Brasil x Haiti: a missão com general Heleno e Tarcísio que marcou a história do país

Por Paloma Lazzaro 17 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Brasil x Haiti: a missão com general Heleno e Tarcísio que marcou a história do país

Brasil e Haiti se enfrentam na Copa do Mundo de 2026 nesta sexta-feira, 19, no Estádio de Filadélfia, nos Estados Unidos. Apesar da relação antagônica no campo, o encontro acontece em um momento simbólico para o Haiti, que retorna ao Mundial depois de 52 anos e enfrenta um país que teve papel importante em sua sociedade desde 2004.

Entre os principais capítulos dessa história compartilhada está a liderança brasileira na missão de paz da ONU no Haiti, que teve o envolvimento de dois militares brasileiros que posteriormente ganhariam projeção nacional.

O general Augusto Heleno Ribeiro foi o primeiro comandante militar da Missão de Estabilização no Haiti, a Minustah, cargo que exerceu entre maio de 2004 e setembro de 2005, durante a fase inicial da operação no Haiti. À frente da Força de Paz da ONU, Heleno comandou as ações de segurança e estabilização no período mais crítico da crise política haitiana.

O nome de Heleno voltou aos holofotes em 2025, durante o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado em 2022. O general é ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo Bolsonaro e foi condenado a 21 anos de prisão pela trama golpista.

Outro militar brasileiro que participou da missão foi Tarcísio Gomes de Freitas, atual governador de São Paulo.

Na época, capitão do Exército e engenheiro militar, Tarcísio atuou entre novembro de 2005 e junho de 2006 como chefe da seção técnica da Companhia de Engenharia da Minustah, responsável por atividades de infraestrutura e apoio técnico durante a operação.

Brasil liderou missão da ONU durante período de crise no Haiti

Em 2004, o Haiti vivia crise política grave após rebelião que derrubou o presidente Jean-Bertrand Aristide, deixando o país à beira de uma guerra civil. A pedido da ONU, o Brasil assumiu o comando da Minustah e liderou a operação pelos 13 anos seguintes.

A iniciativa tinha como objetivos apoiar a segurança, a transição política e a reconstrução institucional. Até 2017, ininterruptamente, o país caribenho foi ocupado por tropas com generais brasileiros no comando da força militar.

Ao todo, 36.407 militares brasileiros passaram pelo Haiti nesse período, segundo o Ministério da Defesa. O custo total ao governo brasileiro foi de R$ 2,5 bilhões, com cerca de R$ 930 milhões ressarcidos pela ONU, de acordo com a Agência Brasil.

Durante a missão, um desastre natural aprofundou a crise na ilha e fez as tropas voltarem sua atenção à ajuda humanitária. Em janeiro de 2010, um terremoto no Haiti matou mais de 100 mil pessoas, feriu 300 mil e deixou 1,5 milhão sem teto, segundo dados do governo brasileiro. A atuação brasileira passou a incluir apoio em ações de reconstrução e de assistência.

No entanto, a Minustah não foi isenta de polêmica. A Rede Jubileu Sul, que reúne entidades como a Pastoral Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, avaliou que a operação não alcançou plenamente o objetivo de fortalecer as instituições haitianas e denunciou episódios de violações de direitos humanos envolvendo integrantes da força internacional. Entre as principais críticas estavam relatos de abusos cometidos por militares da missão contra mulheres haitianas.

Houve também denúncias relacionadas à introdução da cólera no país após a chegada de tropas estrangeiras, uma epidemia que provocou cerca de 300 novos casos por semana, segundo a rede de entidades.

Durante sua passagem pelo país, o general Augusto Heleno também esteve no centro de debates sobre a atuação das tropas internacionais. Em 2005, após denúncias de organizações de direitos humanos sobre uma operação no bairro Cité Soleil, em Porto Príncipe, Heleno defendeu a atuação dos militares brasileiros.

Ele afirmou que a ação contra gangues locais teve “poucos efeitos colaterais” e que as acusações de execuções teriam surgido como retaliação de grupos criminosos contra moradores que colaboraram com as forças de paz.

O fim da missão da ONU

A missão foi encerrada em 2017. Na avaliação do governo brasileiro, a operação contribuiu para a estabilização política, a realização de eleições e o fortalecimento das instituições haitianas. "Nós chegamos a um país em uma situação caótica, e isso foi restabelecido", disse o almirante Ademir Sobrinho, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, à Agência Brasil na época.

Com o fim da Minustah, a ONU criou a Missão de Apoio à Justiça no Haiti (Minujusth), de menor porte, focada no fortalecimento das instituições públicas e do Estado de Direito.

O fim da operação militar, porém, não significou o fim da relação institucional entre os países. Brasil e Haiti mantêm projetos de cooperação em áreas como saúde, educação e desenvolvimento. Entre as iniciativas estão a construção de hospitais e a criação de centros de formação profissional na ilha.

Após o terremoto de 2010, o Haiti tornou-se uma das maiores carteiras de projetos da Agência Brasileira de Cooperação (ABC). O Brasil financiou a construção de três hospitais e, em 2024, inaugurou o Centro de Formação Profissional "Paulo Freire" na cidade de Les Cayes. O comércio bilateral totalizou US$ 80,8 milhões em 2024, com exportações brasileiras ao Haiti crescendo 16% em relação ao ano anterior, segundo o Itamaraty.

Migração haitiana ao Brasil

No contexto da crise política e humanitária no Haiti, em 2012, o governo brasileiro adotou uma política migratória humanitária especial para haitianos. A medida levou à emissão de mais de 90 mil vistos humanitários, segundo o Ministério das Relações Exteriores.

Desde então, a comunidade haitiana no Brasil cresceu expressivamente. Registros da Polícia Federal compilados pelo Observatório de Migração da Unicamp (Nepo) mostram que havia 199,7 mil haitianos vivendo no Brasil em 2025.

O pico migratório ocorreu em 2016, com 42,4 mil chegadas. No último ano registrado, 2025, foram 12,1 mil novos haitianos registrados no país. São Paulo concentra a maior parte dessa comunidade, com 55 mil pessoas, seguido por Santa Catarina (46 mil), Paraná (35 mil) e Rio Grande do Sul (26 mil).

Até hoje, o Haiti é responsável por um dos maiores influxos migratórios para o Brasil no século XXI, atrás apenas da Venezuela (774 mil pessoas) e da Bolívia (208 mil).

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