Cica: o que aconteceu com a marca de extrato de tomate que dominou o Brasil nos anos 80
O mercado de atomatados no Brasil já foi dominado por uma única empresa durante mais de três décadas.
Entre os anos 1950 e 1980, uma marca de Jundiaí, no interior de São Paulo, ditou o que o brasileiro colocava no prato, e criou uma das parcerias publicitárias mais duradouras da história do país.
A Cica, sigla para Companhia Industrial de Conservas Alimentícias, nasceu em 1941 da união de famílias de imigrantes italianos: Alberto Bonfiglioli, os irmãos Salvatore e Antonino Messina e as famílias Guerrazzi e Guzzo.
O carro-chefe era o extrato de tomate Elefante triplo concentrado, feito com tomates selecionados, sem pele e sem sementes.
A marca se tornou tão forte que, nos anos 1980, a Cica era a maior produtora de conservas alimentícias do Brasil e da América Latina, com 167.000 metros quadrados de área construída em Jundiaí.
A empresa deixou de existir em 2003, quando a Unilever eliminou o nome Cica de seus produtos. A fábrica original de Jundiaí havia sido fechada cinco anos antes, em 1998.
Hoje, parte do terreno onde funcionava a maior fábrica de conservas do país abriga uma loja de materiais de construção.
O extrato de tomate Elefante sobreviveu — agora nas mãos da americana Cargill —, mas a Cica, como empresa, desapareceu. E o que levou ao fim não foi um problema no negócio de alimentos: foi a quebra de um banco.
A falência do Banco Auxiliar, em novembro de 1985, arrastou consigo a Cica e as outras 43 empresas da Corporação Bonfiglioli.
A companhia de alimentos era financeiramente sólida, com faturamento de 206 milhões de dólares no exercício encerrado em junho daquele ano. Mas pertencia ao mesmo grupo familiar do banco — e, quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial, a Cica entrou em concordata preventiva em dezembro de 1985.
Depois disso, a empresa nunca mais recuperou a autonomia. Foi vendida ao grupo italiano Ferruzzi em 1987. Em 1991, passou para a Cragnotti & Partners. Em 1993, foi comprada pela Gessy Lever (hoje Unilever) por 250 milhões de dólares.
A cada troca de mãos, a marca Cica perdia espaço nas embalagens, até ser extinta.
A fundação: italianos, tomate e um elefante
A Cica começou com um único produto: extrato de tomate.
A escolha de Jundiaí para a fábrica teve razões práticas — a cidade era um entroncamento ferroviário ligando São Paulo ao interior e ao litoral, e ficava a 2,5 quilômetros da Via Anhanguera, inaugurada em 1940. Mas o fator decisivo foi o contato dos fundadores com a colônia italiana local.
A fábrica começou a operar em 25 de agosto de 1941.
O nome Elefante para o extrato de tomate tem duas explicações possíveis. Uma delas é que Rodolfo Bonfiglioli, filho de Alberto, era adepto de caçadas de elefantes na África — hábito do qual se arrependeu no fim da vida. A outra remete à terra natal da família Messina: Catânia, na Sicília, onde existe a Fontana dell'Elefante na praça central da cidade.
Antes da Cica, o mercado era dominado pela Fábrica Peixe, de Pesqueira, em Pernambuco. A Peixe processava 700 toneladas de tomate por dia, empregava cerca de 5.000 pessoas e exportava para os Estados Unidos.
A Cica começou com um item só, o extrato, e levou anos para alcançar a rival. Fez isso apostando na concentração do produto (triplo concentrado, em vez de duplo) e em propaganda.
Jotalhão: a jogada de marketing que durou décadas
Em 1968, o desenhista Mauricio de Sousa publicou uma tirinha no jornal Folha de S.Paulo. Na história, a Mônica puxava um elefante pela tromba enquanto Cebolinha dizia que a mãe dela havia pedido massa de tomate, não o animal.
A piada fazia referência ao elefante estampado na lata do extrato da Cica.
No ano seguinte, a Cica procurou Mauricio de Sousa e contratou o personagem Jotalhão como garoto-propaganda. Foi o primeiro personagem de quadrinhos licenciado por uma marca no Brasil.
A partir de 1979, o Jotalhão substituiu o desenho realista do elefante nas embalagens, e a parceria com a Mauricio de Sousa Produções se manteve por mais de 50 anos.
A estratégia de marketing da Cica ia além da publicidade.
Na década de 1970, a empresa já diversificava sua linha com marmeladas, goiabadas, vinagres, maioneses, molhos de pimenta e conservas de frutas. A Cica chegou a ter filiais em Monte Alto (SP), Presidente Prudente (SP), na região do Vale do São Francisco (Bahia), no Sul de Minas Gerais e até na Argentina.
O banco que derrubou a fábrica
Alberto Bonfiglioli não era apenas dono da Cica. Também fundou o Banco Auxiliar de São Paulo, em 1942.
As duas empresas — banco e indústria — eram os pilares da Corporação Bonfiglioli, que chegou a reunir 44 empresas.
Depois da morte de Alberto, em 1967, o filho Rodolfo Marco Bonfiglioli assumiu o comando. A Cica vivia seu auge: dominava o mercado nacional de atomatados havia três décadas. Mas o Banco Auxiliar enfrentava problemas desde o início dos anos 1980.
A crise econômica do país levou o banco a perder depósitos e credibilidade.
O Auxiliar concedeu empréstimos a empresas em dificuldade, sem garantias, e praticou operações financeiras irregulares.
Em 19 de novembro de 1985, o Conselho Monetário Nacional aprovou a liquidação extrajudicial do Banco Auxiliar. O passivo era de 700 bilhões de cruzeiros.
A crise do banco havia sido escondida por pelo menos cinco anos — no exercício encerrado cinco meses antes, o Auxiliar havia reportado lucro líquido de 5,9 bilhões de cruzeiros. O mercado e os próprios funcionários foram pegos de surpresa.
A derrocada do banco arrastou a Cica. A empresa entrou em concordata preventiva em dezembro de 1985 e, dois anos depois, foi vendida ao grupo italiano Ferruzzi.
Foi o início de uma sequência de trocas de mãos que acabaria por dissolver a marca.
De mão em mão
A venda ao Ferruzzi não estabilizou a Cica. Em 1991, o grupo italiano vendeu seus ativos para a Cragnotti & Partners. Dois anos depois, em 1993, a Gessy Lever (futura Unilever) comprou a empresa por 250 milhões de dólares.
Sob a Unilever, a Cica perdeu identidade. Em 1998, a fábrica original de Jundiaí foi fechada e a produção transferida para Rio Verde, em Goiás.
Em 1992, a unidade de Presidente Prudente já havia sido desativada. Em 2000, a fábrica de Juazeiro, no Vale do São Francisco, também foi encerrada.
A partir de 2002, a maior parte dos produtos perdeu o logo da Cica.
Em 2003, o extrato de tomate passou a integrar a linha Knorr Elefante, e a marca Cica foi oficialmente extinta.
Em 2010, a americana Cargill comprou a divisão de atomatados da Unilever no Brasil, incluindo as marcas Elefante, Pomarola e Pomodoro.
Hoje, o extrato de tomate Elefante continua nas prateleiras — produzido em Goiânia, com embalagem plástica reutilizável e o Jotalhão redesenhado. Mas o nome Cica ficou para trás.
O que sobrou da Cica
Em Jundiaí, os rastros da empresa ainda são visíveis.
A Rua Cica, onde ficava a entrada da fábrica, mantém o nome. O bairro Jardim Cica foi loteado pela família Bonfiglioli.
A torre da fábrica, construída em 1951, foi tombada como patrimônio local. E a Coopercica, cooperativa de consumo fundada em 1969 por 62 funcionários da empresa, virou uma rede de supermercados com nove unidades na região, mais de 210.000 clientes e 1.100 funcionários.
Rodolfo Marco Bonfiglioli, o herdeiro que presidiu o grupo durante a fase de ascensão e queda, morreu em setembro de 2024, aos 98 anos.
A Cica durou 62 anos, da fundação em 1941 à extinção da marca em 2003.
O extrato de tomate Elefante — seu produto mais famoso — já completou mais de 80 anos nas prateleiras, agora com outro dono. O Jotalhão permanece na embalagem.
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