Brasileira Bionexo compra plataforma da Philips por R$ 940 milhões para dominar dados de saúde
Marcar uma consulta, repetir o histórico médico para o terceiro especialista no mesmo mês, esperar a autorização do convênio, refazer um exame que já foi feito há 30 dias em outro hospital.
A rotina de qualquer paciente brasileiro tem um inimigo invisível: a saúde não conversa com a saúde. Cada hospital tem seu sistema, cada clínica tem seu prontuário, cada operadora tem suas regras. E no meio disso, o paciente espera.
Quem decidiu apostar 940 milhões de reais para tentar resolver esse problema é a Bionexo, empresa brasileira de tecnologia em saúde fundada há 25 anos pelo empresário Maurício Barbosa. A companhia acaba de concluir a compra do Tasy, software de gestão hospitalar e prontuário eletrônico que pertencia à Philips e é usado por mais de 2.000 instituições de saúde na América Latina.
A operação foi aprovada pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e o contrato foi assinado na última sexta-feira.
Daqui em diante, as duas empresas viram uma só: a Bionexo Tasy.
A nova companhia passa a reunir 11.000 clientes, 1,2 milhão de usuários ativos e movimenta 45 bilhões de reais por ano em transações dentro do setor de saúde. A presença geográfica salta de cinco para sete países — Brasil, México, Argentina, Colômbia, República Dominicana, Bolívia e Equador.
"Não é todo dia que duas histórias de mais de 25 anos na saúde se unem com esse nível de complementaridade", afirma Solange Plebani, CEO da Bionexo. "Quando dados e processos clínicos, operacionais e financeiros conversam de forma nativa, a gente devolve tempo para quem cuida e ajuda o setor a tomar decisões melhores, com impacto direto na qualidade do atendimento ao paciente."
O próximo passo é o mais difícil: fazer dois mundos que sempre operaram separados começarem a conversar.
De um lado, a Bionexo, que nasceu conectando hospitais a fornecedores de medicamentos e materiais. De outro, o Tasy, que cuida da parte clínica — o prontuário do paciente, o que o médico prescreveu, o que a enfermagem registrou. Junto, o plano é criar uma plataforma única que vá do estoque do hospital até o leito do paciente, sem as paredes invisíveis que hoje separam essas informações.
Por que a saúde brasileira é um quebra-cabeça
Para entender por que essa compra interessa a quem nunca ouviu falar de Bionexo ou Tasy, é preciso entender um problema que afeta todo brasileiro que já passou por um hospital: a saúde funciona como um quebra-cabeça com peças que não se encaixam.
Existem milhares de hospitais, dezenas de operadoras de planos, milhares de clínicas, laboratórios, consultórios. Cada um com seu sistema próprio. Quando um paciente faz uma tomografia em um hospital e depois precisa ser atendido em outro, a imagem nem sempre vai junto. Quando muda de plano de saúde, o histórico fica para trás. Quando o médico do consultório pede um exame que já foi feito no pronto-socorro semana passada, o sistema simplesmente não sabe.
"É uma área com custos muito altos, mas muito ineficientes ainda", diz Solange. "É uma fragmentação da jornada desses pacientes, da integração da informação clínica. Essa fragmentação gera no setor uma desconfiança mútua entre os atores."
A conta dessa desorganização é alta — e quem paga é o sistema todo.
Há um termo no setor chamado glosa: é quando o convênio recebe a fatura do hospital e se recusa a pagar parte do valor, alegando que algum procedimento não foi autorizado, que o medicamento não estava no acordo, que o paciente estava em carência. Essa briga consome meses de negociação e pressiona o caixa de hospitais e clínicas. Parte do dinheiro nunca chega. A outra parte chega 120 dias depois.
A aposta dos 131 milhões de euros
A Bionexo não é uma estreante em compras. Antes do Tasy, a empresa já tinha feito 11 aquisições, sempre tentando cobrir mais pedaços da jornada do paciente. Comprou empresas que verificam se a receita médica está correta antes do atendimento, para evitar a glosa lá na frente. Comprou empresas que negociam com os convênios quando a glosa acontece mesmo assim.
O Tasy é a peça maior do quebra-cabeça.
O software foi desenvolvido em Santa Catarina, comprado pela Philips anos atrás e colocado à venda no ano passado. A Bionexo venceu o processo competitivo e fechou a compra em dezembro de 2025. O closing — momento em que o dinheiro muda de mãos e o ativo é transferido — aconteceu em abril.
Com a transação, a Bionexo herda 800 funcionários do Tasy, a maioria concentrada em Blumenau, em Santa Catarina, considerada um dos maiores polos de tecnologia do país.
Por trás da compra, há uma disputa que está moldando o setor de saúde no mundo todo: quem tiver mais dados vai liderar a próxima geração de inteligência artificial aplicada à medicina. E dados é exatamente o que a nova Bionexo Tasy passa a ter em quantidade industrial.
A Bionexo vinha acumulando há 25 anos os dados de compra e venda de medicamentos e materiais entre hospitais e fornecedores. O Tasy, por sua vez, guarda o histórico clínico de 2.000 instituições, algumas com mais de 20 anos de informação acumulada. Juntos, viram um dos maiores repositórios de dados de saúde da América Latina.
"Estamos num momento de transformação de IA. Qual é o alimento da IA? Informação", diz Solange. "Somos um grande repositório de dados do setor de saúde. Temos um datalake gigante de 25 anos, e a IA precisa disso para existir."
Na prática, isso pode significar sistemas que preveem a demanda de medicamentos antes da falta, que automatizam tarefas administrativas que hoje consomem horas de médicos e enfermeiros, que apoiam o diagnóstico cruzando informações de milhões de atendimentos.
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