Cogna cai mais de 20% em relação ao pico do ano: acabou o 'hype'?

Por Clara Assunção 23 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Cogna cai mais de 20% em relação ao pico do ano: acabou o 'hype'?

Depois de liderar com folga os ganhos do Ibovespa em 2025, com valorização de 238,26% no ano, a Cogna entrou em 2026 sob uma visão mais rigorosa do mercado. Em 28 de janeiro, as ações atingiram R$ 4,59 — a máxima do ano. Mas, desde então, recuaram 20,9% e fecharam a última sexta-feira, 20, cotadas a R$ 3,63.

Embora o papel acumule alta de 14,56% no ano até 20 de fevereiro, a correção desde o pico marca uma mudança de tom após o rali expressivo do ano passado.

A disparada de 2025 foi atribuída ao processo de reestruturação iniciado quatro anos antes. "O mercado finalmente reconheceu o trabalho que vínhamos fazendo nos últimos quatro anos", afirmou o CEO Roberto Valério ao INSIGHT. Segundo ele, a companhia mergulhou no core business, enxugou a operação e passou a explorar com mais intensidade competências já existentes.

Em 2021, a empresa decidiu deixar de operar escolas de educação básica, vendeu as unidades para a Eleva e passou a focar em sistemas de ensino. "Em vez de operar a escola, a gente decidiu servir a escola", disse Valério. No ensino superior, por meio da Kroton, fechou 35% dos campi e reduziu cursos presenciais que operavam no limite do deficitário. "Fazíamos muitos cursos presenciais que operavam no limite do deficitário", reconheceu o executivo.

A companhia também ampliou a frente B2G (Business to Government). "A gente faturava em média de R$ 30 a R$ 40 milhões por ano com soluções para os governos. Em 2024 já foram R$ 300 milhões e este ano vamos bater uns R$ 400 milhões", afirmou o CEO na ocasião. Em 2024, a empresa cumpriu o guidance traçado em 2020, entregando mais de R$ 2 bilhões em Ebitda e R$ 1 bilhão em caixa operacional. "Isso é resultado operacional. Caiu a ficha para o mercado", disse Valério.

Neste início de ano, porém, algumas casas de análise passaram a adotar uma postura mais cautelosa. Em relatório divulgado no dia 10 deste mês, o Bradesco BBI rebaixou a recomendação do papel de Compra para Neutra e reduziu o preço-alvo para o fim de 2026 de R$ 4,80 para R$ 4,20.

O BBI apontou "múltiplos menos atrativos" e "perspectiva pouco animadora para 2026", com crescimento de lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) estimado em cerca de 6%.

Para o quarto trimestre de 2025, o banco também espera "resultados ligeiramente fracos", com queda de 5% no Ebitda, na comparação anual e compressão de margens, especialmente na Kroton e na Saber. A margem Ebitda consolidada, que mede a capacidade total do grupo, deve recuar para 34,3%, três pontos percentuais abaixo do ano anterior, segundo o banco.

Acabou o 'hype'?

Na avaliação de Leonardo Martins, sócio fundador da TIR Investimentos, a empresa "inicia 2026 em um patamar de solidez não visto desde antes de seu ciclo de expansão agressiva".

Com alavancagem de 1,1 vez dívida líquida/Ebitda e retomada do pagamento de dividendos, ele considera que a companhia "encerrou seu ciclo de turnaround financeiro". Em outras palavras: a empresa saiu da fase de "arrumar a casa" e entrou na etapa de provar que consegue crescer de forma sustentável.

"A discussão deixou de ser sobre solvência e passou a ser sobre crescimento orgânico", afirma Martins. Segundo o gestor, o lucro atual é "predominantemente estrutural", sustentado por uma estrutura de capital saneada e pela redução das despesas financeiras.

Mas o desafio de 2026 é "essencialmente comercial". "A sustentabilidade do lucro dependerá da expansão da base de alunos e da defesa do ticket médio em um ambiente competitivo, sem o auxílio das alavancas extraordinárias de eficiência do passado", acrescentou.

Martins também descarta que a queda do papel da empresa em relação ao seu pico neste ano decrete o "fim do hype" da Cogna que entrou para o clube das "vacas leiteiras" no setor na análise do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME).

"Não se trata do fim da tese, mas de uma transição da euforia para a sobriedade. O rali de 2025 foi um ajuste relevante de valor; o recuo recente é interpretado como realização técnica após movimento intenso", afirmou.

Na sua leitura, o perfil do acionista mudou, com maior presença institucional e foco em geração de caixa. "É um papel que exige paciência fundamentalista, não apenas apetite ao risco".

Bruno Mazzoni, analista CNPI-T e administrador de empresas, também classifica o movimento como realização técnica. "Os preços atuais, próximos de R$ 4 por ação, remetem ao preço de IPO de 2007", afirma.

O especialista destaca que o papel negocia a cerca de 5 vezes o lucro, o que considera atrativo. "O 'hype' murcha se o múltiplo esticar acima de 15 vezes lucro; hoje, a 5 vezes, está atraente".

No curto prazo, Mazzoni avalia que a ação pode lateralizar até a divulgação dos resultados em 11 de março ou até "ceder até R$ 2,74", a depender da reação do mercado.

Em relação à queda sobre o pico, o analista de investimentos vê espaço tanto para uma leitura tática quanto para cautela estratégica. Ele lembra que empresas em turnaround costumam pagar "dividendos pífios" durante boa parte do processo, o que eleva o risco de o investidor passar meses sem retorno relevante.

Mazzoni observa que a Cogna não deve ser posição predominante em carteira e, diante da ausência de dividendos mais robustos no horizonte de 2026, eventuais quedas podem abrir oportunidades negócios com opções de ações da empresa no mercado de derivativos, desde que o investidor esteja confortável com a volatilidade típica desse tipo de tese.

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