Canetas emagrecedoras miram América Latina após 'boom' nos EUA

Por Clara Assunção 6 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Canetas emagrecedoras miram América Latina após 'boom' nos EUA

A América Latina desponta como a próxima fronteira de crescimento dos medicamentos à base de GLP-1, conhecidos como "canetas emagrecedoras", após a forte expansão nos Estados Unidos e na Europa, de acordo com o BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME).

Em relatório assinado pelos analistas Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon, o banco afirma que a região reúne uma combinação considerada favorável para a próxima etapa de crescimento dessas terapias que vai desde altas taxas de obesidade, até a baixa penetração dos tratamentos e um mercado ainda em estágio inicial de acesso.

"O debate principal não é mais se as terapias com GLP-1 irão remodelar os padrões de saúde e de consumo, mas sim com que rapidez esses efeitos se tornarão suficientemente visíveis para influenciar as trajetórias de crescimento do setor", afirmam os analistas.

A avaliação ocorre em um momento em que o mercado global de agonistas do receptor GLP-1 passa por uma mudança de escala. O segmento, que inicialmente ganhou destaque pelo tratamento do diabetes e, posteriormente, pela eficácia na perda de peso, vem se consolidando como uma das principais categorias da indústria farmacêutica mundial.

Para os analistas, o crescimento é sustentado por quatro fatores principais: o aumento da prevalência da obesidade, a ampliação da cobertura por sistemas de saúde e seguradoras, a expansão das indicações regulatórias e a crescente confiança dos médicos nos resultados de longo prazo dos tratamentos.

"O que inicialmente era visto como uma terapia especializada de nicho está se tornando rapidamente uma categoria mainstream de cuidados crônicos", destacam.

A expansão também tem sido favorecida pela redução dos gargalos de oferta que marcaram os anos de 2023 e 2024. Após investimentos bilionários em capacidade produtiva por farmacêuticas como a Novo Nordisk e a Eli Lilly, a disponibilidade dos medicamentos aumentou significativamente nos principais mercados.

Versão oral acelera adoção

O relatório aponta que uma das mudanças mais relevantes recentes foi o avanço das formulações orais, especialmente da semaglutida em alta dosagem para obesidade lançada pela Novo Nordisk. Na avaliação do banco, a novidade ajuda a superar a resistência de parte dos pacientes aos medicamentos injetáveis, uma das maiores barreiras à adoção dos tratamentos.

Com base em dados da empresa global de tecnologia e ciência de dados IQVIA, O BTG aponta que, no início do ano, os medicamentos GLP-1 já representavam cerca de 8% de todas as prescrições em grandes redes de saúde dos Estados Unidos, ante menos de 1% cinco anos antes.

Além disso, as prescrições de semaglutida para obesidade cresceram mais de 50% de forma sequencial no primeiro trimestre de 2026, tornando as versões orais um dos principais motores da expansão do mercado.

Enquanto isso, a tirzepatida, da Eli Lilly — comercializada sob as marcas Mounjaro e Zepbound — continua sendo o produto injetável com crescimento mais acelerado e ganhando participação de mercado impulsionada pelos resultados clínicos considerados superiores.

Muito além da perda de peso

Outro ponto destacado pelo relatório é que a tese de crescimento das chamadas canetas emagrecedoras deixou de estar restrita ao combate à obesidade e ao diabetes. Nos últimos anos, estudos clínicos passaram a demonstrar benefícios em uma série de condições associadas, incluindo doenças cardiovasculares, apneia do sono, doença renal crônica e esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH).

Entre os exemplos citados está o estudo SELECT, da Novo Nordisk, que mostrou uma redução de 20% nos eventos cardiovasculares adversos graves em pacientes com sobrepeso e obesidade sem diabetes.

Essas evidências, dizem os analistas, vêm alterando a forma como governos, seguradoras e sistemas de saúde avaliam os medicamentos. Em vez de serem vistos apenas como um custo farmacêutico, os GLP-1 passam a ser analisados também pelo potencial de reduzir gastos futuros relacionados às complicações da obesidade.

"Vários estudos estimam que os gastos com saúde relacionados à obesidade ultrapassam US$ 170 bilhões anualmente apenas nos Estados Unidos, criando uma justificativa econômica convincente para uma adoção mais ampla", diz o BTG. Como consequência, algumas projeções indicam que entre 10% e 15% da população adulta americana poderá utilizar terapias GLP-1 no longo prazo.

Mudança no consumo preocupa e beneficia setores

O impacto da expansão dos GLP-1, porém, não se limita à saúde. O banco destaca que um dos efeitos mais subestimados da categoria está relacionado às mudanças no comportamento de consumo.

Segundo estudos citados no relatório, incluindo pesquisas da Universidade Cornell, nos EUA, usuários desses medicamentos tendem a reduzir gastos com lanches, doces, bebidas açucaradas e álcool. Em contrapartida, cresce o consumo de alimentos ricos em proteínas, produtos frescos, suplementos nutricionais, serviços de fitness, bem-estar e cuidados pessoais.

"O mecanismo biológico vai além da supressão do apetite, afetando as vias de recompensa, as preferências alimentares, o consumo impulsivo e a ingestão de álcool", afirmam os analistas.

A mudança já começou a ser percebida por grandes varejistas. O BTG observa que o Walmart, por exemplo, relatou alterações mensuráveis nas cestas de compras de consumidores que utilizam terapias GLP-1.

Embora a penetração atual ainda seja insuficiente para provocar mudanças significativas na demanda agregada de diversos setores, o banco avalia que a direção da tendência está cada vez mais clara.

"À medida que a penetração desses tratamentos se expande para dezenas de milhões de usuários em todo o mundo, as empresas de bens de consumo podem enfrentar um cenário cada vez mais polarizado, com categorias voltadas para o prazer apresentando um crescimento mais lento em termos de volume, enquanto os segmentos de saúde, bem-estar, beleza, fitness e estilo de vida ativo emergem como beneficiários estruturais", dizem.

América Latina no radar

Para os analistas, esse movimento ganha importância especial na América Latina. Apesar das elevadas taxas de obesidade observadas na região, a penetração dos tratamentos permanece baixa quando comparada aos Estados Unidos e à Europa Ocidental.

O relatório argumenta que a combinação entre maior capacidade de produção das farmacêuticas, chegada de formulações orais, ampliação das evidências clínicas e expansão dos mecanismos de reembolso está criando as condições para uma nova fase de crescimento.

Nesse contexto, a América Latina surge como uma das regiões mais promissoras para a próxima onda de adoção das canetas emagrecedoras.

"A convergência de maior capacidade de fabricação, formulações orais, dados clínicos favoráveis e reembolso em expansão está transformando as terapias com GLP-1 de uma inovação farmacêutica revolucionária em uma das maiores categorias terapêuticas da saúde moderna", conclui o BTG.

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