Caixa de empresa americana em bitcoin é 103 vezes maior do que em dólares

Por Mariana Maria Silva 27 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Caixa de empresa americana em bitcoin é 103 vezes maior do que em dólares

A Strategy, empresa listada em bolsa que mais investe em bitcoin, utiliza a estratégia de ser uma “Bitcoin Treasury Company” há alguns anos.

No início, a decisão de seu fundador, Michael Saylor, de colocar bitcoin no caixa da empresa surpreendeu. Agora, ela inspira outras empresas de capital aberto, incluindo as brasileiras Méliuz e OranjeBTC.

"A Strategy transformou o Bitcoin em uma estrutura de capital. O racional por trás da estratégia é simples, onde a empresa capta recursos via instrumentos que o mercado tradicional já conhece, como dívida conversível, ações ordinárias e preferenciais, e usa esse capital para aumentar sua exposição a um ativo escasso. Isso acabou tornando a companhia uma via de exposição indireta ao bitcoin para investidores e gestores que não podem se expor ao ativo diretamente", disse Matheus Parizotto, analista-chefe de research da Mynt, plataforma cripto do BTG Pactual.

Primeira compra de bitcoin da Strategy

A primeira compra de bitcoin pela Strategy foi em 10 de agosto de 2020. Logo no início de sua nova estratégia de tesouraria, a empresa já realizou a compra de 21 mil unidades de bitcoin de uma vez. Na época, o investimento foi de US$ 250 milhões e o bitcoin custava US$ 30 mil por unidade.

Hoje, o bitcoin custa cerca de US$ 77 mil, mesmo operando em queda de 40% desde a sua máxima histórica de US$ 126 mil, atingida em agosto de 2025.

Crescimento expressivo do caixa da Strategy em bitcoin

Assim como a primeira criptomoeda do mundo apresentou valorização significativa desde o primeiro investimento da Strategy, o volume dos investimentos da empresa em bitcoin só aumentou.

Michael Saylor, seu fundador, saiu do cargo de CEO em agosto de 2022 para se dedicar exclusivamente à estratégia de tesouraria que colocaria a Strategy como exemplo para outras empresas e pioneira no ramo de “Bitcoin Treasury Companies”, nome em inglês dado para as empresas listadas em bolsa que utilizam o investimento em bitcoin como estratégia de tesouraria.

Atualmente, o caixa de bitcoin da Strategy é 103 vezes maior que a quantia de dólar da empresa norte-americana.

Dados recentes mostram que a Strategy possui 843.738 unidades de bitcoin, nunca tendo realizado a venda da criptomoeda. O valor é o equivalente, na cotação atual, a US$ 63,9 bilhões, ou R$ 322,4 bilhões.

Já em dólares, a Strategy possui US$ 620 milhões, ou R$ 3,1 bilhões. Anteriormente, a empresa tinha cerca de US$ 2 bilhões em caixa, mas utilizou o dinheiro para recomprar títulos conversíveis com vencimento em 2029.

A ação ajudou a liquidar grande parte da dívida abaixo do valor nominal, reduzindo as despesas futuras com juros e a potencial diluição de ações. Apesar disso, a medida também colaborou para a redução substancial do caixa da empresa em dólares, que já era muito menor do que a quantidade de bitcoin detida pela Strategy.

Os benefícios e riscos da estratégia de bitcoin da Strategy

"O benefício dessa estrutura aparece quando o bitcoin se valoriza acima do custo de captação. A companhia começou convertendo caixa próprio, depois aproveitou o ambiente de juros baixos para emitir dívida, usou emissões de ações quando negociava com prêmio sobre o valor dos bitcoins em balanço e, mais recentemente, criou ações preferenciais que pagam dividendos mensais para captar o investidor que busca renda", disse Matheus Parizotto em entrevista à EXAME.

"Na prática, ela transforma diferentes perfis de demanda do mercado tradicional em demanda por bitcoin. É por isso que a tese chamou tanta atenção. Não é apenas comprar bitcoin, mas construir um veículo financeiro inteiro em cima dele", acrescentou.

Por outro lado, o analista-chefe de research da Mynt apontou que o principal risco é que o modelo da Strategy "depende de duas coisas ao mesmo tempo": a valorização do bitcoin e o acesso contínuo ao mercado de capitais.

"Se o bitcoin cair por muito tempo, ou se a ação perder a demanda que permite novas emissões, o custo de rolagem sobe e a pressão sobre dividendos e serviço da dívida aumenta. O lado mitigador é que a empresa vem reforçando a liquidez: criou uma reserva em dólares para sustentar dividendos e juros, e agora recomprou dívidas conversíveis com vencimento em 2029".

"Trata-se de uma estratégia agressiva, com riscos reais, mas que até aqui tem mostrado capacidade de adaptação e acesso a capital suficientes para continuar a estratégia", concluiu o especialista ouvido pela EXAME.

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