Brasil tem primeiro porco clonado da América Latina - e o objetivo é doar seus órgãos
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram no fim de março o nascimento do primeiro porco clonado no Brasil e na América Latina. O feito, alcançado após quase seis anos de tentativas, ocorreu em laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, em Piracicaba (SP).
O resultado marca um avanço no projeto que busca desenvolver suínos geneticamente modificados para fornecer órgãos a transplantes em humanos sem risco de rejeição. A iniciativa é conduzida pelo Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR), criado em 2022 com apoio da FAPESP.
Desafio científico
Segundo o pesquisador Ernesto Goulart, do Instituto de Biociências da USP, a clonagem de suínos é considerada uma das etapas mais complexas do processo. Embora o Brasil tenha experiência na clonagem de bovinos e equinos, os porcos apresentam barreiras biológicas ainda pouco compreendidas. O clone nasceu saudável, com 1,7 kg, após gestação de quatro meses.
Modificação genética
Para viabilizar o xenotransplante, os cientistas utilizaram a ferramenta CRISPR/Cas9 para inativar três genes suínos que provocariam rejeição imunológica. Em seguida, inseriram sete genes humanos nas células dos animais, aumentando a compatibilidade com receptores humanos, de acordo com a FAPESP.
Estrutura pioneira
Os porcos clonados serão mantidos em laboratórios de grau clínico inaugurados em 2024 na USP e em 2025 no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). As instalações seguem rígidos padrões de biossegurança para evitar transmissão de patógenos.
Impacto estratégico
O objetivo inicial é produzir órgãos como rim, córnea, coração e pele, que representam 94% da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS). Para Goulart, dominar essa tecnologia é estratégico para o Brasil: “Se o xenotransplante se tornar realidade nos Estados Unidos ou na China e não detivermos essa tecnologia, nosso sistema nacional de transplantes ficaria vulnerável e dependente de importações”.
A meta é que São Paulo se torne referência em xenotransplante na América Latina, beneficiando países vizinhos. Atualmente, estudos clínicos estão em andamento nos EUA e prestes a começar na China. Os resultados devem indicar a viabilidade da técnica e a sobrevida dos órgãos transplantados.
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