Brasil x Haiti: a ilha caribenha que derrubou Napoleão Bonaparte
O Brasil enfrenta nesta sexta-feira, 19, o Haiti pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, na Filadélfia.
O adversário carrega uma história que vai muito além do futebol: o país é primeira república negra independente do mundo.
Nascida de uma revolta de pessoas escravizadas que derrotou as tropas de Napoleão Bonaparte, a nação haitiana influenciou movimentos de independência em todo o continente americano, segundo o historiador Everaldo Andrade, professor da USP e autor do livro "Haiti: dois séculos de história", em entrevista ao G1.
A revolta que enfraqueceu Napoleão
A história começou em agosto de 1791, na colônia francesa de Saint-Domingue, quando pessoas escravizadas se ergueram contra os senhores de engenho. Essa foi a única rebelião de escravizados da história a culminar na fundação de um país independente.
Em menos de dois anos, os revoltosos já haviam forçado a França a abolir a escravidão no território, décadas antes da maior parte do Ocidente fazer o mesmo.
O conflito se tornou uma guerra de independência quando Napoleão tentou reverter a abolição e retomar a colônia, em 1802. A resistência, liderada por Jean-Jacques Dessalines, cercou as últimas tropas francesas em Cap-Français, onde o general Donatien de Rochambeau resistia com cerca de 5.000 homens.
A batalha decisiva ocorreu em 18 de novembro de 1803, no Forte de Vertières. Um episódio lembrado até hoje é o do general François Capois, atingido sob fogo intenso, caiu do cavalo, mas se levantou, ergueu a espada e seguiu adiante gritando para que os soldados avançassem.
Impressionado, o próprio Rochambeau teria ordenado um cessar-fogo temporário para saudar sua bravura. Capois passou a ser chamado de "Capois-la-Mort" a partir daquele dia.
Derrotado, Rochambeau negociou a rendição no dia seguinte, selando a Revolução Haitiana. Em 1º de janeiro de 1804, menos de dois meses depois, o Haiti declarou independência, tornando-se a segunda nação independente das Américas, depois dos Estados Unidos. Dessalines se tornou o primeiro chefe de Estado.
A derrota francesa teve consequências que ultrapassaram o continente.
Segundo Andrade, ela enfraqueceu os planos de Napoleão para a região e contribuiu para a venda da Louisiana aos Estados Unidos, em 1803. "Com essa derrota, Napoleão ficou sem condição de controlar a região e decidiu vender", afirmou ao G1. "Quase metade do que são os Estados Unidos hoje foi ganho nessa compra."
O território vendido era muito maior do que o atual estado da Louisiana, estendendo-se do Golfo do México até regiões próximas à fronteira com o Canadá.
O apoio a Bolívar e a primeira nação verdadeiramente livre
A independência haitiana também deixou marcas na América do Sul. O Haiti apoiou militar e politicamente Simón Bolívar, o militar nascido em Caracas responsável pelas campanhas de independência de Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia.
O então presidente haitiano Alexandre Pétion forneceu apoio decisivo ao líder venezuelano. "Ele apoiou não só politicamente, mas com armas, com navio, com o que fosse possível", diz Andrade. Esse apoio teve um efeito além do militar, ele influenciou a posição de Bolívar abolicionista da escravidão.
Para o historiador, o significado do Haiti transcende sua fronteira. "O Haiti foi um primeiro país a defender o direito dos africanos, o movimento da africanidade e a negritude", afirma. "O movimento da negritude nasceu no Haiti, como resistência contra a discriminação aos negros e a ideia de que os negros são uma raça inferior." Para Andrade, o país ocupou posição única no século XIX: "Foi o primeiro país verdadeiramente livre das Américas, não foram os EUA, foi o Haiti que proclamou a independência e a libertação de todos os seus cidadãos, todos."
Uma memória ainda viva e proibida pela Fifa
A força simbólica da revolução segue presente até hoje e quase entrou em campo nesta Copa.
A Fifa proibiu, dias antes da estreia, o uniforme original que o Haiti usaria na competição, por causa de uma ilustração discreta perto do quadril direito da camisa. Silhuetas de combatentes erguendo a bandeira do país, referência direta à Batalha de Vertières.
A entidade concluiu que a imagem poderia ser lida como declaração política e pediu a remoção, mesmo após a seleção já ter usado a camisa original em dois amistosos preparatórios. A fabricante, a colombiana Saeta, afirmou que o desenho nunca teve intenção política, e a Federação Haitiana de Futebol classificou a decisão como "uma má interpretação", mas a camisa foi alterada sem confronto aberto com a Fifa.
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