Chuva de meteoros acontece na madrugada — e culpado é cometa que aparece a cada 415 anos
Todo ano, em abril, a Terra atravessa uma trilha de detritos cósmicos e o céu se enche de meteoros. O espetáculo tem nome — chuva de meteoros Líridas — e tem um responsável: o Cometa Thatcher, um corpo gelado que orbita o Sol a cada 415 anos e que, até hoje, nunca foi fotografado.
A última vez que o Cometa Thatcher passou pelo sistema solar interior foi em 1861, quando a fotografia astronômica ainda não estava espalhada pelo mundo, segundo a Galeria do Meteorito.
A próxima passagem, de acordo com a Nasa, está prevista para aproximadamente 2283. Quem viver essa data terá o que a humanidade inteira nunca teve: uma imagem real do cometa que há milênios risca o céu de abril.
A descoberta no ano em que o mundo pegou fogo
O cometa foi descoberto em 5 de abril de 1861 pelo astrônomo A. E. Thatcher, cujo nome passou a batizar o objeto, segundo a Nasa. O ano não poderia ser mais turbulento: nos Estados Unidos, a Guerra Civil estava prestes a começar. No Brasil, o Segundo Reinado vivia seu auge.
Na Europa, revoluções e unificações nacionais remodelavam o mapa do continente. No meio de tudo isso, um homem apontou um telescópio para o céu e viu algo que nenhum ser humano vivo havia visto antes — e que nenhum voltaria a ver por mais quatro séculos.
Carl Wilhelm Baeker também descobriu o cometa de forma independente na mesma época, segundo a Wikipedia. Como era comum na astronomia do século XIX, a prioridade coube a quem registrou primeiro.
Uma órbita de quatro séculos
O Cometa Thatcher leva 415 anos para completar uma volta ao redor do Sol e é classificado como cometa de longo período, categoria reservada a objetos com órbitas superiores a 200 anos, segundo a Nasa.
Sua trajetória é altamente elíptica, segundo o Space Reference. Na aproximação máxima, chega a 0,92 unidades astronômicas do Sol — menos que a distância da Terra ao astro.
No ponto mais distante, se afasta a 110 unidades astronômicas, muito além de Plutão. É essa órbita extrema que o torna tão raro, a maior parte do tempo, o Thatcher está nos confins do sistema solar, invisível e inatingível.
O rastro que sobrou
O que resta dele, ano após ano, são fragmentos. Cada vez que o cometa se aproxima do Sol, o calor faz com que gelo e poeira se desprendam do núcleo, espalhando detritos ao longo de sua órbita, segundo a Nasa.
Quando a Terra cruza essa trilha, em abril, esses fragmentos entram na atmosfera a alta velocidade e se incendeiam — produzindo os meteoros das Líridas.
A velocidade de entrada é de cerca de 49 km por segundo, o que gera flashes rápidos e nítidos, segundo o Observatório Nacional. Em alguns casos raros, os meteoros deixam rastros persistentes de gás ionizado no céu.
2.700 anos de registros — sem uma foto sequer do autor
As Líridas são uma das chuvas de meteoros mais antigas já documentadas: o primeiro registro remonta a 687 a.C., em anotações de astrônomos chineses, segundo a Nasa.
Isso significa que humanos observam os rastros do Cometa Thatcher há 2.700 anos, atravessando a Grécia antiga, o Império Romano, a Idade Média, a Revolução Industrial e a era espacial, sem nunca ter visto o cometa em si.
Não existe uma única fotografia do Cometa Thatcher. Quando ele passou em 1861, a fotografia astronômica ainda dava seus primeiros passos, segundo a Galeria do Meteorito. Na próxima vez que passar, em torno de 2283, a humanidade poderá finalmente registrá-lo com toda a tecnologia disponível.
Até lá, abril continua entregando o que sempre entregou: a sombra de um viajante que passou uma vez, deixou sua marca no céu, e foi embora por quatro séculos.
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