Busca por minerais críticos causa crise ambiental e de saúde, diz ONU
A transição digital e a mudança para matrizes de energia limpa estão gerando uma crise ambiental e de saúde oculta que o mundo falha em monitorar ou enfrentar. O alerta vem de uma investigação profunda do Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH).
O relatório Critical Minerals, Water Insecurity and Injustice revela que os custos da extração de minerais críticos recaem desproporcionalmente sobre as comunidades mais pobres, enquanto os benefícios se acumulam no Norte Global na forma de veículos elétricos (EVs), sistemas de energia renovável e infraestrutura de Inteligência Artificial (IA).
"Não se pode chamar uma transição de verde, sustentável e justa se ela simplesmente desloca o dano ambiental dos ricos para os pobres, e de um grupo de pessoas ou região para outro", afirma Kaveh Madani, diretor do UNU-INWEH e Stockholm Water Prize Laureate de 2026. O estudo não questiona a necessidade das tecnologias limpas, mas denuncia quem está pagando a conta do progresso da humanidade.
Minerais críticos
A mineração de minerais críticos exige volumes de água que competem diretamente com a sobrevivência humana e a agricultura. Em 2024, a produção global de lítio de aproximadamente 240 mil toneladas consumiu 456 bilhões de litros de água. Para efeito de comparação, este volume seria suficiente para suprir as necessidades domésticas anuais de 62 milhões de pessoas na África Subsaariana — quase a população total da Tanzânia.
Os impactos locais são devastadores:
Globalmente, 16% das reservas de minerais críticos estão em regiões de alto estresse hídrico, e 54% dos projetos de mineração estão localizados em territórios indígenas ou próximos a eles.
Impacto na saúde
O impacto na saúde pública é descrito como uma crise severa, especialmente na República Democrática do Congo (RDC), maior produtora de cobalto do mundo. O relatório documenta que 72% dos moradores próximos às minas apresentam doenças de pele e 56% das mulheres e meninas sofrem com problemas ginecológicos.
A contaminação por metais pesados está atingindo a próxima geração: as taxas de má-formação congênita em maternidades próximas às áreas de mineração são elevadas. Foram registrados 10,9 casos de defeitos no tubo neural (que afetam o cérebro e a coluna do bebê) e 8,8 casos de defeitos nos membros inferiores para cada 10.000 nascimentos. O estudo revela ainda que cerca de 30% das minas na RDC empregam crianças, algumas com apenas sete anos de idade, trabalhando sem qualquer equipamento de proteção.
Para cada tonelada de minerais de terras raras produzida, são geradas 2.000 toneladas de resíduos tóxicos. Em 2024, a produção global gerou 707 milhões de toneladas de lixo — o suficiente para formar uma fila de caminhões capaz de dar a volta na Linha do Equador 13 vezes.
A urgência do Acordo de Paris criou o que os cientistas chamam de "paradoxo": cumprir as metas climáticas exigirá um aumento de nove vezes na demanda por lítio e o dobro da demanda por cobalto e níquel até 2040. "Sem mecanismos de controle eficazes, os próprios alvos desenhados para proteger o planeta podem acelerar crises de água, saúde e injustiça", alerta Madani.
Injustiça econômica
A desigualdade econômica é o alicerce desse sistema. Na RDC, mais de 80% da produção mineral é controlada por mineradoras estrangeiras, enquanto 73,5% da população vive com menos de US$ 2,15 por dia. O país detém 50% das reservas de água doce da África, mas 64% de seu povo não tem acesso básico a água potável em 2024.
O relatório do UNU-INWEH pede uma mudança fundamental na governança global, com recomendações claras:
"Se não corrigirmos as falhas de governança, teremos construído a economia de energia limpa do futuro sobre as mesmas injustiças extrativas da economia fóssil do passado", conclui o Dr. Abraham Nunbogu, autor principal do estudo.
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