China emerge como vencedora da guerra entre EUA e Irã, diz estudo
Especialistas do think-tank The Asia Group (TAG), focado no estudo da Ásia, concluem, em um novo estudo publicado nesta terça, 30, que a China foi a maior vencedora do imbróglio em Ormuz, gerado pela guerra do Irã, nos âmbitos econômico e geopolítico.
Isso se deve, elaboram os autores, à resiliência e ao planejamento chinês, que foi capaz de aguentar a crise melhor do que qualquer outro país, devido tanto aos amplos estoques estratégicos de petróleo que o país vem juntando há anos quanto às ambiciosas mudanças em direção à energia renovável que reduzem drasticamente a dependência do país de combustíveis fósseis — a commodity mais afetada pelo fechamento do estreito:
"Com 1,4 terawatt de capacidade renovável operacional já em funcionamento e reservas que garantem entre 90 e 110 dias de importação de petróleo bruto, a China enfrentou o choque inicial melhor do que qualquer outro país da região", diz o estudo.
A China também se beneficiou da reação de outros países à crise, que revelou a instabilidade de cadeias de suprimento consideradas estáveis e garantidas por anos. Isso acelerou a expansão de sua infraestrutura de energia limpa; Pequim domina a cadeia de suprimentos global nos setores de energia solar e de outras tecnologias verdes e, nos últimos anos, tem direcionado grande parte dessa produção para o exterior a preços baixos — para o descontentamento de líderes ocidentais preocupados com suas próprias indústrias.
As exportações chinesas de veículos elétricos, por sua vez, dispararam mais de 110% em maio em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto os embarques de equipamentos solares aumentaram 60% em abril. Com isso, a China emerge da crise em uma posição econômica fortalecida, o que lhe garante forte influência política à medida que outros países ainda lidam com as repercussões do conflito.
Além disso, o TAG nota que, apesar do apoio chinês às negociações de paz, "A crise permite a Pequim retratar os Estados Unidos como o agente desestabilizador cujos envolvimentos no Oriente Médio impõem custos ao mundo."
Ecos da crise ainda geram problemas para a China
Um navio cargueiro parte do porto de Qingdao, no leste da China; apesar de emergir em uma posição vantajosa da crise de Ormuz, exportações da China podem desacelerar, já que o resto do mundo ainda lida com as consequências econômicas do conflito (CN-STR/China OUT/AFP)
Apesar da posição vantajosa, a China ainda enfrenta problemas decorrentes da crise, alerta a análise.
Um risco mais profundo para Pequim seria a possibilidade de interrupções prolongadas continuarem a desacelerar a economia global e a reduzir a demanda por exportações chinesas, o que seria um golpe direto à sua principal força motriz econômica. Mesmo com o avanço nas negociações de paz, que resultou em preços de petróleo mais baixos e em um cessar-fogo mais concreto, incidentes e incertezas quanto ao fluxo pelo Estreito de Ormuz ainda suscitam preocupações nos mercados globais.
Preços de energia mais elevados até o final de 2026 enfraqueceriam o poder de compra global, apertariam as condições financeiras e aumentariam o risco de recessão, especialmente para os mercados emergentes importadores de commodities, diz o estudo. Isso põe em risco direto indústrias como as linhas aéreas, que buscam compensar os combustíveis caros nos preços das passagens, e as refinarias "chaleiras" da China, que importam petróleo do Irã e da Rússia a preços significativamente mais baixos.
O efeito cumulativo dos altos preços seria limitar a capacidade dos mercados internacionais de absorver as exportações chinesas, restringindo uma importante válvula de escape para o modelo econômico da China — fortemente dependente de exportações —, que já enfrenta pressões à medida que os Estados Unidos e a Europa buscam impor barreiras comerciais para combater o excesso de capacidade produtiva chinesa.
Além disso, o novo cenário macroeconômico também não é um mar de rosas. A alta dos preços do petróleo e a maior demanda por dólares estão exercendo nova pressão de desvalorização sobre o yuan chinês (RMB), complicando os esforços de Pequim para manter a moeda relativamente estável e, ao mesmo tempo, rebater críticas estrangeiras de que um RMB desvalorizado reforça o excesso de capacidade exportadora da China.
O aumento dos custos de energia e de frete agrava as pressões sobre os orçamentos de domicílios, que nunca se recuperaram totalmente dos impactos da Covid e do colapso do mercado imobiliário chinês. A inflação, mesmo em níveis administráveis, desafia diretamente a estratégia de Pequim de reequilibrar a economia em direção a um crescimento impulsionado pelo consumo.
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