além do Brasil, outros países da América Latina são citados, mas com o desempenho mais heterogêneo. No México, apesar de fundamentos considerados sólidos, a economia dá sinais de desaceleração, e o banco central indica uma postura cautelosa, com viés de queda de juros nos próximos meses.

No Chile, a autoridade monetária demonstra preocupação com os impactos de choques geopolíticos sobre a inflação e mantém uma postura dependente de dados, sem descartar alta de juros caso necessário. Já na Colômbia, o cenário é descrito como mais desafiador. Embora a alta do petróleo beneficie as contas públicas, ela pressiona a inflação, levando o banco central a adotar um tom mais duro, com possibilidade de novas elevações de juros.

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