Cientistas descobrem combinação inédita de antibióticos que pode dificultar resistência bacteriana
Uma descoberta publicada na revista científica Nature nesta quarta-feira, 24, pode representar um importante avanço na corrida contra um dos maiores problemas de saúde pública do século XXI: a resistência aos antibióticos.
Pesquisadores identificaram, em uma bactéria comum do solo pertencente ao gênero Streptomyces, um enorme agrupamento de genes capaz de produzir quatro antibióticos diferentes que atuam de forma coordenada contra bactérias resistentes a múltiplos medicamentos. O estudo abre caminho para o desenvolvimento de tratamentos mais difíceis de serem contornados pelos chamados "supermicróbios".
A pesquisa descreve a descoberta de um "megacluster" genético responsável pela fabricação de uma combinação de compostos antimicrobianos. Em vez de atacar apenas um alvo da bactéria, como ocorre com muitos antibióticos atuais, essas moléculas interferem em diferentes etapas da produção de biotina, também conhecida como vitamina B7, um nutriente essencial para o crescimento e sobrevivência das bactérias.
Um alvo em vários pontos ao mesmo tempo
A grande inovação está justamente na estratégia de ataque. Cada um dos quatro antibióticos produzidos pela bactéria atua sobre uma fase diferente da mesma via metabólica. Isso reduz significativamente as chances de que um microrganismo consiga desenvolver mutações capazes de escapar do tratamento.
Segundo o microbiologista Brendan Wren, da London School of Hygiene & Tropical Medicine, essa abordagem representa uma vantagem importante no combate à resistência antimicrobiana. "É muito mais difícil para as bactérias desenvolverem resistência quando vários pontos de uma via metabólica essencial são atacados ao mesmo tempo", explica o pesquisador.
Os cientistas acreditam que essa estratégia pode inspirar o desenvolvimento de uma nova geração de antibióticos capazes de permanecer eficazes por muito mais tempo do que os medicamentos disponíveis atualmente.
Uma descoberta escondida "à vista de todos"
O gênero Streptomyces está longe de ser desconhecido pela ciência. Trata-se de um dos grupos de bactérias mais estudados do planeta e responsável pela produção de diversos antibióticos utilizados há décadas, incluindo a estreptomicina, primeiro medicamento eficaz contra a tuberculose.
Justamente por isso, a descoberta surpreendeu especialistas. Para Mark Blaskovich, pesquisador da University of Queensland, na Austrália, o resultado demonstra que ainda existem segredos importantes mesmo em organismos estudados há décadas. "Eles descobriram algo novo em um sistema tão extensivamente estudado. Estava escondido à vista de todos", afirmou Blaskovich.
Além dos quatro antibióticos, o conjunto de genes também produz uma proteína que participa do funcionamento desse sofisticado sistema de defesa natural.
Corrida contra a resistência aos antibióticos
A descoberta acontece em um momento crítico para a saúde global. A resistência antimicrobiana cresce ano após ano e já preocupa autoridades sanitárias em todo o mundo. Quando bactérias se tornam resistentes aos medicamentos disponíveis, infecções antes simples passam a representar riscos elevados, aumentando internações, custos hospitalares e mortalidade.
Segundo a Nature, estudos estimam que as infecções resistentes poderão estar associadas a cerca de 39 milhões de mortes entre 2025 e 2050, caso novas soluções não sejam desenvolvidas. Esse cenário faz com que a busca por antibióticos com mecanismos inéditos seja considerada uma das maiores prioridades da pesquisa biomédica internacional.
O que vem pela frente?
Embora os resultados sejam promissores, os pesquisadores destacam que o trabalho ainda está em fase experimental. Será necessário compreender melhor como esses compostos funcionam, avaliar sua segurança e eficácia em estudos pré-clínicos e clínicos e verificar se podem ser transformados em medicamentos para uso humano.
Outro aspecto considerado promissor é que a identificação desse megacluster genético pode ajudar cientistas a encontrar outros conjuntos semelhantes escondidos em diferentes bactérias do solo. Isso amplia significativamente o potencial de descoberta de novas moléculas capazes de combater infecções resistentes.
A história dos antibióticos começou justamente com substâncias produzidas por microrganismos encontrados na natureza. Décadas depois, quando muitos acreditavam que essas fontes já haviam sido completamente exploradas, uma bactéria comum do solo mostra que ainda existem respostas importantes esperando para serem descobertas.
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