Brasil vira laboratório para testar soluções reais de mobilidade sustentável

Por Letícia Ozório 2 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Brasil vira laboratório para testar soluções reais de mobilidade sustentável

"A crise climática não vai ser vencida apenas por 90 ou 100 cidades; é algo que demanda uma ação realmente transversal e integrada." A afirmação de Ilan Cuperstein, diretor regional da C40 Cities, explica por que uma rede global de megacidades decidiu mergulhar fundo na realidade dos municípios brasileiros, explorando as suas condições de mobilidade e transporte público.

Seis meses após a COP30, o cenário de "promessas" deu lugar ao cronograma rigoroso do Programa Mutirão Brasil.

O objetivo é claro: transformar o Brasil na referência mundial de governança multinível. Com 83% da população vivendo em áreas urbanas, o país é o campo de prova ideal para o que Cuperstein chama de "federalismo climático" — a articulação direta entre Brasília e as prefeituras para tirar do papel projetos que, antes, morriam na burocracia.

Embora o Governo Federal disponibilize linhas de crédito via PAC e Ministério das Cidades, o acesso ao dinheiro sempre foi um ciclo vicioso de desigualdade. Cidades com menos estrutura técnica não conseguiam formatar projetos que atendessem às exigências dos bancos.

O Mutirão atua justamente nessa lacuna. "Muitas vezes as cidades não recebem o financiamento porque não têm um projeto de qualidade. A ideia aqui é trabalhar muito perto, principalmente do Governo Federal, para facilitar esse casamento", explica Ilan.

"O nosso papel é acelerar a maturidade para o financiamento. É dar as mãos para que a prefeitura receba o dinheiro já tendo marcado todos os 'checks' necessários", conta.

Metas do programa

O impacto do suporte técnico já pode ser mensurado na área de mobilidade urbana. O programa estruturou projetos prioritários que somam:

Atualmente, 34 municípios e dois estados já foram selecionados e recebem suporte, com a meta de atingir 50 localidades. A diversidade é um pilar: o programa atende desde a gigante São Paulo até cidades de 100 mil habitantes no interior ou na região amazônica.

A capital baiana faz parte do programa e conta com metas ousadas para a sua estratégia de mobilidade. A meta é unir metrô, BRT e bicicleta em um sistema único e de baixa emissão. No âmbito do Mutirão, Salvador avança em duas frentes:

Mobilidade como fator socioambiental

Para a C40, a escolha do transporte como eixo principal é estratégica. Nas médias e grandes cidades, ele é a primeira ou segunda maior fonte de emissão de gases de efeito estufa. Mas há um componente humano crucial.

"Se você foca numa mobilidade urbana com ênfase em limpar o transporte público, você tem um ganho socioeconômico gigantesco", pontua Cuperstein. "No Brasil, quem usa carro geralmente tem renda maior. Ao melhorar o ônibus, você gera qualidade de vida, ganho de tempo e ar limpo para as populações mais vulneráveis".

Além disso, o programa exige uma "ação temática inclusiva", olhando para desigualdades de gênero, raça e renda em cada quilômetro de ciclovia ou nova linha de ônibus projetada.

Próximos passos e prazo

Embora a eletromobilidade seja o carro-chefe, o Mutirão Brasil expande suas fronteiras. Em cidades mais avançadas, o programa implementa o Orçamento Climático — uma ferramenta onde o município atrela gastos às suas metas de sustentabilidade.

Na outra ponta, o setor de resíduos ganha atenção pelo seu impacto social na formalização e geração de renda para catadores. "Estamos tentando garantir que essas agendas sejam coordenadas. Se trabalhamos no resíduo para diminuir a emissão, temos que trabalhar para melhorar a condição de vida de quem trabalha no setor", afirma Ilan.

A meta é que todos os estudos técnicos, capacitações e planos de ação sejam entregues até o meio de 2027. Para Ilan Cuperstein, o sucesso do programa terá um impacto que ultrapassa as fronteiras nacionais, servindo de lição para outros países sobre como integrar diferentes níveis de governo.

"O objetivo político maior é que o Brasil sirva de exemplo para o mundo. Que possamos, através do programa Mutirão, dar um exemplo na prática do que é o federalismo climático e a ação transversal", afirma o diretor da C40. Ele conclui com uma visão clara de onde o programa deve chegar: "Queremos que a referência seja o Brasil. Se alguém quiser um exemplo no mundo do que é uma governança multinível para o clima, olhe para o Brasil e aqui está o exemplo: é o programa Mutirão".

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