Calor extremo pressiona Fifa nos primeiros jogos da Copa do Mundo 2026
Duas partidas da primeira rodada da Copa do Mundo foram disputadas sob nível de calor severo, em condições que a associação internacional de jogadores já havia defendido como limite para adiar ou suspender jogos.
Os confrontos entre Arábia Saudita e Uruguai, em Miami, e Suécia e Tunísia, em Monterrey, ocorreram sob temperaturas de bulbo úmido de 28°C ou mais. O indicador combina temperatura do ar, umidade e cobertura de nuvens para medir o estresse térmico e a capacidade do corpo humano de se resfriar pela evaporação do suor.
A Fifpro, sindicato global de jogadores, já havia afirmado que partidas disputadas nesse patamar deveriam ser adiadas ou suspensas. Procurada pelo The Guardian, a entidade não comentou a situação do calor na Copa.
A análise considerou os 24 primeiros jogos do torneio, o equivalente à estreia de cada seleção. Entre os estádios sem ar-condicionado, o jogo entre Arábia Saudita e Uruguai teve as condições mais severas de calor. Em seguida veio Suécia e Tunísia, em Monterrey. Ambos ocorreram à noite.
Calor extremo na Copa do Mundo
Ao todo, seis partidas foram realizadas em cidades onde a temperatura de bulbo úmido chegou a 28°C ou mais. Além dos jogos em Miami e Monterrey, entram na lista Alemanha x Curaçao e Portugal x República Democrática do Congo, em Houston, e Holanda x Japão e Inglaterra x Croácia, em Dallas.
Nos casos de Houston e Dallas, os estádios contam com ar-condicionado, o que reduziu a exposição dentro das arenas.
Na quarta-feira, a Inglaterra enfrentou a Croácia em Dallas sob a maior temperatura de bulbo úmido registrada até então, próxima de 35°C. Dentro do estádio, porém, o ar-condicionado levou a temperatura a cerca de 22°C.
Diante da previsão de uma Copa disputada sob o verão da América do Norte, a Fifa moveu alguns horários de jogos para mais tarde e adotou pausas obrigatórias para hidratação. As diretrizes atuais da entidade preveem cooling breaks, pausas para resfriamento, em partidas realizadas sob calor de 32°C ou mais, embora esses intervalos tenham ocorrido em temperaturas menores neste Mundial. O adiamento ou a suspensão de jogos fica a critério dos organizadores.
Carta alertava sobre calor extremo
Na véspera da Copa, especialistas em calor e saúde pública enviaram uma carta aberta à Fifa pedindo proteções mais amplas. O documento citava a defesa da Fifpro de que partidas poderiam ser interrompidas em temperaturas de bulbo úmido a partir de 28°C.
“Temperaturas são frequentemente medidas em áreas sombreadas e, se os jogadores estão sob sol direto, isso pode ser mais de dez graus acima das leituras de temperatura”, disse Robbie Parks, epidemiologista ambiental da Universidade Columbia e signatários da carta, em entrevista ao The Guardian. “Ficar em pé no sol pode ser perigoso mesmo em temperaturas mais baixas, mesmo acima de 23°C ou 25°C me deixaria preocupado com idosos expostos por mais do que alguns minutos.”
Parks afirmou que ar-condicionado, jogos mais tarde e pausas para água ajudam os atletas, mas defendeu medidas adicionais para torcedores e trabalhadores. “Sombra é superimportante e hidratação é superimportante”, disse. “É preciso permitir que as pessoas levem sua própria água e pensar em nebulizadores para resfriamento evaporativo.”
Segundo o The Guardian, temperaturas recordes em algumas cidades fizeram torcedores sofrerem sob calor sem sombra. Trabalhadores dos estádios, que muitas vezes atuam por longos períodos antes das partidas e com equipamentos pesados, também enfrentam condições potencialmente perigosas.
O que diz a Fifa
Em nota ao jornal, a Fifa disse estar “comprometida em proteger a saúde e a segurança de todos os jogadores, árbitros, torcedores, voluntários e funcionários”. A entidade afirmou ter meteorologistas nos locais das partidas e disse que o planejamento inclui coordenação com cidades-sede, autoridades dos estádios e agências nacionais.
A Fifa também informou ter adotado um modelo de mitigação por níveis para temperaturas extremas. Para os jogadores, além das pausas obrigatórias, há acesso a água, bebidas com eletrólitos, gelo, toalhas frias, ventiladores, nebulização e sombra. Para o público, a entidade afirmou que os estádios podem ativar áreas sombreadas, sistemas de nebulização, ônibus de resfriamento e distribuição ampliada de água.
O torneio ocorre em meio a uma discussão mais ampla sobre calor extremo e crise climática. Segundo estimativas da Greenly, plataforma global de contabilidade de carbono, a realização de mais de 100 partidas deve gerar 7,8 milhões de toneladas de gases de efeito estufa, o dobro da Copa anterior, no Catar.
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