Ciência em campo: Bayer e USP criam programa que transforma pesquisadores em líderes de indústria
“Quando olhei para minha carreira, percebi que a transição da academia para a indústria poderia ser mais fluida e produtiva.” A frase é de Márcia Ometto Mello José, diretora sênior de Avaliação de Segurança e Estratégia Regulatória Crop Latam da Bayer e idealizadora do programa “Ciência em Campo”, iniciativa criada em parceria com a USP para aproximar pesquisadores do universo corporativo e acelerar a formação de talentos científicos voltados à inovação.
O projeto surgiu a partir da experiência da própria executiva. Formada em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP, Márcia enfrentou as dificuldades de migrar da carreira acadêmica para o setor privado no Brasil. Segundo ela, o currículo altamente técnico era visto como excessivo para cargos iniciais, enquanto faltava a vivência corporativa exigida para posições mais estratégicas.
A mudança aconteceu quando ela se mudou para os Estados Unidos, onde, segundo relata, a formação científica era valorizada pelo mercado. A experiência internacional ajudou a moldar a ideia de criar uma ponte entre universidade e indústria no Brasil.
“O 'Ciência em Campo’ nasceu desse desejo de oferecer aos nossos futuros cientistas a experiência corporativa que eu não tive no início, permitindo que eles apliquem seu imenso conhecimento técnico em desafios reais do mercado”, afirma Márcia.
Márcia Ometto Mello José, da Bayer: “O 'Ciência em Campo’ nasceu desse desejo de oferecer aos nossos futuros cientistas a experiência corporativa que eu não tive no início" (Bayer/Divulgação)
Como funciona o programa
O “Ciência em Campo” permite que estudantes de mestrado e doutorado atuem como estagiários na Bayer durante a pós-graduação. A proposta é conectar pesquisadores altamente qualificados a projetos ligados aos desafios da companhia nas áreas de saúde e agricultura.
A trilha de desenvolvimento dura entre 12 e 18 meses e combina atuação prática em projetos, mentorias com lideranças da empresa e treinamentos voltados ao desenvolvimento de habilidades comportamentais, como inteligência emocional e mindset ágil. O modelo segue a metodologia 70-20-10, em que 70% do aprendizado acontece na prática, 20% por meio de mentorias e 10% em treinamentos formais.
A primeira edição, realizada entre 2024 e 2025 na área de Pesquisa & Desenvolvimento agrícola, recebeu 214 inscrições e resultou na contratação de 12 participantes, sendo 10 doutorandos e 2 mestrandos.
Embora não tenha sido desenhado como um programa afirmativo, o resultado chamou atenção pelos indicadores de diversidade: 75% das vagas foram ocupadas por mulheres, 33% por pessoas LGBTQIAPN+, 17% por pessoas negras e 8% por pessoas indígenas.
A ponte entre ciência e mercado
Um dos diferenciais do projeto foi justamente a colaboração da USP para adaptar regras acadêmicas e permitir defesas de tese privadas em projetos estratégicos da empresa, protegendo informações sensíveis da companhia. A maioria das universidades brasileiras trabalha apenas com defesas públicas.
À frente da implementação do programa está Guilherme Martins, líder de Recursos Humanos da Bayer. Ex-participante do Programa de Trainee de Liderança Negra da companhia, ele dedicou dois anos para estruturar a iniciativa.
Nascido em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Guilherme construiu sua trajetória entre ciência e negócios. Fez ensino técnico em Biotecnologia, graduação em Farmácia na UFRJ e mestrado em biotecnologia e química. Um período de estudos nos Estados Unidos também ajudou a consolidar sua visão sobre a importância da ciência aplicada ao mercado.
“A ciência mudou a minha vida, e meu maior orgulho agora é ajudar a mudar a vida de outros”, afirma Guilherme.
Guilherme Martins, da Bayer: “A ciência mudou a minha vida, e meu maior orgulho agora é ajudar a mudar a vida de outros” (Bayer/Divulgação)
Expansão para novas áreas
Com os resultados da primeira edição, a Bayer decidiu ampliar o programa em 2026. A nova turma incluirá áreas como carbono e sustentabilidade, biológicas, dados, oncologia, inovação, excelência de manufatura e formulação de herbicidas.
Para a companhia, o programa representa não apenas uma estratégia de atração de talentos, mas também uma tentativa de reduzir a distância histórica entre o ambiente acadêmico e a iniciativa privada no Brasil, um desafio frequentemente apontado por pesquisadores e empresas de inovação.
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