BTG vê segunda onda de carros chineses, mas mantém 'compra' para Localiza
A nova ofensiva das montadoras chinesas no Brasil voltou ao radar dos investidores, mas, ao contrário da primeira, essa segunda fase tende a ser mais previsível e menos disruptiva — reduzindo o risco de revisões negativas para as estimativas de lucro, especialmente no caso da Localiza (RENT3), de acordo com o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).
Em relatório divulgado nesta quinta-feira, 23, o banco reiterou recomendação de compra para a companhia e manteve preço-alvo de R$ 65 para a ação, o que implica potencial de valorização de cerca de 29% em relação ao fechamento de R$ 50,50 na véspera, 22.
Para o BTG, a “segunda onda” — esperada entre 2025 e 2027 — deve avançar de forma mais gradual e com dinâmica já assimilada pelo mercado, o que tende a suavizar os impactos sobre os resultados da locadora em comparação à fase inicial, observada entre 2023 e 2024.
Depreciação segue no centro da tese
O principal ponto de atenção continua sendo a depreciação da frota, fator determinante para as revisões negativas de lucro nos últimos anos. O relatório destaca que a Localiza passou por três ciclos consecutivos deimpairment (redução do valor contábil de ativos) entre 2023 e 2025, refletindo ajustes nas premissas de valor residual dos veículos.
De acordo com o BTG Pactual, o avanço das montadoras chinesas afeta essa dinâmica por diferentes canais. No mercado primário, a maior competição pressiona os preços dos veículos novos, influenciando o custo de reposição da frota. Já no mercado secundário, há efeitos sobre a liquidez e os valores residuais dos usados, aumentando a volatilidade desses ativos. Além disso, a incorporação de novos modelos, especialmente de origem chinesa, altera o mix da frota, o que também contribui para mudanças no perfil de depreciação da companhia.
Na primeira onda, esses efeitos ocorreram simultaneamente e de forma abrupta. Agora, a avaliação é que o mercado já assimilou parte relevante desse choque inicial.
Isso se traduz em uma curva de aprendizado ao longo da cadeia. Montadoras, locadoras e revendedores passaram a entender melhor o comportamento de preços e liquidez desses veículos, adotando premissas mais conservadoras. A própria Localiza ajustou sua estratégia, incorporando modelos chineses principalmente em contratos corporativos, aluguel mensal e assinatura, com maior cautela nas taxas de depreciação.
O acordo para a compra de 10 mil veículos da BYD, anunciado neste ano, é citado como evidência de maior adaptação entre fabricantes e o mercado de locação.
Na avaliação do banco, a segunda etapa da ofensiva chinesa deve ser marcada mais pela expansão de portfólios já existentes e pela entrada de novas marcas — como Jaecoo, Seres, Neta, GAC e MG — com propostas semelhantes às de pioneiras como BYD e GWM.
Esse movimento tende a ser absorvido de forma mais racional pelos agentes do mercado, com menor risco de revisões abruptas nas projeções. Parte relevante dos impactos iniciais já estaria refletida nos preços e nas estimativas atuais.
Um dos pontos destacados no relatório é que, desde o início de 2023, os preços de veículos chineses 0 km caíram cerca de 20% na primeira fase e depois voltaram a subir levemente, enquanto os não chineses avançaram aproximadamente 10% e depois desaceleraram. Para o BTG, a diferença entre essas trajetórias não indica um desequilíbrio estrutural, sugerindo que o choque inicial tende a ser diluído ao longo do tempo.
Participação chinesa cresce, mas ainda é limitada
Dados compilados pela Fenabrave indicam que as principais montadoras chinesas já respondem por cerca de 13% das vendas de veículos novos no Brasil em 2026. A BYD tem participação superior a 6% e a GWM cerca de 2,5%.
Apesar do crescimento, o relatório ressalta que as montadoras tradicionais — como Volkswagen, Stellantis, GM, entre outras — ainda dominam o mercado, com demanda concentrada em veículos abaixo de R$ 200 mil.
No mercado de usados, a presença chinesa segue incipiente, o que limita o impacto imediato sobre o balanço da locadora e mantém a liquidez desses modelos como variável relevante a ser monitorada. Veículos dessas marcas representam menos de 1% dos anúncios em plataformas como a Webmotors. Na operação de seminovos da própria Localiza, apenas 0,12% das vendas envolvem esses veículos desde setembro de 2025.
Mesmo com uma leitura mais construtiva, o BTG aponta riscos relevantes. O principal é a possibilidade de uma guerra de preços prolongada, impulsionada por fabricantes com forte acesso a capital e foco em ganho de participação de mercado em detrimento da rentabilidade.
Outro fator de atenção é o desenvolvimento ainda lento do mercado de usados desses veículos, o que pode afetar liquidez, alongar prazos de revenda e pressionar a depreciação.
O banco também destaca o descompasso entre o crescimento da frota eletrificada e a infraestrutura de recarga. Entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2026, a frota de elétricos e híbridos saltou de cerca de 83 mil para mais de 670 mil unidades, enquanto os pontos de recarga cresceram de cerca de 1,2 mil para pouco mais de 21 mil, ainda concentrados em grandes centros.
Valuation segue atrativo na visão do banco
Apesar das incertezas, o BTG mantém visão positiva para a Localiza. Em cenário, criado pelos analistas, em que a segunda onda provoque queda de 3% nos preços da frota da companhia acima de R$ 120 mil, o impacto adicional na depreciação seria de cerca de R$ 333 milhões em 2026 — praticamente compensado por um “colchão” estimado em R$ 214 milhões, acumulado no negócio de seminovos desde o terceiro trimestre de 2025.
O banco projeta receita de R$ 48,6 bilhões em 2026 e R$ 52,4 bilhões em 2027. O EBITDA deve avançar de R$ 13,8 bilhões em 2025 para R$ 15,5 bilhões em 2026 e R$ 17 bilhões em 2027, enquanto o lucro líquido pode subir de R$ 2,8 bilhões para R$ 4,3 bilhões e R$ 5 bilhões no mesmo período.
Nesse contexto, a ação negocia a cerca de 12,8 vezes o lucro estimado para 2026 e 11,1 vezes para 2027, níveis considerados atrativos pelo banco.
Na avaliação dos analistas, a entrada das montadoras chinesas tende a consolidar um ambiente mais competitivo, mas sem alterar os fundamentos do modelo de negócios da Localiza. A combinação de melhora operacional, normalização da depreciação e possível expansão de múltiplos pode destravar valor ao longo dos próximos anos.
O BTG Pactual destaca ainda que, após um período marcado por depreciação e despesas financeiras elevadas, é pouco provável que ambas as pressões permaneçam simultaneamente em níveis tão altos por muito tempo. Ao mesmo tempo, o avanço das montadoras chinesas — ao reduzir o custo de reposição dos veículos e ampliar o acesso a carros — pode, paradoxalmente, favorecer o crescimento estrutural do mercado de locação no país.
Para o investidor, a leitura é que o impacto dos carros chineses deixou de ser um choque difícil de mensurar e passou a representar um risco mais conhecido — e, em grande parte, já incorporado aos preços. Nesse contexto, a “segunda onda” tende a ser menos sobre ruptura e mais sobre adaptação da Localiza e de toda a cadeia automotiva a um novo ambiente competitivo.
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