Cai o aiatolá, não o regime: qual será o futuro do Irã?
O assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, por ataques dos EUA e de Israel, coloca o futuro do Irã em um cenário de incerteza. A principal questão é como e se o regime dos aiatolás continuará no comando do país.
No começo de domingo, o regime continuava no poder. O presidente Masoud Pezeshkian reapareceu e segue no cargo, e a Guarda Revolucionária, comandada pelo aiatolá, permanece com suas ações, como bombardeios a países vizinhos, onde há bases americanas. A Guarda tem poder não apenas militar, mas também controla setores da economia, como a exploração de petróleo.
Na manhã deste domingo, o Irã anunciou que o aiatolá Alireza Arafi assumirá interinamente o cargo de líder supremo, até que o conselho de líderes religiosos que comanda o Irã escolha um líder definitivo.
Após a revolução de 1979, o Irã se tornou uma república islâmica, em que há duas instâncias de poder. Um aiatolá é o líder supremo, que toma as principais decisões e supervisiona o presidente, eleito pelo voto, mas que precisa do aval do aiatolá para concorrer.
Risco de queda do regime
O ataque de EUA e Israel, considerado a maior operação militar conjunta já lançada contra o Irã, chega em um momento de fragilidade interna sem precedentes.
O país enfrenta uma grave crise econômica que alimentou meses de protestos, reprimidos com violência em janeiro e deixando milhares de mortos conforme fontes internacionais.
Em meio aos bombardeios, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendeu que os iranianos aproveitassem a oportunidade para derrubar o regime.
Essa queda ainda é incerta por várias razões. Do lado do governo, havia planos para lidar com a morte do aiatolá, que parecem ter sido executados. Do lado da oposição, não há clareza sobre quem poderia assumir o poder agora.
“Previsões de colapso do regime provavelmente seriam prematuras, especialmente dada a natureza consolidada da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), uma força militar, política e econômica”, diz Danny Citrinowicz, ex-chefe do setor de Irã na central de inteligência de Israel.
"O regime iraniano é o que a literatura chama de 'autoritarismo competitivo', então ele tem planos de sucessão elaborados e o mesmo vale para o interior da Guarda Revolucionária", diz Luiza Cerioli, pesquisadora da Universidade de Kassel, na Alemanha e especialista em Oriente Médio.
Ao mesmo tempo, o novo governo do Irã poderá buscar um modelo menos concentrado. "A questão mais importante é se haverá uma estrutura de poder semelhante ou se poderemos ver um arranjo mais diluído e coletivo, concebido para evitar a concentração de autoridade em uma única figura", diz Citrinowicz.
Risco de ditadura militar
Ao mesmo tempo, uma queda do regime dos aiatolás, que são também autoridades religiosas, traz a possibilidade de que a Guarda Revolucionária assuma o poder e o Irã se torne uma ditadura militar.
"Caso o regime caia, o resultado mais provável não é uma democracia liberal, mas um estado controlado por militares que poderá oferecer um novo líder supremo como uma figura simbólica para os milhões de conservadores iranianos, mas com o poder firmemente investio nas mãos da Guarda Revolucionária", diz Jonathan Panikoff, ex-agente de inteligência dos EUA, em análise para o think tank Atlantic Council.
Para ele, um governo da Guarda poderia seguir dois caminhos: um endurecimento maior do regime frente ao Ocidente ou ser um governo capaz de negociar com os EUA algumas concessões. Em um terceiro cenário, haveria confusão entre os novos governantes sobre como agir, o que traria mais caos e incerteza.
Oposição dividida
Do lado da oposição, a principal questão é falta de uma liderança consolidada.
"Ao contrário de 1979, não há uma oposição unificada e organizada capaz de capitalizar imediatamente sobre a desordem das elites. A insatisfação pública é real e generalizada, mas a fragmentação e a repressão limitam sua tradução política", diz Citrinowicz.
"Uma derrubada popular de regime não acontece por meio de intervenção externa. Os protestos de janeiro tinham um tom bastante nacionalista, de não alinhamento. Havia, sim, uma parcela que chegou a dizer que, se o único jeito fosse com intervenção americana, que fosse. Porém, essa parcela não era majoritária, e mesmo ela sentiu frustração quando os EUA não responderam enquanto as pessoas iam às ruas, morriam e eram presas", afirma Cerioli.
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