Brasil tem 2 vantagens para lidar com choques da Guerra do Irã, diz Galípolo
Na crise global gerada pela Guerra do Irã, o Brasil tem duas vantagens principais para sofrer menos do que outros países, avalia Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central.
"O Brasil hoje se beneficia de duas coisas. Primeiro, ser um exportador líquido de petróleo, ainda que a gente precise considerar a necessidade de importação de derivados e o spread impacte os preços do barril e dos derivados. A gente pode estar tendo de importar, mas o fato de sermos um exportador líquido de petróleo nos coloca numa situação mais favorável do que se não fôssemos", disse Galípolo, no evento J. Safra Macro Day, realizado em São Paulo.
"Há também o diferencial de juros. Comparativamente a outros bancos centrais que estão mais próximos de uma taxa de juros neutra, isso também nos coloca em uma posição mais favorável quando comparado com os pares", disse.
Inflação para cima, crescimento para baixo
Na conversa, Galípolo também defendeu a atuação do BC, que optou por iniciar o corte da taxa de juros de 15% para 14,75% ao ano, em 18 de março.
"Essa gordura que foi acumulada com uma posição mais conservadora ao longo das últimas reuniões de Copom permitiu que, mesmo diante de novos fatos, das incertezas que se têm sobre os efeitos de um choque de oferta com o petróleo, decidíssemos seguir com a nossa trajetória e iniciar o ciclo de calibragem da política monetária", afirmou.
"Se você olhar historicamente, sempre quando o preço do petróleo sobe, o impacto é positivo no PIB, mas essa me parece uma elevação do preço do petróleo de natureza bastante distinta do passado. Não decorre de uma elevação na demanda, e sim de um choque de oferta. Então, a gente no Banco Central também tem uma visão de que provavelmente é inflação para cima e crescimento para baixo", disse.
Assim, Galípolo disse que o BC pretende seguir analisando o cenário com cautela antes de definir os próximos passos. "A gente tem preferido incorporar gradativamente e ganhar tempo para poder aprender com cada um desses eventos e entender qual é o impacto. Até agora isso se pagou", afirmou.
Riscos internacionais
No evento, Galípolo disse ver várias preocupações no cenário nacional e internacional. Além da questão fiscal no Brasil, o presidente do BC falou sobre o endividamento dos países ricos.
"Desde a Covid, houve um processo de gasto adicional, de impulso fiscal, que elevou o endividamento dos países avançados e botou mais pressão na rolagem de emissão por parte dos países avançados, que gastaram mais do que os países emergentes e do que os países de baixa renda", afirmou.
'Porém, se os países avançados têm o seu custo de rolagem de dívida e financiamento elevado, isso acaba impactando o custo de dívida e e de financiamento também dos países emergentes e dos países de baixa renda", prosseguiu.
Outra preocupação citada por Galípolo é o risco de uma bolha em empresas que estão muito valorizadas, especialmente na área de tecnologia.
"Quando a gente olha para o nível de financiamento dessas empresas de AI, elas são bem diferentes do padrão de financiamento das empresas ponto com, por exemplo, elas estão menos avançadas, depende mais de equity. Mas ainda assim são empresas que ou é um um ramo de atividade que depende muito de energia. O curso de energia é uma coisa muito relevante", afirmou.
Galípolo afirmou que há risco dessas crises de dívida se juntarem aos efeitos das crises geopolíticas, como a da guerra no Irã, o que poderia piorar o cenário.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: