Clube CHRO EXAME debate neurociência aplicada à gestão de pessoas
A cobrança por desempenho dentro das empresas costuma aparecer em metas, indicadores e reuniões. Mas parte do resultado de uma equipe também passa por fatores menos visíveis: sono, atenção, emoção, confiança, ambiente e a forma como cada pessoa toma decisões sob pressão.
Foi esse o tema da edição mais recente do Clube CHRO EXAME, realizada em 25 de junho, no restaurante Cantaloup, em São Paulo. O encontro reuniu lideranças de Recursos Humanos para uma conversa sobre neurociência aplicada à gestão de pessoas e aos negócios.
A edição de junho de 2026 do Clube CHRO EXAME em São Paulo teve o patrocínio de Alelo e da Elofy by Zucchetti.
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A convidada da noite foi Alexandra Olivares, professora da Saint Paul Escola de Negócios e especialista em neurociência aplicada à tomada de decisão. A palestra teve como foco mostrar como o estudo do cérebro e do sistema nervoso pode ajudar empresas a melhorar decisões, desenvolver líderes e cuidar do desempenho de times.
“Neurociência é o estudo do sistema nervoso e também da relação do sistema nervoso com outros sistemas do corpo”, afirmou Alexandra. “Ela estuda como a interação com o intestino, o coração e a respiração nos ajuda a performar e sobreviver.”
O que é neurociência aplicada aos negócios
Na prática, a neurociência aplicada aos negócios tenta traduzir descobertas sobre o comportamento humano para situações comuns no trabalho.
Isso inclui entender como uma pessoa reage a pressão, por que um time perde confiança, como emoções influenciam decisões e de que forma o ambiente pode mudar a maneira como alguém se comporta.
Alexandra explicou que o cérebro não trabalha sozinho. Ele responde ao corpo, às relações, à cultura e às experiências de vida. Por isso, comportamento não pode ser tratado como uma conta simples.
“Se o comportamento fosse uma equação matemática, as variáveis seriam ambiente, genética, experiência e cultura”, disse. “A gente é produto daquilo que faz e das pessoas com quem convive.”
Um dos pontos centrais da palestra foi o córtex pré-frontal, área do cérebro ligada a planejamento, execução, tomada de decisão e regulação emocional.
“É o famoso CPF. Não é o da Receita Federal, é o córtex pré-frontal”, afirmou Alexandra. “Ele é responsável pelas funções mais complexas cognitivas e emocionais. A inteligência emocional está no nosso córtex pré-frontal.”
Quem é Alexandra Olivares
Alexandra nasceu em Caracas, na Venezuela. Sua aproximação com o tema da neurociência começou por uma mistura de trajetória profissional e experiência pessoal.
Durante a palestra, ela contou que uma das razões para estudar comportamento foi tentar entender a saúde mental do pai, que enfrentou depressão e passou por internações psiquiátricas.
“Um dos motivos para estudar comportamento foi tentar entender meu pai”, afirmou. “Eu queria cuidar melhor da minha saúde mental também, da saúde mental das pessoas com quem eu trabalhava.”
Alexandra é formada em Ciências Contábeis e Finanças pela Universidad Católica Andrés Bello, na Venezuela, tem MBA pela ESADE Business School, na Espanha, especialização em Neurociência Aplicada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e certificação em ciências comportamentais pela Columbia Business School.
Ela também fez formações em neurocoaching e team coaching pelo NeuroLeadership Institute, certificação de talentos pela Gallup e credenciamento como coach pela International Coach Federation.
O primeiro contato acadêmico com a neurociência veio no mestrado em administração na ESADE. Na época, ela estudou o livro “Líder Ressonante” e entrou em contato com conceitos como amígdala, região do cérebro ligada ao mapeamento de estímulos e a respostas automáticas como luta, fuga e paralisia.
Depois, ao se mudar para o Brasil em 2010, aprofundou os estudos em neurociência aplicada e passou a atuar com empresas, líderes, conselhos e equipes.
“Eu gosto de falar que neurocientista propriamente eu não sou, porque o neurocientista tem pesquisa em laboratório e doutorado”, afirmou. “Eu sou especialista em neurociência aplicada. Leio artigos, livros e autores e tento transformar esse conhecimento em práticas que melhoram indivíduos, times, organizações e culturas.”
Como a neurociência chega ao RH
A aplicação para o RH aparece em situações como desenvolvimento de líderes, saúde mental, cultura, aprendizagem, tomada de decisão e gestão de conflitos.
Um dos exemplos citados por Alexandra veio de 2018, quando ela trabalhava em uma multinacional. Na época, teve de lidar com a demissão de um executivo e assumir a posição interinamente até a chegada de uma nova liderança.
Ela contou que usou práticas de regulação emocional para lidar com o período: atenção à respiração, controle da expressão corporal, pausas e trabalho individual quando necessário.
Depois da saída do executivo, o desafio passou a ser cuidar do time, que estava inseguro sobre o futuro.
“Eu precisava acalmar, porque eles estavam extremamente inseguros”, afirmou. “Comecei a trabalhar com eles confiança e transparência.”
Alexandra também mudou o ambiente físico de algumas conversas para facilitar diálogos francos. Segundo ela, o ambiente influencia comportamento e pode ajudar ou atrapalhar a abertura das pessoas.
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Resultado e bem-estar no mesmo debate
A discussão não ficou restrita à saúde mental. Alexandra conectou o tema à entrega de resultados.
Na visão dela, empresas precisam olhar para desempenho e bem-estar ao mesmo tempo, especialmente quando um time passou por problemas de liderança, pressão ou perda de confiança.
“Como é que a gente entrega resultado se o time não está se sentindo bem?”, afirmou.
A partir dessa pergunta, a neurociência entra como ferramenta para entender o que está por trás de comportamentos visíveis. Um profissional que evita falar em reunião pode estar reagindo a medo, falta de segurança, baixa autonomia ou experiências anteriores. Um time que demora a decidir pode estar preso a vieses de grupo ou conflitos não tratados.
Alexandra citou o modelo SCARF, criado por David Rock, para explicar necessidades sociais que aparecem no ambiente de trabalho: status, certeza, autonomia, relacionamento e justiça.
A ideia é que essas dimensões possam ativar sensação de ameaça ou recompensa. Quando uma pessoa se sente excluída, injustiçada ou sem controle, o cérebro pode interpretar a situação como risco.
“O ser humano nasceu para pertencer, para conectar”, afirmou. “Quando a gente não se sente parte, isso dói para o cérebro.”
Tomada de decisão sem piloto automático
Outro uso da neurociência nas empresas está na tomada de decisão. O tema vale para líderes, comitês e conselhos.
Alexandra explicou que decisões em grupo podem ser afetadas por vieses, ruídos e pressões sociais. Por isso, a estrutura do processo importa.
“Como é que a gente cria critérios e estrutura um processo que mitiga vieses e ruídos?”, afirmou. “O objetivo não é ter certeza de que foi a melhor decisão, mas ter tranquilidade de que o processo foi tão bom quanto poderia ter sido.”
A professora também destacou que não existem dois cérebros iguais. Cada pessoa interpreta estímulos a partir de expectativas, histórias e medos próprios.
Isso ajuda a explicar por que a mesma mensagem pode gerar reações diferentes dentro de uma empresa. Um feedback pode ser visto como orientação por uma pessoa e como ameaça por outra. Uma mudança de meta pode ser recebida como desafio por um time e como risco por outro.
A atenção virou tema de gestão
Nos materiais de apoio enviados por Alexandra, a hiperconexão aparece como um dos desafios atuais para empresas e pessoas.
Ela cita que o brasileiro passa, em média, 157 dias por ano olhando para telas de smartphones, computadores e televisores. O excesso de telas afeta foco, ansiedade e relações.
Um dos conceitos usados por Alexandra é a rede neuronal por defeito, ou Default Mode Network, conhecida pela sigla DMN. Trata-se de uma rede ligada à divagação mental. Quando hiperestimulada, ela dificulta a presença no momento.
“Um estudo de Harvard mostrou que passamos 47% do tempo acordados divagando, e quanto mais fazemos isso, mais infelizes nos sentimos”, afirmou Alexandra no material de apoio. “A tecnologia atual potencializa esse estado. Não estamos mais no comando da nossa própria atenção.”
Para empresas, isso significa que atenção não pode ser tratada apenas como disciplina individual. Notificações, reuniões em excesso, mensagens simultâneas e plataformas digitais moldam o comportamento.
Alexandra defende pequenas práticas de intencionalidade, como definir locais para deixar o celular, trocar mensagens por conversas presenciais quando possível e criar momentos de desconexão.
Respiração, emoção e criatividade
Outro exemplo prático citado nos materiais de apoio é a respiração.
Alexandra explica que respirar é um processo automático, mas também pode ser modulado de forma consciente. Pausas para observar a respiração ajudam funções ligadas à atenção, memória, regulação emocional e criatividade.
A professora afirma que a inspiração profunda pode estimular maior coordenação neural, associada à percepção simultânea de informações e geração de insights. Já a expiração mais lenta tende a reduzir ansiedade em situações de pressão.
Na prática, isso pode ser usado antes de conversas difíceis, reuniões de decisão, apresentações ou momentos de tensão entre equipes.
Emoções também entram na produtividade
Alexandra também defende que pessoas aprendam a nomear emoções positivas, não apenas lidar com emoções difíceis.
Nos textos de apoio, ela afirma que conquistas cotidianas, reconhecimento, gratidão e orgulho podem alterar a química interna e influenciar relações no trabalho.
A recomendação é simples: quando uma emoção confortável aparecer, fazer uma pausa para nomeá-la e registrar o momento. A prática pode ajudar a sustentar produtividade e qualidade de entrega.
“Ganhar musculatura para identificar nossos sentimentos é o primeiro passo para uma saúde emocional e relacional”, escreveu Alexandra.
Quem esteve no evento
A edição do Clube CHRO EXAME também teve uma abertura institucional sobre relacionamento, desenvolvimento de talentos e o ecossistema EXAME, Saint Paul e Na Prática.
A programação apresentou a Conferência Na Prática, iniciativa voltada à conexão entre empresas e jovens talentos. Segundo o material exibido no encontro, a conferência teve mais de 10.800 inscritos e já contou com a participação de mais de 250 empresas ao longo de mais de dez anos.
O modelo substitui o formato tradicional de feira por mesas de relacionamento, nas quais recrutadores conversam diretamente com estudantes. Cerca de 10% dos participantes são selecionados para um processo chamado pitch cultural, criado para aproximar valores dos jovens e cultura das empresas.
Ao longo de 2026, o Clube CHRO EXAME segue com encontros voltados a temas como liderança, cultura, desenvolvimento, saúde mental e retenção de talentos.
O evento contou com a presença de nomes de peso no cenário corporativo brasileiro, com representantes de empresas como:
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