Cinebiografia de Michael Jackson filma o ícone, mas evita o homem
Cinebiografias são, por natureza, um terreno de negociação. É o espaço onde o cinema toma para si a trajetória de alguém e a adapta sob a vigilância de familiares, polêmicas e meias-verdades. Quando esse cabo de guerra entre o fato e o espólio pende demais para um lado, acontece a tragédia que é Michael, a biografia baseada na história de Michael Jackson, que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 23.
O filme, que abrange somente a primeira parte da trajetória do Rei do Pop, adapta à telona a vida do cantor desde o início dos Jackson 5 até os primeiros passos do artista em direção à carreira solo, muito marcada pelo drama com a família e, em especial, com o pai, Joe Jackson. A direção é de Antoine Fuqua, reconhecido por longas de ação, e o roteiro vem do renomado John Logan, três vezes indicado ao Oscar.
Tecnicamente falando, tem tudo para dar certo. Elenco de renome, apego nostálgico, canções que mudaram a história da música e o envolvimento com uma das maiores bases de fãs do mundo. A produtora do filme, GK Filmes, é a mesma de Bohemian Rhapsody (2018), que venceu quatro Oscars e arrecadou US$ 910 milhões. As projeções de bilheteria de Michael nos EUA já preveem que, só no primeiro fim de semana, o longa arrecade cerca de US$ 150 milhões.
O problema é que nem a validação do trabalho de Logan pela Academia seria capaz de salvar esse filme das implicações jurídicas e misteriosas que cercam a vida de Michael Jackson, mantidas a sete chaves pelos familiares. A maneira que a produtora encontrou para contar a história foi trazer quem ainda está vivo para dentro do longa. Daí estreou no cinema Jaafar Jackson, sobrinho de Michael, no papel do tio. E confirmou-se a morte de qualquer roteiro mais profundo e provocativo sobre a história do cantor.
Lindo como uma fotografia, raso como um pires
Veja bem, não é que Jaafar seja ruim. Muito pelo contrário: de tudo o que há de problemático no filme, ele é a melhor surpresa. Há momentos em que parece incorporar o mimetismo do tio de forma mediúnica. A leveza dos pés, a inclinação do pescoço, o timbre de voz sussurrado e a explosão de energia nas cenas de dança são perfeitos. Ele só não conseguiu escapar da representação vazia que o roteiro e a direção oferecem.
Convocar Jaafar Jackson para viver o tio já estabelece o ponto de vista: é o olhar da família, higiênico e distante de qualquer controvérsia. A receita da GK Films aplicada com Freddie Mercury aqui não funciona. A história do cantor do Queen foi romantizada até que restasse apenas o brilho do palco. Funcionou justamente porque as polêmicas dele eram bem mais amenas que as de Michael Jackson, deve-se admitir.
Com o Rei do Pop, a fórmula da nostalgia e presença de palco por si só não se sustenta. A direção de Fuqua e o figurino de Marci Rodgers até brilham quando o ritmo é musical, uma vez que colocam o espectador imerso nos shows icônicos do cantor. Quando Michael desce do palco, entretanto, o filme desmorona.
O problema, nota-se já de cara, vem do roteiro — o ponto mais fraco da produção. É difícil acreditar que o mesmo homem que escreveu Gladiador tenha assinado diálogos tão rasos e artificiais. A única explicação plausível é que, na tentativa de blindar o cantor contra as polêmicas, o enredo removeu qualquer camada de profundidade humana do personagem. Michael, aqui, é etéreo. Uma eterna criança incapaz de sentir raiva, inveja ou de cometer erros banais. É um saco vazio: sem conflito interno, sem defeitos.
Toda vez que o longa tenta destrancar uma porta mais íntima sobre a persona do cantor, como seus sentimentos, inspirações ou mesmo motivações, a chave engasga na fechadura. É como um daqueles presentes de Natal grandes e super bem embalados: parece que vai ter algo incrível dentro, mas, quando se rasga o embrulho, há lá um par de meias.
Também é difícil engolir que não houve tempo para desenvolver a relação de Michael com a criação das músicas. O longa pincela as origens das inspirações para letras e videoclipes de forma episódica e rápida. Não há tempo para o respiro. Não entendemos como a mente de Michael operava para criar as melodias. Tudo é resolvido com uma facilidade mágica.
Em vez de entrar na cabeça do homem que queria ser o maior entertainer do mundo, o filme foca em nos convencer de sua doçura. As cenas de Michael com crianças e animais quase gritam uma validação constante da inocência do cantor. Pode ser que o Michael real tenha sido exatamente assim, mas, no cinema, a forma como Fuqua filma essas passagens soa fabricada, sem a autenticidade necessária para que o público se envolva emocionalmente.
O vilão canastrão e a ausência de Janet
Toda essa superficialidade se arrasta para o elenco de apoio. Joe Jackson, o patriarca vivido por Colman Domingo, é um dos maiores desperdícios do filme. Domingo é um ator imenso, mas aqui ele é reduzido a um vilão canastrão de filme de ação dos anos 1990. A direção de Fuqua peca e muito em retratar a pressão psicológica que Joe exercia com camadas ou sutileza. Poderia ser o melhor ponto de partida, para além do vilão clássico que o roteiro o propõe a ser.
Isso dito, a estrutura familiar apresentada no filme sofre de lacunas inexplicáveis. Enquanto os irmãos de Michael orbitam o protagonista como figurantes, a ausência de Janet Jackson é um vácuo gritante. Como uma cinebiografia que pretende explorar a família Jackson ignora a única outra integrante que atingiu um patamar de estrelato global comparável ao de Michael? Enfim, fica a torcida para que Janet apareça mais no segundo filme.
No panorama geral, Michael é um filme visualmente fantástico que tem um conteúdo narrativo irrelevante. Cumpre a função de trazer à tona a genialidade artística de Jackson em um tom mágico e, sem dúvidas, vai transformar os cinemas do mundo todo em sessões de karaokê. Não cravo, mas arrisco dizer que deve passar do bilhão nas bilheterias.
Mas quem esperava encontrar a alma do Rei do Pop — com todas as suas dores, ambições reais e contradições humanas —, vai se decepcionar. Entre o ícone e o homem, Antoine Fuqua escolheu filmar o pôster.
Quando estreia o filme de Michael Jackson nos cinemas?
O filme estreia nesta quinta-feira, 23 de abril.
Onde assistir à cinebiografia de Michael Jackson?
O filme está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil a partir desta quinta-feira, 23.
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