Capital estrangeiro na B3 resiste ao primeiro mês da guerra, mas desacelera
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã completa um mês neste sábado, 28, e muitas das reações do mercado ao longo desse período têm surpreendido. Em meio ao aumento da aversão ao risco global e à volatilidade provocada pelo conflito, o fluxo de capital estrangeiro para a bolsa brasileira seguiu positivo — mas não sem sinais claros de perda de fôlego.
Os dados da B3 mostram que, embora os investidores internacionais tenham mantido aportes líquidos no país, o ritmo desacelerou de forma consistente ao longo dos últimos meses. Em janeiro, o saldo positivo foi de R$ 26,4 bilhões. Em fevereiro, caiu para R$ 15,3 bilhões. Já em março, até a última quarta-feira, 25, somava R$ 8,3 bilhões.
No acumulado de 2026 até a mesma data, o fluxo estrangeiro ainda é robusto, em R$ 50,2 bilhões, mas evidencia uma trajetória de desaceleração conforme o ambiente externo se torna mais adverso.
O movimento chama atenção porque os estrangeiros seguem como os principais participantes da bolsa brasileira, com mais de 60% de participação nos negócios, bem acima dos cerca de 24% dos investidores institucionais locais.
O que mantém o fluxo de gringos positivo?
Na avaliação de bancos internacionais, o comportamento do fluxo para o Brasil destoa do padrão observado em outros mercados emergentes desde o início do conflito.
Em relatório divulgado nesta semana, o JP Morgan classificou o momento como "excepcional", destacando que, apesar da retirada de cerca de US$ 8 bilhões de emergentes desde o fim de fevereiro, o Brasil seguiu na contramão, com entradas relevantes de capital.
Segundo o banco, os fluxos estrangeiros para ações brasileiras somaram quase US$ 7 bilhões em março até o dia 19 de março, elevando o total no ano para cerca de US$ 9,2 bilhões (R$ 48,5 bilhões). O volume coloca 2026 como o segundo melhor ano da série histórica em termos de entrada de recursos, atrás apenas de 2022.
"É simplesmente extraordinário o fato de o Brasil estar recebendo fluxos em um momento de aversão ao risco global", afirma a equipe de estratégia em ações para América Latina e Brasil do banco americano, liderada por Emy Shayo Cherman.
Para o maior banco do mundo, a América Latina tem sido vista como um "porto seguro" dentro dos emergentes e, o Brasil, como o mercado mais bem posicionado dentro desse grupo.
Ainda assim, a própria instituição reconhece que essa resiliência pode ter limites. Caso o cenário global se deteriore e as saídas de capital de emergentes persistam, será difícil manter uma tendência forte de entradas na região.
Essa leitura é reforçada pelo Goldman Sachs. O banco aponta que, após o início do conflito, mercados emergentes registraram saídas de US$ 44 bilhões, com destaque para Taiwan e Coreia do Sul, enquanto o Brasil teve entradas de cerca de US$ 900 milhões.
Na visão dos estrategistas do banco de investimento, o país se beneficia de fatores como o peso do setor de energia, valuations mais baixos, com múltiplos ao redor de 9,6 vezes lucro, e a perspectiva de flexibilização da política monetária.
Fluxo para commodities, em especial, as petrolíferas
O desempenho das ações ligadas ao petróleo também ajuda a explicar essa dinâmica. Mesmo com a queda de 3% do EWZ, principal ETF (futuro de índice) de ações brasileiras negociado nos EUA, após o início da guerra, papéis de petrolíferas como Petrobras e Prio registraram fortes altas no período, refletindo a valorização da commodity em meio ao risco geopolítico.
Até o fechamento nesta sexta, 27, os papéis da Prio acumulam alta de quase 30% apenas neste primeiro mês da guerra. Já as ações ordinárias e preferenciais da estatal (PETR3 e PETR4) avançaram 27% e 26%, respectivamente, no mesmo período.
Enquanto os grandes fluxos agregados seguem positivos, os dados das movimentações dos fundos estrangeiros indicam uma mudança relevante de posicionamento por parte desses investidores. Relatórios da Necton Investimentos, que analisam operações entre os dias 16 e 19 e entre 24 e 25 de março, mostram uma rotação setorial clara dentro da bolsa brasileira.
De acordo com os documentos, gestoras globais como BlackRock, Goldman Sachs e Morgan Stanley vêm reduzindo exposição a setores mais sensíveis ao ciclo econômico e a siderúrgicas, ao mesmo tempo em que aumentam posições de forma seletiva em segmentos específicos.
O quadro geral sugere uma estratégia mais seletiva, com saída de ativos mais cíclicos e maior busca por empresas ligadas a serviços e ao setor financeiro, com características mais defensivas ou de crescimento específico.
"Vemos uma predileção pelo setor financeiro e não é de hoje, esse é um setor que performou muito bem. Já a siderurgia passa por uma correção mais intensa", afirma Frederico Nobre, gestor de investimentos da Warren.
"Setores como o varejo tendem a sofrer mais nesse cenário, porque a guerra pressiona a inflação e aumenta o risco de desaceleração da atividade, em um ambiente ainda de juros elevados e com cortes possivelmente mais lentos. Isso torna a dinâmica mais delicada, inclusive para o Banco Central, que tem menos eficácia no combate à inflação quando ela vem de um choque de oferta, e não de demanda", diz.
Por outro lado, segundo o gestor, o Brasil acaba relativamente melhor posicionado frente a outros emergentes, especialmente os asiáticos, por ser exportador de petróleo e produtos agrícolas, o que fortalece a balança comercial e pode até atrair fluxo com algum prêmio.
Redução de juros como um diferencial
Esse reposicionamento ocorre em um momento em que o conflito no Oriente Médio deixa de ser tratado como um choque pontual e passa a influenciar de forma mais estrutural as decisões de investimento.
A escalada das tensões, os riscos ao fluxo global de petróleo e a volatilidade recorrente nos preços das commodities aumentaram o grau de incerteza e reduziram o apetite por risco de forma mais ampla.
Ainda assim, há fatores domésticos que ajudam a sustentar o interesse pelo Brasil. Um dos principais é o início do ciclo de corte de juros. Na semana passada, o Banco Central reduziu a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano, no primeiro corte em dois anos.
Na visão do JP Morgan, a continuidade desse movimento pode funcionar como um vetor adicional para a bolsa, abrindo espaço para recomposição de posições em renda variável.
O banco projeta que as taxas encerrem o ano em torno de 11,75% para os vencimentos de 2026 e 10% para os de 2027, o que poderia beneficiar especialmente empresas mais alavancadas e estimular maior alocação em ações.
O Goldman Sachs também vê o ciclo de flexibilização como um fator de suporte, com expectativa de cortes adicionais ao longo do ano, embora ressalte que esse cenário depende de um conflito de duração mais curta.
"A combinação de fatores ajuda o Brasil nesse cenário. Com a guerra prolongada e as incertezas fiscais, o petróleo mais caro tem um efeito relevante: a cada US$ 10 a mais por barril, o impacto pode chegar a cerca de 0,2 ponto do PIB, via balança comercial. Isso reduz o prêmio de risco relativo do país frente a outros emergentes, já que somos menos afetados e, por isso, o investidor estrangeiro tem mantido aportes marginais no Brasil", diz Nobre da Warren.
O gestor ressalta, contudo, que esse fluxo dos gringos não se trata, em grande parte, de capital de longo prazo, e sim de recursos mais táticos, de hedge funds e gestores globais. Antes da guerra, já havia um movimento de rotação para mercados emergentes, que acabou perdendo força e esses mercados corrigiram mais do que os desenvolvidos.
"O que é natural", afirma Nobre. "Isso acontece porque os emergentes, em geral, têm maior peso em países asiáticos, como China e Índia, que são mais prejudicados por um petróleo mais caro. Nesse contexto, o Brasil acaba se destacando: apesar de também ser emergente, tem uma dinâmica diferente e, no relativo, sai menos prejudicado pela crise", conclui.
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