Código-Mãe: o silêncio de 20 anos que virou pintura pelas mãos de Jane e Gabriel Wickbold

Por Luiza Vilela 1 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Código-Mãe: o silêncio de 20 anos que virou pintura pelas mãos de Jane e Gabriel Wickbold

A arte, às vezes, precisa de tempo para curar e de companhia para transbordar. Após duas décadas de uma trajetória interrompida, a artista Jane Wickbold retorna ao ateliê para um exercício inédito de construção a quatro mãos com o filho, Gabriel Wickbold.

A exposição "Código-Mãe", que abre no dia 6 de abril na Vila Nova Conceição, é diálogo vivo. São 22 telas onde o gesto de um se sobrepõe à persistência do outro, e retratam o DNA familiar em linguagem pictórica. Estará presente também na SP Arte, que começa na próxima quinta-feira, 9 de abril.

Jane, que iniciou a trajetória na arte nos anos 1990 e teve a produção interrompida no início dos anos 2000, volta de forma prática e simultânea: mãe e filho trabalham sobre as mesmas superfícies, para transformar a pintura em um campo de ação comum.

Para Gabriel, consolidado na fotografia desde 2012, o projeto representa um deslocamento de linguagem para a pintura, onde o gesto repetitivo e a construção por camadas tornam-se o eixo estruturante da obra.

A matéria do tempo e o corpo que resiste

As obras de "Código-Mãe" partem de um acúmulo de registros no tempo. Cada traço é um intervalo de presença. Um elemento curioso é a incorporação de telas de sombreamento — materiais usados no cultivo de plantas sensíveis à luz — que operam como pele e proteção nas telas. Elas criam um jogo de sobreposição e instabilidade, que sugerem que a imagem está sempre em processo de formação.

A dimensão física também é central na mostra. A convivência de Jane com a artrite reumatoide juvenil introduz uma camada de resiliência à matéria. As superfícies, por vezes, assemelham-se a cascos ou estruturas de contenção. É uma maneira de tensionar a fragilidade do corpo contra a resistência da arte.

O processo foi tão intenso que está sendo registrado em um documentário, que acompanha as conversas e os silêncios do ateliê.

Ao revisitar a prática de Jane, Gabriel desloca a ideia de "influência" para algo mais profundo. Valores como disciplina e persistência deixam de ser méritos individuais para serem entendidos como parte de um ambiente formador. Na exposição, há uma inversão de luz: aquela que ocupava uma posição estrutural nos bastidores passa a assumir a centralidade, enquanto a linguagem de Gabriel se reconhece como fruto dessa transmissão invisível.

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