China teria solicitado uso de modelo mais avançado da Anthropic, mas pedido foi negado
A corrida global pela inteligência artificial ganhou um novo capítulo diplomático que acaba de passar por Singapura. Durante um encontro organizado pelo think tank Carnegie Endowment for International Peace no mês passado, um representante de um instituto de pesquisa chinês abordou executivos da Anthropic solicitando que a empresa cedesse ao governo de Pequim acesso ao Claude Mythos Preview, modelo mais avançado até então. Conforme o The New York Times, a empresa dona do Claude negou o pedido.
A abordagem não partiu do governo chinês, mas poucos no círculo de segurança americano do governo Trump trataram o gesto como algo trivial. Quando o episódio chegou ao conhecimento do Conselho de Segurança Nacional, a reação foi de alerta e parte da equipe do presidente dos Estados Unidos reforçou a convicção interna de que Pequim irá até o limite para encurtar a distância tecnológica que a separa dos Estados Unidos na corrida pela IA.
Lançado em abril deste ano, o Mythos não foi disponibilizado de forma geral por demonstrar capacidade excepcional de identificar brechas em softwares. O sistema demonstrou habilidade fora do comum para mapear vulnerabilidades em redes digitais, o que o transforma em um instrumento de alto potencial em cenários de guerra cibernética. O acesso foi liberado apenas para o governo federal americano e para um grupo fechado de cerca de 40 organizações.
Com o Mythos e o ChatGPT 5.5, da OpenAI, a liderança americana no setor é vista como crescente. Avaliações internas de órgãos do governo e da indústria dos EUA sugerem que a vantagem sobre a China, antes estimada em torno de seis meses, pode ter avançado para um intervalo entre nove meses e um ano. Ainda assim, há quem recomende cautela nessa leitura: a China já mostrou, mais de uma vez, que sabe recuperar espaço perdido.
O DeepSeek é o exemplo mais recente, uma vez que a empresa surpreendeu o setor no ano passado com resultados expressivos obtidos com infraestrutura mais enxuta, e seu modelo mais novo foi ajustado para operar em chips desenvolvidos pela Huawei, em um sinal claro de que Pequim aposta na independência tecnológica. A estratégia, que também afeta empresas como Moonshot AI e ByteDance, freia as intenções anteriores da China de incentivar companhias locais a buscar destaque no exterior; a intenção era tratar a expertise estrangeira como um dos ingredientes essenciais para se tornar potência em IA.
Debate sobre avanços de IA vai de Washington a Pequim
Ainda nesta semana, Trump deve desembarcar em Pequim na quinta-feira para encontros com Xi Jinping focados em IA e segurança digital. Nos bastidores, conversas sobre semicondutores e eventuais acordos de contenção de riscos tecnológicos são temas sendo discutidos como essenciais para menção, ainda que rápida, na conversa. Na China, a percepção sobre o Mythos mistura apreensão e hostilidade e, a consultoria IDC China avaliou que o modelo amplia uma brecha tecnológica que preocupa empresas locais.
Tanto Washington quanto Pequim passaram a encarar suas empresas de IA como peças centrais de suas estratégias nacionais. A China barrou a tentativa da Meta de adquirir a startup Manus por cerca de US$ 2 bilhões e agora exige aval governamental para que empresas locais recebam capital estrangeiro. Os EUA, por sua vez, seguem endurecendo as regras de exportação de chips e mantêm os modelos mais avançados longe do alcance de atores externos.
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