Com agro endividado, Bradesco prevê rodada de renegociações com setor

Por Clara Assunção 8 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Com agro endividado, Bradesco prevê rodada de renegociações com setor

O Bradesco (BBDC4) prepara para uma nova rodada de renegociações com produtores rurais afetados pelos eventos climáticos no Sul do país nos últimos dois anos.

A ideia é conceder um novo prazo de pagamento a produtores rurais que tiveram dívidas prorrogadas após as enchentes entre abril e maio de 2024, enfrentaram períodos de seca na sequência e agora começam a chegar ao fim dos períodos de carência concedidos pelos bancos. A proposta foi apresentada nesta quinta-feira, 7, pelo CEO do Bradesco, Marcelo Noronha, durante coletiva de resultados.

Na prática, o período em que os agricultores estavam temporariamente dispensados de pagar parcelas das dívidas chegou ao fim, e os pagamentos voltaram a ser cobrados pelo banco. Mas parte desses produtores rurais, no entanto, afirmou que ainda não conseguiu se recuperar financeiramente.

"Muita gente tem vencido carência agora. Ele [produtor] pode até estar no nosso estágio 2, e está no estágio 3 até, de operações curadas. Mas aí ele vai precisar de novo prazo. E a gente naturalmente vai apoiar e ajudar nesse momento", disse o CEO do Bradesco.

Os estágios mencionados seguem a Resolução 4.966 do Banco Central (BC), em vigor desde janeiro de 2025, de modernização da contabilidade bancária. No estágio 2 ficam operações com piora relevante no risco de crédito, geralmente com atraso entre 31 e 90 dias. Já o estágio 3 reúne dívidas com atraso superior a 90 dias ou sem expectativa de recuperação integral sem uso de garantias, exigindo provisão de 100% das perdas esperadas.

Ao se referir a "operações curadas" no estágio 3, Noronha faz menção aos clientes que chegaram ao nível mais crítico de risco, conseguiram melhorar temporariamente a situação financeira, mas agora podem voltar a enfrentar dificuldades com o vencimento das carências.

Agro como detrator pontual da qualidade do crédito e das provisões

Nos resultados financeiros do banco, divulgados na noite desta quarta, 6, o Bradesco reconheceu deterioração nas operações rurais mais antigas, especialmente de safras anteriores a 2024, tanto entre pessoas físicas quanto jurídicas. Segundo o banco, essa piora ajudou a pressionar as despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD), que cresceram 26,5% em um ano.

A leitura do banco é de que o setor atravessa uma combinação de fatores adversos. Além dos efeitos residuais das enchentes e da seca no Sul, Noronha citou juros elevados e a valorização do real frente ao dólar como elementos que reduziram a rentabilidade de parte dos produtores exportadores.

O câmbio, inclusive, também teve impacto direto sobre a carteira do banco. Cerca de 10% da carteira total do Bradesco está associada ao dólar, e a apreciação do real gerou uma pressão negativa nominal sobre os saldos de crédito ligados ao agro. Sem o efeito cambial, segundo o banco, a carteira expandida teria crescido 0,6% no trimestre e 9,5% em 12 meses.

Apesar do cenário mais desafiador, o Bradesco reforçou que mantém o agronegócio como segmento estratégico, mas agora com postura mais seletiva. O banco definiu o momento como de “apetite moderado com viés mais conservador”, intensificando filtros ligados a rating, tipo de cultura financiada e qualidade das garantias.

O apetite para o agro segue

Na prática, a preferência atual está concentrada em operações com garantias reais, especialmente alienação fiduciária no crédito rural. "Continuamos apostando, continuamos com apetite para o agro. Mas, naturalmente, trabalhando modelagem, rating, para decidir o crédito, o tipo de cultura, o tipo de garantia", afirmou Noronha.

O executivo também chamou atenção para sinais de desaceleração nos investimentos do setor. Segundo o CEO, fabricantes de máquinas agrícolas já trabalham com perspectiva de queda nas vendas em 2025, indicando maior cautela dos produtores na tomada de novos financiamentos.

Ainda assim, o banco evita uma leitura mais pessimista sobre o setor. Noronha destacou que o agronegócio brasileiro segue "super competitivo” e que há produtores atravessando o momento atual com boa liquidez. "Isso não significa que o agro vai parar".

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