Capacidade das empresas de pagar dívidas piorou — e não foi só no Brasil
A capacidade de pagamento das empresas entrou no radar de alerta da Coface, empresa global de seguro de crédito, para 2026. Levantamento da empresa, divulgado à EXAME, mostra uma deterioração do risco de crédito nas Américas, em um ambiente ainda marcado por juros elevados, custos financeiros pressionados e crescimento econômico desigual.
O quadro afeta de forma mais intensa as pequenas e médias empresas, que já apresentam níveis de insolvência acima do patamar pré-pandemia.
Nos Estados Unidos, o levantamento indica que o ciclo excepcionalmente benigno para o crédito corporativo ficou para trás. As insolvências empresariais já superam os níveis pré-pandemia, refletindo o impacto combinado de juros altos, aperto nas condições financeiras e absorção de custos adicionais, como tarifas comerciais.
"A economia americana vai bem em termos agregados, mas o desempenho é desigual", afirmou Marcos Carias, economista da Coface para a América do Norte. "As grandes empresas conseguem atravessar esse ciclo com mais facilidade, enquanto as menores enfrentam um aperto financeiro crescente".
Segundo a Coface, o ambiente financeiro segue restritivo. A inflação ao consumidor está em 2,7%, acima da meta de 2% do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), o que limita o espaço para uma flexibilização monetária mais rápida.
O mercado projeta até dois cortes de juros ao longo de 2026, condicionados à trajetória da inflação. "Se a economia continuar rodando forte, o Fed pode ter menos espaço para cortar juros, o que afeta diretamente setores mais sensíveis ao crédito e empresas mais alavancadas", disse Carias.
O estudo mostra ainda que o impacto das tarifas comerciais tem sido absorvido, em grande parte, pelas margens das empresas americanas. "O choque das tarifas está sendo absorvido principalmente pelas margens. Para companhias menores, com menor poder de repasse de preços e acesso mais restrito a crédito, esse ambiente se torna especialmente difícil", afirmou o economista.
As taxas de inadimplência em empréstimos comerciais e industriais seguem em alta nos Estados Unidos, com deterioração mais acentuada nas carteiras de bancos regionais, tradicionalmente mais expostos às pequenas e médias empresas. Para a Coface, esse movimento reforça o avanço do risco de crédito em um segmento mais vulnerável à restrição monetária.
Estresse financeiro na América Latina
Na América Latina, o estresse financeiro também persiste. De acordo com Patricia Krause, economista-chefe da Coface para a região, o ambiente de crédito continua pressionado, com pouco espaço para alívio monetário em países como Peru, Chile e México.
"Mesmo onde há expectativa de cortes, como no Brasil, a redução tende a ser gradual e insuficiente para aliviar, no curto prazo, o estresse financeiro das empresas", afirmou.
No Brasil, a capacidade de pagamento segue pressionada, com a inadimplência corporativa em níveis recordes. A taxa básica de juros, a Selic, permanece em 15% ao ano, e a expectativa é que encerre 2026 em 12,25%, patamar ainda elevado.
"As taxas devem permanecer altas por mais tempo, prolongando a pressão sobre o fluxo de caixa das empresas", disse a economista-chefe.
Na Colômbia, os pedidos de recuperação cresceram 11% nos primeiros nove meses de 2025 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Além disso, a revisão altista das expectativas de inflação — impulsionada pelo reajuste de 23% do salário mínimo — levou o mercado a projetar elevação dos juros para até 11,25% em 2026.
"Juros em trajetória de alta tendem a pressionar ainda mais a capacidade de pagamento", afirmou Krause.
Na Argentina, apesar da desaceleração expressiva da inflação e da expectativa de crescimento acima da média regional em 2026, a recuperação ocorre de forma desigual entre os setores.
A taxa de inadimplência bancária das empresas permanece relativamente baixa, próxima de 2%, mas apresenta trajetória de alta. "A recuperação não se traduz de forma homogênea. Setores como agricultura e energia avançam mais rápido, enquanto construção e indústria seguem fragilizadas", disse Krause.
Para a Coface, o cenário para 2026 combina juros ainda elevados, incertezas comerciais e desempenho econômico desigual, exigindo maior rigor na gestão de crédito e risco comercial. "Informação, monitoramento e prevenção se tornam ainda mais determinantes em um ambiente de crédito mais desafiador".
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